Existe uma função perversa na polarização política que raramente é admitida: ela é um extraordinário escudo para maus gestores, incompetentes e corruptos. Quanto mais a sociedade se divide entre “nós” e “eles”, menos pergunta sobre aquilo que deveria determinar uma eleição: saúde, educação, segurança, saneamento, emprego, infraestrutura e qualidade de vida.
A polarização consegue uma façanha: transforma política em identidade e governante em objeto de paixão. O cidadão deixa de avaliar quem administra seu dinheiro para defender quem representa sua tribo.
A Psicologia Social explica parte desse comportamento. Henri Tajfel, por meio da Teoria da Identidade Social, demonstrou nossa tendência de dividir o mundo entre o grupo ao qual pertencemos e os demais. Na política, isso produz uma perigosa distorção: aquilo que condenamos no adversário passa a ser relativizado quando praticado por alguém do nosso lado.
Corrupção no adversário é escândalo; no aliado, perseguição. Incompetência do outro é imperdoável; no nosso candidato, culpa das circunstâncias. Mentira do adversário é crime moral; a do aliado encontra rapidamente uma justificativa.
Leon Festinger acrescenta outro elemento com a dissonância cognitiva. Depois de investir emocionalmente durante anos em determinado político, reconhecer que ele fracassou significa admitir que talvez tenhamos errado. Para evitar esse desconforto, muitos preferem justificar o político a revisar a própria escolha.
É assim que o eleitor se transforma em advogado de quem deveria fiscalizar. E o mau político descobriu a utilidade desse mecanismo.
Ele não precisa entregar hospital funcionando se conseguir manter seus seguidores indignados contra algum inimigo. Não precisa explicar a escola ruim, o esgoto correndo na rua ou a estrada abandonada se conseguir produzir diariamente uma guerra ideológica. Não precisa justificar desperdícios ou suspeitas de corrupção se convencer sua base de que qualquer denúncia é obra do “outro lado”. Enquanto o eleitor discute ideologia, o incompetente escapa da cobrança pela gestão.
Aristóteles compreendia a política como instrumento voltado ao bem comum. Spinoza, séculos depois, mostrou a força dos afetos sobre o comportamento humano. Medo, esperança, paixão e ressentimento podem conduzir multidões. A polarização explora exatamente essa dimensão emocional.
Um eleitor permanentemente assustado com a possibilidade de vitória do adversário começa a aceitar quase tudo daquele que considera seu representante. A pergunta deixa de ser “quem pode melhorar nossa vida?” e passa a ser “quem pode derrotar aqueles que eu odeio?” Essa substituição custa caro.
A família precisa de atendimento médico, mas vota pela guerra ideológica. Precisa de escola de qualidade, mas escolhe pela paixão partidária. Precisa de saneamento, segurança e emprego, mas passa mais tempo discutindo personagens nacionais nas redes sociais do que cobrando resultados dos governantes locais.
Chegamos então a uma das maiores perversidades da política contemporânea: pessoas votando contra suas próprias necessidades enquanto acreditam estar defendendo suas convicções.
Na polarização extrema, questionar o político passa a ser entendido como atacar pessoalmente seu eleitor. O líder deixa de ser representante e vira ídolo. Nesse estágio, a fiscalização democrática começa a desaparecer.
O corrupto não precisa convencer seus seguidores de sua inocência; basta declarar-se perseguido. O incompetente não precisa apresentar resultados; basta encontrar culpados. O mau gestor não precisa explicar o fracasso; basta fabricar inimigos.
Por isso, antes de perguntar se determinado candidato é de direita ou de esquerda, deveríamos fazer perguntas mais incômodas: é competente? Respeita o dinheiro público? Entrega resultados? Melhorou a saúde? A educação? A segurança? Gerou desenvolvimento? Cumpriu aquilo que prometeu?
Ideologia é legítima. Divergência é necessária. O problema começa quando ambas servem para impedir o cidadão de enxergar a realidade.
Político não é religião, time de futebol nem objeto de devoção. É funcionário temporário da sociedade, pago com dinheiro público e obrigado a prestar contas. Talvez seja justamente essa verdade que a polarização tente esconder.
Enquanto pobres brigam com pobres, trabalhadores rompem amizades e famílias se dividem para defender políticos, deixam de fazer as perguntas que realmente assustam os maus governantes:
Onde está o dinheiro? Onde está a obra? Onde está o hospital? Onde está a escola? Onde está o emprego? Onde estão os resultados?
A democracia melhora quando o eleitor abandona a arquibancada, deixa de ser torcedor de político e volta ao seu verdadeiro lugar: cidadão que fiscaliza, cobra e exige resultados.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Professor universitário e analista Político.
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