Operadores afirmam que o dia foi de acomodação para o mercado de câmbio local, que já teria assimilado, em grande parte, o rebaixamento da recomendação do JPMorgan para o Brasil e a última safra de pesquisas eleitorais - gatilhos que levaram a uma derrocada dos ativos domésticos na terça, em especial o recuo de 2,50% do Ibovespa, em meio a relatos de saída expressiva de capital estrangeiro.
As oscilações da taxa de câmbio ao longo do dia refletiram mais o vaivém do ambiente externo. O dólar até ensaiou uma queda pontual no início da sessão, após dados comportados da inflação ao consumidor nos EUA em julho reforçarem as apostas em manutenção da taxa básica de juros dos EUA em setembro. À medida que a moeda americana se fortalecia lá fora ao longo do pregão, em especial à tarde, o real perdia força.
Para o diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, o tombo do real em agosto pode ser atribuído a uma realocação de portfólio no universo de mercados emergentes, que leva à forte saída de recursos da bolsa doméstica, e ao aumento da volatilidade com a proximidade da eleição presidencial.
"Temos visto um movimento tático de curto prazo que é ruim para ativos denominados em real. Esse movimento pode ter sido ampliado pela questão eleitoral. O resultado da eleição é incerto e os candidatos líderes nas pesquisas não apresentaram propostas claras para endereçar a questão fiscal", afirma Oliveira, ressaltando que a perspectiva de desaceleração mais forte da atividade também reduz o apelo dos ativos locais.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY se firmou em alta à tarde e tocou os 100,000 pontos, com máxima aos 100,023 pontos. As taxas dos Treasuries passaram a subir após a divulgação de dados fiscais nos EUA, o que pesou sobre as divisas emergentes. Entre os pares do real, apenas o rand sul-africano ganhou terreno.
Indicador mais aguardado da semana, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) nos EUA em julho e seu núcleo vieram em linha com as estimativas, reforçando a expectativa de manutenção da taxa de juros pelo Fed em setembro, que se tornou majoritária no fim da semana passada, após dados fracos do mercado de trabalho.
Na visão do economista-chefe internacional do ING, James Knightley, um CPI benigno após um relatório de emprego (payroll) joga contra a ala mais conservadora do Fed, que propugna por aperto monetário neste ano. "O mercado ainda está precificando um aumento de taxa de juros neste ano, mas é mais provável que o Fed mantenha as taxas estáveis por um período prolongado, incluindo boa parte de 2027", afirma Knightley.
Para Oliveira, do Pine, mesmo com eventual alta de juros pelo Federal Reserve e novo corte da taxa Selic, o diferencial de juros interno e externo seguirá elevado, dando suporte ao real. Além disso, os termos de troca do país seguem favoráveis, o que se reflete em saldos comerciais robustos. "Não vejo uma mudança estrutural para o comportamento do real. O movimento dos últimos dias não pode ser visto como uma tendência", afirma.
(Com Agência Estado)
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