O índice operou descolado das bolsas americanas diante das preocupações de continuidade de uma agenda fiscal expansionista, o que vem levando os grandes investidores, inclusive estrangeiros, a seguir desmontando posições de maior risco no momento. Dados da B3 divulgados hoje mostraram que, só na segunda-feira, 26, primeiro pregão após o segundo turno das eleições, os estrangeiros sacaram R$ 2,846 bilhões da bolsa.
Nesta quarta-feira, 28, o volume das ações do Ibovespa somou R$ 41 bilhões. Na semana, o índice já acumula perda de 16,6%; no mês, recua 8,2%.
As quedas do dia se espalharam amplamente pelos setores da bolsa, com destaque para ações cíclicas, as que mais haviam se valorizado depois do primeiro turno, quando o avanço de Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições reforçaram as apostas de alternância de poder. Nesta quarta, o IMOB, índice do setor imobiliário, cedeu 5,71%, enquanto o índice de small caps (SMLL) teve baixa de 4,22%. Entre os bancos, o tombo do Bradesco (PN: -6,68%), Itaú Unibanco (-3,42%) e BTG Pactual (-6,52%) foram os destaques.
"Os bancos ajudaram a pressionar o índice e isso é um sinal de uma continuidade de venda pelos estrangeiros. Quanto mais demorar a definição de quem será o nome para o Ministério da Fazenda no novo governo e outros importantes, como Casa Civil, maior será o prêmio pedido pelo mercado", afirma o gestor da Venice RC, Cláudio Coppola.
Ele também vê nos resultados do Santander um indício de contaminação para o setor bancário como um todo porque os números reforçam o difícil cenário macroeconômico com que Lula terá que lidar a partir do ano que vem. O banco reportou um lucro líquido de R$ 2,9 bilhões no terceiro trimestre, tombo de 28% frente a igual período do ano passado, com destaque para o avanço da inadimplência.
Segundo o gestor da Nero Capital, Daniel Utsch, o movimento do Ibovespa segue sendo "100% doméstico", com uma forte retração nos setores mais ligados à economia doméstica pelo possível efeito de uma agenda fiscal expansionista sobre a política monetária. A potencial necessidade de manter o juro mais elevado no Brasil para conter a inflação, em um contexto de maiores gastos do governo, pressiona justamente as companhias desses segmentos.
"É cedo para entender se a magnitude de queda já representa oportunidade de compra, é um cenário macro bem difícil e o mercado está dando zero benefício da dúvida para esse novo mandato do Lula", afirma. "É uma situação diferente de 2022, em que esse componente foi relevante. Hoje, a situação das famílias, o endividamento das empresas e o cenário macro como um todo são muito desfavoráveis."
Profissionais de mercado destacam que a decisão do Federal Reserve (Fed) de manter inalterados os juros dos EUA teve efeito limitado sobre a bolsa. A decisão já era amplamente esperada, mas a grande surpresa veio da coletiva com o presidente do órgão, Kevin Warsh, que afirmou que a entidade irá reduzir o número de reuniões com decisão monetária de 2027 e 2028. Ainda assim, o evento teve pouca força para se sobrepor às preocupações com o cenário político local, visto como dominante nas mesas de operação.
(Com Agência Estado)
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