Os modelos meteorológicos globais acenderam o sinal de alerta para o segundo semestre de 2026. Um relatório conjunto emitido por órgãos oficiais como o INPE, INMET, Funceme e Censipam confirma que as chances de o fenômeno El Niño se configurar a partir de julho superam os 82% a 90%.
No entanto, paira no ar a incerteza sobre as consequências sobre o fenômeno: o que tem intrigado especialistas e gerado debates no setor produtivo é a possibilidade de estarmos diante de um "Super El Niño".
O QUE DEFINE UM "SUPER" EL NIÑO?
Rodrigo Marques, climatologista do Departamento de Geografia da UFMT, explicou que o El Niño convencional se caracteriza quando o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial supera os 0,5°C acima da média normal por alguns meses.
"O termo super El Nino usado seria quando modelos passam a indicar anomalias de aquecimento da temperatura da superfície do mar do Oceano Pacífico acima de 2°C", explica Marques.
A preocupação é real: projeções indicam que esse aquecimento pode chegar próximo a 3°C. Patamares extremos assim só foram vistos em pouquíssimas ocasiões na história, segundo o professor, como no ano de 1887, quando o fenômeno causou colapso agrícola e crises sociais profundas em escala global.
O fenômeno registrado entre 2015 e 2016 foi considerado o mais intenso já visto na era moderna. Na época, o aquecimento do Pacífico equatorial fechou a 2,6º acima da média, alcançando o marco de maior valor já detectado por instrumentos modernos.
Outro episódio foi entre 2023 e 2024 , que chegou muito perto do limite usado para classificar os eventos mais extremos. A temperatura subiu 2º acima da média no momento mais quente do fenômeno. A proximidade entre os dois gera uma preocupação: os intervalos entre os Super El Niños então menores.
Os modelos climatológicos indicam uma probabilidade crescente de formação do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com consolidação prevista entre agosto e outubro. O cenário projeta temperaturas acima da média na primavera e no verão, afetando diretamente Mato Grosso, Goiás e o Distrito Federal, que já registram momentos de calor e estiagem nesta época.
Espera-se a junção de ondas de calor frequentes, chuvas irregulares, veranicos durante o plantio, queda drástica na umidade do ar e aumento expressivo no risco de queimadas. O fenômeno não será apenas um ciclo natural isolado, ele atuará sobre uma atmosfera global que já está mais quente devido ao aquecimento global.
O IMPACTO NOS BIOMAS: SECA NA AMAZÔNIA E AMEAÇA AO CERRADO E PANTANAL
Se confirmado, os efeitos no Brasil serão severos e assimétricos. Enquanto a Região Sul deve se preparar para chuvas volumosas e acima da média, o cenário para o Centro-Norte do país é de estiagem. Mato Grosso, em particular, deve sofrer fortemente com a seca. O professor Rodrigo Marques detalha o mecanismo dessa conexão:
“O El Niño tem como consequência a seca na Amazônia, pois durante este evento o sistema de circulação que causa a chuva na Amazônia deixa de atuar. Assim, como as chuvas de Mato Grosso na estação chuvosa são provenientes da umidade da Amazônia, uma seca lá vai provocar seca aqui também, sobretudo no norte do estado que é a área mais afetada”, explicou.
Rodrigo se preocupa, já que essa ausência de precipitações deixa os biomas do Cerrado e do Pantanal extremamente vulneráveis. Com longos períodos de estiagem, formam-se grandes extensões de vegetação seca que acabam agindo como combustível, tornando a região suscetível à propagação de grandes incêndios e queimadas.
A ENGRENAGEM ECONÔMICA: O PREÇO DO CLIMA NO BOLSO DO CIDADÃO
O impacto de um evento dessa magnitude ultrapassa as fronteiras da meteorologia e afeta diretamente a mesa do consumidor. Embora os índices de inflação oficiais estejam atualmente sob controle e dentro das metas estabelecidas, ou seja, entre 4% e 5% ao ano, os analistas alertam para os riscos de um "efeito dominó" econômico na cadeia do agronegócio.
“Economias muito dependentes do agronegócio, como a de Mato Grosso, transformam o clima em uma variável macroeconômica. Isso quer dizer que uma ameaça climática forte pode afetar a arrecadação de tributos, a geração de empregos, o PIB regional e o fluxo logístico” explicou Mauricio Munhoz, professor de economia
Segundo ele, a desregulação do clima eleva os custos de produção, exigindo maiores gastos com irrigação e energia elétrica. A perda de previsibilidade meteorológica também obriga a mudanças no volume de uso de rações e defensivos agrícolas.
O clima afeta o calendário de plantio de culturas fundamentais para o estado, como a soja, milho e algodão, podendo gerar mortalidade animal em picos de calor e prejudica a logística de escoamento, isso tanto em rodovias quanto em hidrovias. O fluxo das colheitas também passará por mudanças e deve pressionar a capacidade de estocagem, agravando o já conhecido déficit de armazenamento em Mato Grosso.
Na produção de alimentos como hortaliças, frutas e vegetais, o impacto será severo, visto que essas culturas são dominadas por produtores rurais de pequeno e médio porte. Diferente dos grandes grupos do agronegócio, os pequenos produtores possuem uma capacidade financeira e de defesa muito menor para absorver perdas de safra, o que reflete diretamente no abastecimento de hortifrúti e na inflação de alimentos na mesa do consumidor urbano.
A cesta básica já registrou a sua décima alta consecutiva na última semana de maio, atingindo o valor recorde de R$ 919,21 após um avanço de 0,63% em comparação com a semana anterior. O levantamento do Instituto de Pesquisa e Análise da Fecomércio Mato Grosso (IPF-MT) aponta que o custo atual está 11,17% acima da média de R$ 826,83 registrada no mesmo período de 2025.
Segundo o presidente da Fecomércio-MT, Wenceslau Júnior, a permanência desse valor acima da faixa dos R$ 900 pelos últimos dois meses intensifica a perda do poder de compra das famílias. A alta foi impulsionada principalmente pelo encarecimento simultâneo do arroz e do feijão, motivado por restrições de oferta e incertezas climáticas.
O professor aponta que as especulações e previsões climáticas já movimentam o mercado antes mesmo do fenômeno se consolidar:
“Quando surgem previsões, os agentes econômicos começam imediatamente a fazer cálculos, recalcular e calcular os riscos. O produtor segura a venda, as grandes compradoras, alteram contratos... O mercado futuro, que é uma modalidade muito interessante das bolsas de valores, ele reage. As seguradoras começam a elevar custo já pensando no que vai acontecer, bancos ficam mais cautelosos na hora de dar o crédito rural. O mercado trabalha com antecipação”, explicou
Assim, o receio de uma escassez futura gera uma "inflação de expectativa", fazendo com que os preços subam preventivamente ao longo de toda a cadeia logística e comercial, afetando o consumidor antes mesmo da primeira gota de chuva falhar.
A DANÇA DAS INCERTEZAS
Apesar do alerta, a comunidade científica prega cautela sobre a intensidade real do evento. Gilvan Sampaio, meteorologista e pesquisador do INPE, pondera que, por estarmos saindo de uma estação de transição (outono), os modelos climáticos tendem a ser menos precisos.
"É prematuro cravar a intensidade observando apenas a massa de água agora", afirma Sampaio. Ele destaca que, além do aquecimento do oceano, a atmosfera precisa responder de forma acoplada, o que inclui o enfraquecimento dos ventos alísios e a alteração da chamada Célula de Walker. A partir de junho, com modelos mais confiáveis, o cenário ficará mais claro.
A opinião é sustentada por Mauricio, ele explicou que a incerteza sobre quando o Super El Niño chegará é uma preocupação para os climatologistas.
“Os modelos já apontam uma probabilidade crescente de formação de um novo El Niño ao longo do segundo semestre, agora já do 2026. Estão prevendo para agosto e outubro. E o ponto mais importante para o Centro-Oeste, é justamente que a tendência de temperaturas acima da média será já na estação seca”, disse.
O FATOR HUMANO: AQUECIMENTO GLOBAL COMO POTENCIALIZADOR
Um ponto crucial destacado pelo INPE é que o El Niño de 2026 não ocorre no vácuo, mas sim em um planeta sob os efeitos das mudanças climáticas globais. Gilvan Sampaio alerta que o fenômeno potencializa eventos extremos provocados pelo aquecimento global.
Isso significa que ondas de calor, secas prolongadas e tempestades tendem a vir com muito mais força do que no século passado. Mas apesar de isso ser um ponto de preocupação do Governo Federal, Rodrigo se mantém otimista:
“É importante ressaltar que hoje estamos mais preparados para prever e lidar com os efeitos e impactos do El Nino do que no século passado....”, opinou.
O CALENDÁRIO DO FENÔMENO
Para os setores de planejamento e produção, o cronograma é apertado. Os relatórios indicam que os impactos mais perceptíveis do El Niño devem começar a atuar de forma abrangente a partir de setembro de 2026, início da primavera no Hemisfério Sul, estendendo-se ao longo do verão de 2027.
O monitoramento contínuo das agências nacionais e internacionais será a principal ferramenta para que o país possa mitigar os danos de um possível gigante climático que se desenha no horizonte.
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