A professora Wangari Maathai (1940-2011) ainda não recebe o reconhecimento que merece. Apesar de ter sido a primeira africana a receber o Prêmio Nobel da Paz, em 2004, permanece subestimado o papel histórico que representou na luta ambiental e pelos direitos das mulheres. Bióloga queniana, fundadora do Green Belt Movement, Maathai mobilizou milhões de mulheres para plantar árvores, recuperar solos degradados e fortalecer comunidades rurais. Enfrentou ditaduras, prisões e violência política, sempre com a convicção de que proteger o meio ambiente é proteger a dignidade humana. Sua trajetória é um exemplo raro de coragem cívica, visão ecológica e compromisso social.
Essas lições permanecem atuais e urgentes, especialmente para quem busca um desenvolvimento verdadeiramente sustentável. Antes de muitos, ela compreendeu a interdependência entre floresta, água, clima e segurança alimentar. Sua frase mais célebre sintetiza essa visão com precisão quase profética: “Se você destruir a floresta, então o rio deixará de fluir, as chuvas se tornarão irregulares, as lavouras falharão e você morrerá de fome…”. Não é metáfora; é diagnóstico.
O paralelo com o Brasil contemporâneo é inevitável. A expansão do agronegócio — setor vital para a economia nacional — não pode se transformar em inimiga dos ecossistemas que o sustentam. O agro não pode ser inimigo do eco e tampouco o eco pode ser inimigo do agro. Em um contexto de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, essa oposição é simplesmente suicida.
Fragilizar as regras do licenciamento ambiental, negligenciar a gestão das unidades de conservação, desaparelhar a fiscalização ambiental com iniciativas como o chamado “PL anti-drones”, que restringe o uso de tecnologia essencial ao monitoramento territorial, ou tentar ardilosamente reduzir áreas de reserva legal no bioma amazônico é agir contra a própria base produtiva do país. Os riscos não são abstratos. Todos os modelos climáticos destacam o papel essencial da evapotranspiração da Floresta Amazônica — o processo pelo qual a vegetação libera umidade na atmosfera — para a segurança hídrica e a produtividade agrícola do Centro-Oeste, Sudeste e Sul brasileiros, por intermédio dos “rios voadores”. A historiadora britânica Barbara Tuchman reconheceria, nesse cenário de ofensiva antiambientalista, mais um capítulo daquilo que descreveu em “A marcha da insensatez”: a recorrência histórica de governos e sociedades que, mesmo alertados, insistem em agir contra seus próprios interesses.
O Brasil não precisa escolher entre produzir e preservar. É possível — e comprovadamente viável — expandir muito a produção agropecuária sem desmatar mais um único hectare de vegetação nativa, apenas usando áreas já degradadas, adotando técnicas como agricultura regenerativa, integração lavoura-pecuária-floresta e agricultura de baixo carbono. O país dispõe de conhecimento técnico, território e capacidade institucional para liderar uma revolução verde tropical.
Wangari Maathai nos ensinou que plantar árvores é semear o futuro, a paz e a esperança. Se o Brasil quiser continuar sendo uma potência agrícola, precisa aplicar essa lição com a seriedade que ela exige.
(*) LUIZ HENRIQUE LIMA é professor e Doutor em Planejamento Ambiental.
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