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Artigos Sexta-feira, 28 de Agosto de 2026, 10:36 - A | A

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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2026, 10h:36 - A | A

PAULO CÉSAR

Agricultura familiar mostra o caminho do biogás em MT

PAULO CÉSAR DE SOUZA

JOÃO CÉSAR DE SOUZA

Este artigo é resultado de uma pesquisa de campo realizada na Comunidade Tijucal, no município de Acorizal/MT. Trata-se de registrar a dedicação conjunta do extensionista da Empaer, Roberto Damascena, e do proprietário João José de Souza na construção de uma miniusina com capacidade para a produção de 10 (dez) metros cúbicos mensais de biogás. O esterco, que em condições naturais sofre decomposição, é submetido, no biodigestor, a um processo de digestão anaeróbia, no qual microrganismos degradam a matéria orgânica e produzem biogás, composto principalmente por metano e dióxido de carbono. O gás produzido é então canalizado para aproveitamento energético.

Com um investimento médio de R$ 11.000,00 (onze mil reais), o proprietário estima que o volume produzido pela miniusina reduz seus custos com energia para cocção e fertilização em torno de R$ 700,00 (setecentos reais) por mês. O trabalho conjunto uniu visão ambiental e econômica e resultou na implantação de um biodigestor de modelo indiano. Foi escolhido um modelo de baixo custo e de fácil implantação. Trata-se de infraestrutura básica, uma das tecnologias disponíveis para a conversão de resíduos orgânicos em energia útil.

O biodigestor está em funcionamento há cinco anos, exigindo pouquíssima manutenção. O projeto tem se mostrado funcional e potencialmente escalável para outras propriedades da agricultura familiar.

Mesmo com uma atividade pecuária limitada a quatro cabeças de gado, já há produção de material disponível, cerca de 10 (dez) quilogramas diários, para abastecimento de uma câmara de fermentação que garante a geração contínua de biogás. O reator gera quantidade suficiente para a cocção diária na propriedade. Simultaneamente, um compartimento anexo permite o armazenamento do material resultante do processo de biodigestão, que já é aproveitado como biofertilizante no cultivo de hortaliças.

Por que essa iniciativa é tão relevante? O ganho não é apenas para o bolso de quem instala. Há razões ambientais e econômicas. Na perspectiva ambiental, a iniciativa contribui para reduzir o lançamento, em corpos hídricos, de matéria orgânica e de microrganismos potencialmente patogênicos presentes nos dejetos animais. Na dimensão econômica, o proprietário reduz custos ao canalizar o biogás para suas necessidades domésticas.
Resíduos pecuários também podem conter traços de metais e outras substâncias que, quando não tratados adequadamente, podem representar riscos à saúde humana e aos ecossistemas.

Nossas fontes hídricas estão sendo pressionadas por milhares de toneladas anuais de excretas provenientes da atividade pecuária na área rural e por esgotos no perímetro urbano. Em épocas de estiagem e calor extremo, os cursos d’água podem sofrer queda de vazão devido à menor precipitação. Além disso, constatam-se maiores perdas de água por evaporação para a atmosfera. A menor contribuição hídrica no período de seca pode ser agravada pela ausência de vegetação protetiva e por acréscimos no consumo.

Quanto menores o volume e a vazão dos cursos d’água, menor tende a ser sua capacidade de diluição dos contaminantes e mais limitada pode ser sua capacidade de autodepuração diante da carga de poluentes acumulada ao longo do tempo. Isso pode levar a outra intervenção substitutiva: a perfuração de poços. Nesse caso, deve ser verificada a regularidade da captação de água subterrânea, inclusive quanto ao seu enquadramento e à eventual necessidade ou dispensa de outorga.

Como toda ação tem consequências, os efeitos adversos sobre os recursos hídricos retornam na forma de comprometimento da qualidade da água e de diminuição de sua disponibilidade para dessedentação animal e para as múltiplas necessidades de consumo humano.

A crescente pressão sobre os recursos hídricos constitui um desafio relevante para a sustentabilidade das atividades rurais. Estatísticas do IBGE informam que o rebanho estadual atinge cerca de 30 milhões de cabeças. Desse total, aproximadamente quatro milhões de cabeças estão vinculadas a estabelecimentos enquadrados na agricultura familiar.

Em um cenário conservador, estimamos para a agricultura familiar do Estado de Mato Grosso uma economia potencial de aproximadamente R$ 14 milhões por ano em custos evitados com a compra de gás de cozinha (GLP), caso parte das famílias aproveitasse, mesmo em quantidades modestas, a massa de esterco disponível na propriedade.

Para chegar a essa cifra monetária, simulamos um cenário em que apenas 10% das famílias rurais consideradas — oito mil famílias — substituíssem integralmente o consumo de um botijão de GLP por mês por biogás. Considerando um preço referencial de aproximadamente R$ 145,00 por botijão, a economia potencial alcançaria cerca de R$ 14 milhões por ano.

Para fins da simulação, adotou-se como hipótese uma alimentação média do biodigestor equivalente a aproximadamente 10 kg diários de material orgânico por família. Ao final do processo, parte significativa do material introduzido no reator permanece na forma de digestato, que pode ser aproveitado como biofertilizante. Sua quantidade e composição, entretanto, dependem da carga introduzida, da adição de água e das características do processo de biodigestão.

O modelo indiano adotado na propriedade depende de carga manual de material no reator, mas eventualmente podemos admitir condução por gravidade ou ainda por bombeamento, com o uso de estação elevatória. É importante considerar essa possibilidade, já que o tempo consumido no transporte manual acabaria por concorrer com outras rotinas necessárias à manutenção da atividade principal.

Para cada propriedade da agricultura familiar, importa avaliar a viabilidade dos biodigestores rurais, bem como as tecnologias aplicáveis a cada modelo, tendo como base princípios construtivos, operacionais e aspectos de eficiência.

Apesar dos benefícios identificados, observa-se que uma das principais barreiras à disseminação da tecnologia está associada a fatores culturais e à baixa difusão de conhecimento técnico entre os produtores rurais. Nesse sentido, torna-se fundamental a atuação integrada de instituições públicas e privadas, como secretarias estaduais, prefeituras, entidades de assistência técnica e organizações de capacitação rural, no sentido de promover a divulgação, o treinamento e o suporte técnico necessários à implantação dos sistemas.

Um planejamento cuidadoso deve considerar condições locais, aspectos topográficos, logística de transporte de resíduos, dimensionamento hidráulico e segurança operacional.

Por fim, conclui-se que os biodigestores rurais podem constituir uma alternativa sustentável e tecnicamente viável para o tratamento de resíduos orgânicos e a geração de energia em pequena escala, desde que observadas as condições locais de implantação e operação. Sua adoção, quando apoiada por políticas públicas, assistência técnica qualificada e estratégias de difusão tecnológica, pode contribuir significativamente para a melhoria das condições sanitárias, ambientais e econômicas das comunidades rurais.

É importante considerar, ainda, que a energia é elemento central de nossa sociedade. Para as atividades da agricultura familiar, mesmo que, individualmente, os custos evitados pareçam modestos, seus efeitos podem irradiar-se por meio de ganhos econômicos, tecnificação complementar e oportunidades de fomento a outras atividades, como a formação de uma rede de serviços capaz de oferecer suporte à atividade rural.

Importante ainda enfatizar que a tecnologia contribui diretamente para objetivos relacionados ao desenvolvimento sustentável, especialmente o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 — Água Potável e Saneamento — e o ODS 7 — Energia Limpa e Acessível —, integrantes da Agenda 2030 das Nações Unidas, da qual o Brasil é signatário.

No quintal do senhor João, o propósito ambiental e econômico tornou-se viável com quatro reses e três pequenos tanques de alvenaria.

(*) PAULO CÉZAR DE SOUZA é gestor governamental e atua na Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (SEAF/MT).

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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