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Artigos Segunda-feira, 29 de Junho de 2026, 09:23 - A | A

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ROSANA DE BARROS

A representatividade cunhã-poranga

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS

No mês de junho os tambores ecoam pela ilha de Parintins, e as arquibancadas se dividem apaixonadamente entre azul e vermelho. Em festa, uma figura emerge do centro da arena revestida de penas, sementes, tintas e ancestralidade: a cunhã-poranga.

A personagem é aguardada com expectativa pelo público, sendo celebrada pela exuberância de sua dança e pela potência estética da sua presença. Todavia, ela não pode ser reduzida a um simples símbolo de beleza feminina, ignorando a profundidade histórica, cultural e política que sua imagem passou a representar.

A palavra “cunhã”, de origem tupi, significa mulher. E “poranga” remete àquilo que é belo, admirável ou formoso. Mulher bonita, como tradução literal, é insuficiente diante da complexidade que a personagem adquiriu no imaginário amazônico contemporâneo. Ela é a síntese de um território, a corporificação de memórias indígenas e a manifestação artística de uma identidade amazônica frequentemente invisibilizada pelos centros hegemônicos de produção cultural do país.

Durante séculos, os povos indígenas foram descritos por viajantes europeus sob o olhar do exotismo. As mulheres indígenas, em especial, foram frequentemente transformadas em objetos de contemplação, ora romantizadas como figuras de pureza paradisíaca, ora submetidas a narrativas coloniais que as desumanizavam. O Brasil construiu parte de sua identidade nacional apoiado em representações idealizadas da indígena, desde a Iracema de José de Alencar até demais alegorias.

Embora a cunhã-poranga dialogue com imagens tradicionais das mulheres indígenas, surge no universo do Festival Folclórico de Parintins como uma personagem de protagonismo absoluto. É a própria guerreira! Não se limita a adornar a narrativa, sendo peça central do espetáculo, responsável por transmitir força, altivez e domínio cênico.

Todavia, é preciso reconhecer que a personalidade está situada em uma zona de tensão permanente. Ao mesmo tempo em que exalta referências indígenas, se insere em um ambiente competitivo, midiático e comercial, no qual padrões contemporâneos de beleza exercem influência significativa.

Assim, exige-se da cunhã-poranga mais do que dança: preparo físico, resistência e corpo moldado por expectativas sociais.

Seria ingenuidade ignorar que o espetáculo folclórico está submetido às dinâmicas do mercado cultural, da audiência televisiva e das redes sociais. Por outro lado, seria igualmente injusto desconsiderar o esforço de inúmeras artistas que transformaram o posto de cunhã-poranga em espaço de afirmação identitária e de visibilidade para causas indígenas.

Nas últimas décadas, lideranças indígenas femininas conquistaram voz pública em diversas frentes de atuação, denunciando invasões territoriais, queimadas, garimpo ilegal e violência contra comunidades tradicionais. A presença dessas mulheres na política, na universidade, nas organizações ambientais e nos movimentos sociais demonstra que a resistência indígena possui também um rosto feminino.

A cunhã-poranga tem assumido um papel pedagógico. Sua dança torna-se narrativa. Seus adornos contam histórias. Seus movimentos evocam rituais ancestrais. Sua presença em cena desafia uma visão limitada da Amazônia como espaço vazio ou simples reserva de recursos naturais.

Elas são inspiradas na ancestralidade e ocupam o centro do espetáculo e da multidão. Em um país marcado pelo apagamento histórico dos povos originários, esse gesto possui dimensão política.

É contraditório aplaudir a representação artística da mulher indígena, enquanto persistem elevados índices de mortalidade materna em aldeias, dificuldades de acesso à saúde, ausência de saneamento básico e ameaças constantes aos territórios tradicionais.

A celebração estética precisa ser acompanhada de compromisso ético. A beleza, para muitos povos originários, jamais esteve dissociada da coletividade, da memória e da relação harmoniosa com a natureza. Ser bela também significa carregar consigo a dignidade de um povo, preservando tradições e mantendo vivo um patrimônio imaterial construído ao longo de séculos.

Que saibamos enxergar para além das penas coloridas e dos movimentos coreografados a mulher amazônica em toda a sua complexidade e resistência.

(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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