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Artigos Terça-feira, 01 de Setembro de 2026, 14:02 - A | A

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Terça-feira, 01 de Setembro de 2026, 14h:02 - A | A

MARCELO SENISE

A multidão é real? O fenômeno Augusto Cury expõe a nova engenharia da popularidade política

Milhões de seguidores, influenciadores e suspeitas de robôs levantam uma questão que pode marcar 2026: já é possível artificializar não apenas uma mensagem, mas a sensação de que um candidato virou fenômeno?

MARCELO SENISE

MARCELO SENISE

Augusto Cury se tornou, em poucos dias, um dos personagens mais intrigantes das eleições de 2026. Milhões de novos seguidores, explosão de buscas, crescimento nas pesquisas e uma avalanche de influenciadores falando positivamente sobre sua candidatura transformaram aquilo que parecia uma participação periférica numa das histórias políticas mais comentadas do momento.

Era inevitável que surgissem suspeitas. Adversários passaram a questionar a velocidade do crescimento, a presença de perfis aparentemente artificiais e a multiplicação quase simultânea de vídeos de influenciadores. Fala-se em robôs, coordenação e impulsionamento artificial. Até agora, porém, suspeita não é prova — e seria irresponsável transformar perguntas legítimas em acusações.

Cury já possuía enorme notoriedade antes da política. É um dos escritores brasileiros mais conhecidos, acumulava milhões de seguidores e fala sobre temas que atravessam comportamento, ansiedade e relações humanas. Num eleitorado cansado da polarização, existem razões plausíveis para uma explosão orgânica de curiosidade e interesse.

Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. A questão não deveria ser simplesmente: “Augusto Cury está usando robôs?” O ponto mais importante é saber quanto de um fenômeno genuinamente espontâneo pode ser tecnologicamente amplificado até produzir uma percepção muito maior de popularidade, força e inevitabilidade.

Uma análise realizada pelo Sentinela Eleitoral encontrou no ecossistema de Cury um cenário particular. Entre as contas que comentavam suas publicações, 14% foram sinalizadas nas faixas de risco comportamental, o menor percentual entre oito ecossistemas pesquisados. Entretanto, numa amostra de seguidores, o índice chegou a 24%. Entre os seguidores sinalizados, 46% não possuíam nenhuma publicação, contra apenas 2% entre aqueles classificados como humanos.

Os próprios dados afastam conclusões apressadas. As contas sinalizadas que comentavam eram proporcionalmente menos favoráveis ao candidato do que os perfis considerados humanos. Portanto, a tese simplista de uma grande tropa automatizada entrando nas postagens apenas para elogiar Cury não encontrou sustentação nessa análise.

Também não é possível afirmar que seus milhões de novos seguidores tenham sido comprados ou artificialmente produzidos. A auditoria não isolou especificamente os perfis incorporados durante o crescimento recente.

Mas surgiu uma questão muito mais interessante: audiência aparente e audiência efetivamente mobilizada podem não ser a mesma coisa.

Nas redes sociais, seguidores não são apenas números. Milhões de seguidores comunicam popularidade. Curtidas comunicam aprovação. Compartilhamentos indicam relevância. Centenas de influenciadores aparentemente independentes falando sobre a mesma pessoa produzem a sensação de que uma descoberta coletiva está acontecendo.

E o cérebro humano utiliza exatamente esses sinais para interpretar o ambiente social.

É por isso que a discussão sobre inteligência artificial e eleições está entrando numa nova etapa. Durante anos, concentramos nossa atenção nas fake news. A pergunta era: a informação é verdadeira ou falsa? Agora precisamos acrescentar outra: a reação social que aparece ao redor daquela informação é autêntica?

Uma notícia pode ser verdadeira e sua circulação artificialmente ampliada. Uma opinião pode ser legítima e sua repetição automatizada. Um candidato pode estar realmente crescendo e, ao mesmo tempo, ter a dimensão desse crescimento potencializada por estruturas tecnológicas.

Nesse caso, ninguém precisa fabricar uma realidade falsa. Pode bastar aumentar artificialmente o tamanho aparente de uma realidade verdadeira.

A presença de inúmeros influenciadores falando sobre Cury acrescenta outra camada. Se essas manifestações são espontâneas, estamos diante de uma mobilização política distribuída. Se parte estiver sendo coordenada, conteúdos aparentemente independentes podem produzir a sensação de uma confirmação social generalizada.

Para quem está do outro lado da tela, a diferença é quase invisível. O cidadão vê um influenciador falando sobre o candidato. Depois outro. Depois um terceiro, de outro segmento. Encontra milhões de seguidores, lê notícias sobre crescimento e vê pesquisas registrando avanço. Tudo isso compõe uma narrativa mental extremamente poderosa: “alguma coisa está acontecendo.”

E pode realmente estar.

Esse é precisamente o ponto. Organicidade e artificialidade não precisam mais ser fenômenos opostos. Uma onda verdadeira pode ser identificada, acelerada e potencializada tecnologicamente. A tecnologia não necessariamente cria o movimento; pode fazê-lo parecer maior, mais rápido e mais inevitável.

É o que tenho chamado de integridade cognitiva. A democracia não depende apenas de informações verdadeiras. Depende também de um ambiente no qual o cidadão consiga interpretar com razoável autenticidade aquilo que a sociedade ao seu redor está fazendo.

A política sempre soube que percepção importa. O ambiente digital apenas tornou esse processo mais veloz e mais sofisticado. Hoje, a percepção de crescimento pode ajudar a produzir crescimento real.

Por isso, o caso Augusto Cury interessa mesmo a quem não pretende votar nele. Sua candidatura pode estar revelando algo que veremos cada vez mais: movimentos genuínos convivendo com automação, influenciadores e estruturas de amplificação de tal maneira que se torna difícil separar, a olho nu, o espontâneo do tecnologicamente potencializado.

A primeira geração da artificialização política digital queria parecer numerosa. A próxima quer parecer humana.

Talvez a manipulação eleitoral mais sofisticada do futuro não precise convencer ninguém a mudar de opinião. Poderá bastar convencer o cidadão de que todo mundo ao redor dele já mudou.

(*) MARCELO SENISE é Sociólogo, estrategista político, especialista em comportamento humano e em inteligência artificial aplicada à comunicação política. Presidente do IRIA — Instituto Brasileiro de Regulamentação da Inteligência Artificial. Autor da obra “A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política” e ada triologia “Blindagem Essencal”

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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