"Para nós, o efeito é da pior espécie, à medida que o sinal eleva a incerteza para as contas públicas, único meio efetivo de diagnosticar problemas, erros e acertos da nação, além de permitir o planejamento", avaliou Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, em comentário. "Os motivos de Palis ter sido removida da coordenação do SCN não foram divulgados e as autoridades não comentaram o fato, deixando uma grande incerteza sobre o futuro da estatística nacional."
Empossado como presidente em agosto de 2023, a gestão de Marcio Pochmann tem sido marcada há meses por diferentes embates com trabalhadores do instituto. Nos protestos e manifestações públicas de trabalhadores e do sindicato que representa a categoria, a administração de Pochmann é acusada de autoritarismo, perseguição e retaliação a servidores que se opõem a medidas da atual gestão.
Uma fonte ouvida pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) contou que a exoneração de Rebeca Palis provocou surpresa entre os servidores, tendo sido anunciada entre o domingo, 18, e o feriado de terça-feira no município do Rio, 20, onde fica a sede do instituto.
Responsável pela coordenação e divulgação dos cálculos do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro há 11 anos, Palis foi comunicada que seria exonerada do cargo na manhã de segunda-feira, sem receber, porém, qualquer justificativa sobre a decisão da administração. A nota oficial do IBGE sobre a troca tampouco emite o motivo da exoneração.
"O IBGE agradece à Rebeca Palis, servidora do IBGE desde 2002, pelo trabalho dedicado e pelas contribuições prestadas ao longo dos últimos 11 anos à frente da CONAC e deseja sucesso a Ricardo Montes de Moraes na continuidade e no fortalecimento das atividades da coordenação. A Diretoria de Pesquisas (DPE) informa que, nos próximos dias, será definido de forma dialogada o cronograma de transição entre a atual coordenação e o futuro coordenador", comunicou a nota oficial da direção do IBGE.
Palis estava à frente do projeto periódico de mudança do ano base do Sistema de Contas, que na revisão atual passará de 2010 para 2021.
"No ano de 2023 o Brasil iniciou processo de revisão de seu Sistema de Contas, com mudança de seu ano base de 2010 para 2021. As mudanças de ano base do Sistema de Contas, no caso do Brasil, são feitas para incorporar novas classificações (atividades, produtos, setores institucionais, operações etc.), dados atualizados de pesquisas como o Censo Agropecuário e a Pesquisa interna de Consumo Intermediário, novas fontes de dados e, ainda, novas recomendações metodológicas internacionais, visando o estabelecimento de marcos estruturais", explicou o órgão em uma das notas técnicas divulgadas sobre o assunto.
O ex-presidente do IBGE Roberto Olinto, que também passou pelos cargos de diretor de Pesquisas e coordenador de Contas Nacionais do instituto, lembra que o atual trabalho de revisão metodológica das contas está atrasado e carece de notas técnicas explicativas, mas frisa que o momento para a substituição de Palis é inadequado, por suscitar mais uma crise institucional.
"É completamente desnecessária. Por mais que tivesse problemas, é uma crise na hora errada, com a pessoa errada. Porque você está com uma mudança de base, tem uma divulgação daqui a pouco. Então, mesmo substituindo por uma pessoa que tem todas as possibilidades de tocar o trabalho, é necessária uma transição. É complicado. Agora, o pior de tudo é que o instituto já está em crise. Então essa crise é mais uma mais uma gotinha, mais uma crise numa crise maior, que é o enfraquecimento do IBGE", alertou Olinto.
O ex-presidente do instituto defende que Ricardo Montes de Moraes tem capacidade técnica para dar continuidade ao trabalho de Rebeca Palis. O IBGE lembrou que Moraes tem graduação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Economia pelo IBMEC-RJ, além de mestrado em Economia pelo IBMEC-RJ e doutorado em Engenharia Biomédica pela UFRJ. Ele ocupou ainda cargos de gerência na Coordenação de Contas Nacionais do IBGE entre 2009 e 2018.
"O que me preocupa profundamente é que essas crises estão fazendo com que a credibilidade do IBGE seja questionada o tempo inteiro, coisa que nunca foi. O IBGE e seu corpo técnico sempre foram profundamente respeitados", ressaltou Olinto.
O ex-presidente do instituto acredita que não há risco que os números apurados pelo IBGE sejam alterados de acordo com interesses externos, uma vez que o trabalho de apuração de indicadores permanece sendo feito com responsabilidade e compromisso pelo corpo técnico. Porém, ele diz que resultados favoráveis para o governo costumam gerar acusações e questionamentos, por isso é importante que a direção mantenha sempre um trabalho de "defender a instituição, evitar crises e dar credibilidade e sustentação" ao trabalho dos técnicos.
"Ao contrário, a (atual) direção do IBGE faz um trabalho de gradual perda de credibilidade. O IBGE virou um instituto, que ainda é um instituto de primeira linha, mas que vive esse questionamento o tempo todo, por uma crise atrás da outra, de uma direção completamente desequilibrada", criticou Olinto.
(Com Agência Estado)
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