Segundo Luiza Eunice, pesquisadora da UFPel e responsável pelo estudo, houve uma mudança recente na recomendação do Ministério da Saúde (MS). Anteriormente, o mínimo recomendado era de seis consultas, mas, a partir de 2024, esse número subiu para pelo menos sete consultas. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de oito consultas.
"O pré-natal previne a mortalidade materna, a mortalidade infantil, parto prematuro e baixo peso ao nascer e complicações gestacionais", explica a pesquisadora.
"Os exames acontecem de forma distribuída porque, no início, é importante identificar grupos que estão em alto risco; no meio da gestação, é importante para monitorar o crescimento fetal e, no final, detectar alguma doença e prevenir a prematuridade", acrescenta.
Desigualdade
De acordo com o estudo, a cobertura é de 99,4% na primeira consulta e cai para 78,1% na sétima consulta, e os índices são piores entre mulheres sem escolaridade, indígenas, adolescentes e moradoras da Região Norte.
No recorte racial, a situação das indígenas é a mais alarmante. Entre as mulheres brancas, 84,3% concluem as sete consultas de pré-natal. Entre as indígenas, esse porcentual cai para 51,5%. Entre as pretas e pardas, os percentuais são de 75,7% e 75,3%, respectivamente.
Entre a primeira e a sétima consulta, a cobertura entre mulheres indígenas cai 46,2 pontos porcentuais (p.p.), o triplo da queda observada entre mulheres brancas (15,3 p.p.). Em quase metade dos casos, a gestante indígena começa o pré-natal, mas não termina.
"Para as mulheres indígenas, existem barreiras geográficas e logísticas, como transporte fluvial e distâncias longas. Há também barreiras culturais, com modelos de cuidado que não se adaptam às realidades indígenas", ressalta a pesquisadora.
Escolaridade
Outra intersecção de destaque é a escolaridade. Entre mulheres com 12 anos ou mais de estudo, 86,5% chegam à sétima consulta. Entre as sem escolaridade, menos da metade chega ao mesmo ponto: 44,2%.
"Mulheres com baixa escolaridade têm mais dificuldade em entender a importância das consultas durante a gestação. Há também barreiras práticas: transporte, trabalho e dificuldade para entender como o sistema de saúde funciona", pontua Luiza.
Entre as indígenas sem escolaridade, apenas 19% completam as sete consultas. Entre as brancas com 12 anos ou mais de estudo, esse porcentual chega a 88,7%.
"Nesses casos, a gravidez costuma ser descoberta tarde e o pré-natal começa tarde também. Há o medo e o estigma, a ocultação da gestação e a dependência da família para chegar à consulta", cita Luiza.
Estratégia
Para a pesquisadora, um dos principais achados do estudo é que não é necessário apenas elevar o padrão de qualidade do atendimento, mas sim diminuir as desigualdades e garantir o acesso para todas as gestantes.
Para isso, ela recomenda a adoção de estratégias. Uma delas já foi incorporada pelo Ministério da Saúde: a Rede Alyne, programa focado na redução da mortalidade materna e infantil. A meta é reduzir em 25% a mortalidade materna geral e em 50% entre mulheres negras até 2027.
Luiza defende também políticas intersetoriais, que vão além da saúde para enfrentar as barreiras sociais, culturais e econômicas que afastam as gestantes do sistema. Entre essas barreiras, ela aponta o racismo estrutural, que afeta tanto a oferta quanto a qualidade do atendimento.
Outro ponto é a navegação dentro do sistema. Monitorar e facilitar o percurso da mulher até a sétima consulta é, segundo a pesquisadora, uma condição para garantir o acompanhamento completo.
Quanto à saúde sexual e reprodutiva, ela recomenda programas que promovam a autonomia de meninas e mulheres, com atenção especial ao enfrentamento da violência sexual contra adolescentes.
Para Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, esse tipo de análise é fundamental para identificar desigualdades e orientar o desenvolvimento de políticas públicas. "Com estas informações, a gestão pode atuar para ampliar a cobertura de pré-natal com foco nos grupos mais vulneráveis", destaca.
Metodologia
O estudo utilizou dados públicos do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. As informações são registradas em todos os hospitais brasileiros a cada nascimento vivo.
Para visualizar as desigualdades, os pesquisadores aplicaram o equiplot, um método gráfico desenvolvido pelo próprio centro. A ferramenta posiciona indicadores de saúde segundo critérios de desigualdade e mostra a distância entre grupos populacionais, como mulheres brancas e indígenas ou de alta e baixa escolaridade.
(Com Agência Estado)
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