Para algumas pessoas, falar sobre morte ainda é tabu, mas para outras é apenas uma etapa natural da vida. E foi encarando a morte cara a cara que Samuel Gonçalves da Conceição, de 44 anos de idade, teve um lampejo que mudaria o curso da sua vida.
Ao tocar o corpo do amigo que morreu afogado próximo à Barragem do Manso, em Chapada dos Guimarães, Samuel descobriu sua paixão pela tanatopraxia. Na época, ele trabalhava como caminhoneiro entregando verduras em Cuiabá.
O sentimento foi provocando mudanças graduais na vida de Samuel, que pediu à empresa a qual trabalhava em Chapada dos Guimarães para, junto das verduras, entregar também flores na funerária, onde está até hoje.
“Lá no hospital não tinha ninguém para ajudar, colocar na urna de transporte para trazer para Cuiabá e fazer a necrópsia. E aí, eu coloquei a mão no falecido, que era meu amigo e depois daquela hora, eu senti um sentimento muito especial, eu falei, ‘minha área é essa’”, relembrou.
Nas vindas à Cuiabá, Samuel foi fazendo amizades e conhecendo as pessoas que trabalhavam na funerária, até que um dia resolveu pedir por emprego e começou como agente funerário.
O sonho, porém, não morreu e foi cultivado por nove anos, até que a própria funerária oferecesse a oportunidade perfeita, a formação gratuita na área, que atualmente não conta com regulamentação e não exige formação superior.
Então, em 2018, Samuel começa a atuar na área. Como recordou, mesmo apaixonado, o início foi difícil devido a carga psicológica que acompanha a profissão. Segundo ele, os efeitos apareciam à noite, quando tentava, mas não conseguia dormir.
“No início eu fiquei quase 10 dias sem dormir. Dormia, mas não dormia”, contou.
Com o passar dos anos, lidar com a morte, que para muitos remete ao medo, se tornou algo cotidiano para Samuel, que chega a embalsamar de 10 a 16 corpos por dia.
EU CONVERSO COM O FALECIDO
Antes de iniciar a preparação dos corpos para as famílias, que irão ver e se despedirem pela última vez de seus entes queridos, Samuel conversa com os falecidos e pede licença para manuseio dos corpos.
Segundo ele, a conversa é um passo importante e um diferencial, inclusive, para que o processo químico ocorra bem. “Você pede ajuda: ‘você me ajuda?’. Todos os tanatopraxistas profissionais conversam com o falecido”, explicou
Em um dos exemplos dado por Samuel, é citado o caso de pessoas que morrem por infarto. Nessas situações, há o escurecimento da face do falecido. E como relatou, às vezes o produto químico não dá o resultado esperado de primeira, então é preciso conversar e pedir ajuda novamente para o falecido.
“Eu converso com o falecido. Tem que conversar. Você pede licença.‘Eu sou Samuel, vou fazer o melhor para o senhor e para seus familiares’”, contou.
CADA CORPO EXIGE UM PROCESSO DIFERENTE
Cada corpo é tratado de uma forma diferente, como explicou Samuel à reportagem, a causa da morte e como o falecido chega na funerária, define quais procedimentos serão realizados.
“Nem todos os corpos são iguais. Todo corpo é um procedimento diferente. A gente tem vários tipos de química, de produtos. Um exemplo, você vai pegar um corpo hepático, amarelo. Vai pegar um corpo necropsiado, um corpo com mais de 24 horas de falecido. Então nenhum corpo é igual ao outro. Cada tipo de falecimento é um produto diferente, uma química diferente”, falou
Se a morte foi por afogamento, acidente de trânsito, doença ou se o corpo passou por necropsia no Instituto Médico Legal (IML), os produtos e as técnicas mudam.
Segundo Samuel, há diferentes casos em que os corpos chegam inchados, amarelados, escurecidos, desfigurados ou até mesmo abertos ao meio após exames de necrópsia.
“Quando a gente pega um corpo que vem do hospital, que faleceu durante a internação, a gente injeta pela carótida, pela artéria. Nós temos a máquina, a bomba injetora. Já quando vem aberto, do IML ou SVO [Serviço de Verificação de Óbito], em que cortam as veias para fazer a necropsia, pra saber a causa da morte. Se você injetar pela perna um corpo necropsiado, o produto vai para o abdômen. Por isso nós reabrimos o corpo para pegar as veias”, explicou algumas diferenças.
A preparação do corpo mais complicada, como falou Samuel, é nos casos de morte por afogamento, devido a grande retenção de líquido.
“O corpo mais complicado pra gente trabalhar é o corpo afogado, porque ele tem excesso de líquido. A massa dele vai estar cheia de líquido. Então o procedimento é demorado, de 1 hora a 1 hora e meia, no mínimo", destacou.
O processo, porém, não é totalmente artesanal, como revelou Samuel, há duas máquinas utilizadas durante o embalsamento. Uma ejeta o líquido do corpo e outra injeta para ajudar na preservação e desaceleramento da decomposição.
Samuel também contou ao HNT, que o tempo do processo também é variável, às vezes pode ser mais rápido e em outras mais demorado. Em média, a preparação dura entre 40 minutos e 1h30.
PRECONCEITO
A paixão pela profissão, porém, não é suficiente para blindar Samuel do preconceito que envolve a área póstuma. Como contou, ele já foi alvo, por diversas vezes, de julgamentos e olhares estranhos.
Entre um dos exemplos citados por ele, destaca-se a visão pejorativa sobre quem atua na área póstuma. Como expôs, é comum ser rotulado como uma pessoa sem sentimentos ou fria por trabalhar com a morte e lidar com naturalidade.
O preconceito, porém, não atinge Samuel, que sente orgulho da profissão escolhida. Para ele, preparar os corpos é como servir a família do falecido e auxiliar em um momento de dor.
“Quem entra nessa área não consegue sair mais porque é muito satisfatório fazer o bem para aquele ente querido e com a sua família”, expressou.
TODOS OS DIAS SÃO DIAS DE FINADOS
Católico e fiel da Paróquia Universitária São José Operário, localizada no bairro Dom Aquino, em Cuiabá, Samuel revelou que para ele, que lida com a morte diariamente, o Dia de Finados deixou de ter um peso especial e se tornou rotina.
“O Dia de Finados é todo dia para mim. Não tem um dia especial, porque todo dia é dia deles”, destacou.
Há 8 anos como tanatopraxista, Samuel sabe bem como conciliar os próprios sentimentos com a profissão. À exemplo disso, em setembro desde ano, há menos de um mês, ele mesmo embalsamou o corpo de um primo querido.
“Mas o sentimento não é fácil, não. A gente tem que separar emocional do profissional, mas somos seres humanos, né? Tem que saber controlar porque o processo é emocionante e não se deixar abalar”, contou.
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