É de uma sala comercial na Avenida Historiador Rubens de Mendonça, em Cuiabá, conhecida como Avenida do CPA, que o jovem CEO da Cofan, Brener Padilha, de 21 anos de idade, comanda a operação da consultoria de crédito que desbrava o mercado internacional de crédito de carbono. A empresa tem auxiliado produtores rurais de Mato Grosso em projetos de conservação, manejo sustentável e reflorestamento. Os projetos são de longo prazo e podem se estender por até 20 anos. A partir deles, áreas preservadas ou recuperadas dentro das propriedades rurais dão origem a créditos de carbono, ativo ambiental que é comercializado na bolsa de valores.
A história da Cofan, no entanto, não começou na floresta. Antes de olhar para o carbono, a empresa trabalhava com outro tipo de crédito: o financeiro. Criada em 2012, a operação começou atendendo empresas. Durante a pandemia, a Cofan migrou para o crédito rural e abriu uma subsede em Sorriso (a 397 quilômetros de Cuiabá).
O crédito de carbono é um produto ambiental, mas também financeiro
Foi justamente essa relação próxima com o produtor rural que abriu caminho para um mercado ainda pouco conhecido no campo. A partir de 2022, com o avanço das regulamentações brasileiras sobre crédito de carbono, a empresa passou a estudar o segmento e estruturou uma equipe para atuar também com projetos ambientais.
"O crédito de carbono é um produto ambiental, mas também financeiro. Ele traz retorno para os produtores rurais que produzem esse crédito", explica Brener.
Na prática, o caminho entre uma propriedade rural e o crédito de carbono não é simples. Antes, é preciso plantar, esperar a árvore crescer para que ela se transforme em dinheiro. É nesse ponto que entram as certificadoras.
Segundo Brener, os projetos podem utilizar padrões reconhecidos internacionalmente, como os concedidos pela Verra, que considera o bioma no qual a fazenda está inserida, a vegetação que será utilizada e a modalidade escolhida para o projeto. Na última etapa analisada para obtenção do selo, a consultoria também avalia se o produtor fará a venda da madeira ao fim do projeto.
Camila Ribeiro/HNT
O jovem CEO da Cofan, Brener Padilha, que comanda operação de crédito de carbono, reflorestando áreas de fazendas.
GERANDO ATIVOS POR MEIO DO REFLORESTAMENTO
Uma propriedade pode desenvolver um projeto voltado à conservação de uma área que já existe, recuperar regiões de baixa produtividade por meio do reflorestamento ou adotar práticas de manejo consideradas mais sustentáveis.
Como é que uma floresta que sempre esteve ali, que está conservada, vai me gerar dinheiro?
"Essas áreas de baixa produtividade geram bastante custo de lavoura ou de pecuária. Às vezes, esse reflorestamento vai ser mais efetivo na questão financeira e vai trazer mais retorno a médio e longo prazo", detalha Brener.
A conservação, por sua vez, trabalha com uma lógica diferente. Em vez de retirar a vegetação para abrir espaço para uma atividade produtiva, o produtor pode transformar a manutenção daquela área em parte de um projeto financeiro e ambiental.
"Como é que uma floresta que sempre esteve ali, que está conservada, vai me gerar dinheiro?", resume o CEO ao reproduzir uma dúvida comum entre produtores ao chegarem na Cofan.
A pergunta também ajuda a explicar por que o mercado ainda enfrenta resistência no campo. Para Brener, parte dos produtores desconhece o funcionamento do crédito de carbono e outra parcela carrega desconfiança por experiências negativas registradas no setor.
De acordo com ele, empresas que receberam valores antecipadamente no passado e não entregaram os projetos prometidos acabaram prejudicando a imagem do mercado. Por isso, a certificação e a transparência passaram a ser pontos centrais para quem trabalha na área.
"Tem que explicar como funcionam as certificações e tudo. O preconceito vem de empresas que vieram e mancharam a imagem do crédito de carbono no passado", afirma.
O preconceito vem de empresas que vieram e mancharam a imagem do crédito de carbono no passado
O crédito, portanto, não nasce simplesmente da existência de uma floresta. É preciso comprovar o resultado ambiental do projeto. Um crédito de carbono corresponde, segundo Brener, a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente retirada ou evitada da atmosfera, dentro da metodologia utilizada.
ASSISTA A ENTREVISTA COM BRENER PADILHA À TV HNT
QUANTO É POSSÍVEL LUCRAR?
A quantidade de créditos que uma propriedade pode gerar, entretanto, não é igual para todas as áreas. Esse é um dos motivos pelos quais não existe uma conta simples capaz de responder quanto vale um hectare de terra. Antes de estabelecer o potencial econômico, é preciso conhecer a propriedade, estudar a vegetação, definir a metodologia e avaliar a viabilidade do projeto.
O processo também ajuda a explicar por que os projetos de carbono são pensados para o longo prazo. Na experiência relatada pela Cofan, existem projetos com expectativa de duração de décadas. A geração dos créditos ocorre de acordo com o projeto e suas etapas de validação e certificação.
Depois de certificados, os créditos podem ser comercializados. E é nesse momento que uma propriedade rural localizada no interior de Mato Grosso passa a fazer parte de uma cadeia que ultrapassa as fronteiras do estado.
Brener afirma que empresas estrangeiras, especialmente europeias, estão entre os compradores desse mercado. Entre os setores citados por ele estão os segmentos automobilístico e aeronáutico, que buscam formas de compensar parte de suas emissões e cumprir compromissos ambientais.
A negociação acontece, em grande parte, de forma digital. Os projetos recebem identificações próprias, e informações sobre determinadas iniciativas podem ser consultadas nos sistemas das certificadoras. Em alguns casos, os créditos também podem chegar a ambientes de negociação no mercado financeiro.
O produtor rural já conserva
É uma cadeia que transforma uma característica física da propriedade em ativo. Para Brener, essa possibilidade também muda a forma como o produtor rural pode enxergar a conservação.
"O produtor rural brasileiro já conserva. Ao contrário da visão que muitos têm, ele é um produtor diferenciado em relação ao nível mundial", afirma.
APROSOJA-MT ESTUDA CRÉDITO DE CARBONO COM A EMBRAPA
O presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber, afirma que um estudo desenvolvido em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) busca levantar quanto é possível "sequestrar" em áreas dedicadas à produção de grãos.
O desafio, segundo ele, é transformar em números um serviço ambiental que já é realizado dentro das propriedades rurais e, a partir disso, encontrar formas de remunerar o produtor.
"É um tema muito falado, muito promissor, mas ainda, na prática, nós não vemos trabalhos que sejam atrativos nem muitas empresas dispostas a pagar o quanto vale esse sequestro", afirma Lucas.
Para Costa Beber, a discussão não está apenas na entrada dos produtores em um novo mercado, mas em garantir que o dinheiro gerado por ele chegue a quem está na ponta. Na avaliação do presidente da Aprosoja-MT, a remuneração oferecida atualmente ainda é pequena diante do serviço ambiental prestado pelos produtores.
"O potencial é muito grande. Agora nós precisamos de empresas dispostas a realmente pagar e comprar esses créditos e também de políticas que possam remunerar", afirma.
A busca por essa remuneração também passa por iniciativas que já estão em andamento dentro da própria Aprosoja-MT. Entre elas está o Soja Legal, programa que trabalha com boas práticas ambientais, sociais e trabalhistas nas propriedades e desenvolveu estudos para mensurar emissões de carbono.
A entidade também atua em outras frentes ambientais. Uma delas é o Guardião das Águas, voltado ao monitoramento de nascentes em propriedades rurais. Segundo Lucas, o programa já acompanha mais de 105 mil nascentes nos 50 maiores municípios produtores de Mato Grosso, das quais 95% foram consideradas em bom estado de conservação.
A intenção, segundo ele, é produzir dados capazes de mostrar ao mercado aquilo que o produtor já faz dentro da propriedade. Para Lucas, porém, o reconhecimento dessas práticas ainda não se converteu em remuneração proporcional. "O produtor, que é quem de fato promove esse serviço, acaba recebendo uma menor fatia", ressalta.
A entidade defende o que chama de “justiça ambiental”: um modelo capaz de reconhecer financeiramente o produtor que preserva áreas dentro da propriedade e adota práticas capazes de reduzir ou retirar carbono da atmosfera.
O produtor, que é quem de fato promove esse serviço, acaba recebendo uma menor fatia
É nesse ponto que as duas pontas da cadeia se encontram. De um lado, empresas como a Cofan enxergam nas áreas conservadas e recuperadas uma oportunidade de criar ativos ambientais e conectar o campo a compradores nacionais e internacionais. Do outro, entidades como a Aprosoja-MT cobram uma distribuição mais equilibrada dos recursos, para evitar que o valor gerado fique concentrado nas empresas que estruturam e comercializam os projetos.
Entre a floresta que permanece de pé e o crédito que chega ao mercado existe, portanto, uma cadeia inteira de profissionais, certificadoras, empresas e compradores.
No meio desse caminho está o produtor rural, que precisa decidir se uma área preservada ou uma prática sustentável pode, além de cumprir uma função ambiental, representar uma nova fonte de renda.
O mercado ainda é cercado por dúvidas, desconfianças e desafios de regulamentação e remuneração. Mas, em Mato Grosso, a discussão já saiu do campo das ideias e começou a chegar às propriedades.
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.












