Muito antes de o Show Safra Mato Grosso se tornar a maior vitrine tecnológica do agronegócio estadual, a pesquisa agrícola em Lucas do Rio Verde avançava de forma quase artesanal. No fim da década de 1990, com estrutura mínima e muito improviso, a Fundação Rio Verde deu início a experimentos que mudariam para sempre o cultivo do milho no Cerrado brasileiro.
Naquele período, a Fundação existia apenas no papel. Ainda assim, o objetivo era claro: gerar conhecimento técnico para aumentar a produtividade do milho, cultura que começava a ganhar espaço no médio-norte de Mato Grosso.
Foi nesse contexto que o engenheiro agrônomo Clayton Bortolini aceitou o convite do então presidente da Fundação, Egídio Vuaden, para iniciar os trabalhos de pesquisa. A “estrutura” se resumia a uma cadeira, um computador e uma mesa em uma sala emprestada no escritório da fazenda de Dora Ceconello, que anos depois assumiria a diretoria executiva da entidade.
Sem área própria para experimentos, a solução veio por meio de parceria com o produtor rural Joci Piccini, atual presidente da Fundação. Ele cedeu quatro hectares de sua propriedade para a implantação dos primeiros ensaios. Com um trator, uma plantadeira e um pulverizador adaptados, os estudos começaram a sair do papel.
No ano seguinte, a Fundação estruturou seu próprio campo experimental na Fazenda Branca. Ali também ocorreram os primeiros Dias de Campo, voltados à apresentação de resultados aos produtores da região. O que começou como reuniões técnicas entre parcelas experimentais daria origem, anos depois, ao Show Safra Mato Grosso.
Em 2000, foram implantados 21 experimentos focados na safrinha — como era chamada a segunda safra. Além do milho, culturas como sorgo e mamona também foram avaliadas. Um episódio curioso ilustra o estágio inicial da atividade: parte da primeira pesquisa com milho acabou sendo colhida por um pamonheiro da cidade, que enxergou valor comercial nas espigas experimentais.
Os primeiros resultados trouxeram um achado decisivo. À época, o milho era plantado com espaçamento de 90 centímetros entre linhas e baixa população de plantas. Os ensaios conduzidos por Bortolini indicaram que o uso do mesmo espaçamento da soja — 45 centímetros — aliado ao aumento da população, poderia elevar a produtividade em até 50%, sem aumento de custos.
Inicialmente recebida com desconfiança por parte dos produtores, a recomendação foi validada nos ciclos seguintes. Hoje, o espaçamento reduzido é padrão no milho cultivado em Mato Grosso e em todo o Cerrado brasileiro, resultado direto dos experimentos conduzidos em Lucas do Rio Verde.
No primeiro ano de adoção em larga escala, a mudança reduziu retrabalhos nas plantadeiras, diminuiu custos operacionais e elevou a produtividade média de 60 para 90 sacas por hectare.
LIDERANÇA NACIONAL
As pesquisas também avançaram para o uso da braquiária como planta de cobertura. Inicialmente vista com ressalvas, a prática hoje ocupa milhões de hectares no estado, fortalecendo o sistema de plantio direto e melhorando a qualidade do solo.
Aliado a isso, o encurtamento do ciclo da soja — impulsionado por melhoramento genético — ampliou a janela da segunda safra, consolidando o modelo produtivo que transformou Mato Grosso no maior produtor de milho do Brasil.
O que começou com uma sala emprestada, área cedida e máquinas improvisadas tornou-se referência nacional em pesquisa aplicada. Se hoje o Brasil colhe milhões de toneladas de milho na segunda safra, parte dessa trajetória começou nos experimentos da Fundação Rio Verde, sustentados pela confiança dos produtores e pela ciência aplicada ao campo.
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