Desde o início da epidemia de HIV-Aids, o Brasil é apontado como um modelo internacional - inclusive pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS) - na prevenção e tratamento da infecção. Agora, entretanto, o País é apresentado no relatório como um dos 21 países em que o número de novas infecções vem crescendo nos últimos 15 anos.
Em 2010, o mundo registrava aproximadamente 2,1 milhões de novas infecções por ano. Em 2025, o indicador recuou para 1,2 milhão - a marca mais baixa em três décadas. Esse avanço expressivo reflete o impacto de terapias antirretrovirais eficientes e a expansão de métodos modernos de prevenção.
Por outro lado, o relatório alerta que o progresso é desigual. O Brasil viu o volume de novos casos crescer, ao lado de países como Congo, Afeganistão e Sudão. Embora o País acumule conquistas recentes importantes - como a certificação pela eliminação da transmissão vertical (de mãe para filho) e a ampliação da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) -, o total de pessoas infectadas sobe em recortes populacionais específicos, como homens gays, transgêneros e trabalhadores do sexo.
De acordo com o Ministério da Saúde, até 2013, o País não exigia o registro compulsório de novos casos de infecção por HIV, somente de Aids. A partir de 2014, a notificação de infecção pelo vírus passou a ser obrigatória.
De acordo com o último boletim, em 2024, foram contabilizados 39,2 mil novos casos de HIV - uma alta de 21,9% em relação ao registrado em 2014. Estima-se que quase 1,7 milhão de brasileiros vivam com o vírus hoje.
Especialistas e lideranças do setor ouvidos no evento no Rio de Janeiro apontam que a alta de casos no País é resultado da combinação de fatores sociais, econômicos e estruturais. Eles citam especificamente:
- o fim das grandes campanhas de conscientização;
- a persistência do estigma e discriminação em algumas populações;
- as desigualdades no acesso à PrEP;
- os cortes de financiamento;
- a ilusão do fim da ameaça entre os mais jovens.
"Precisamos trabalhar melhor com comunicação e educação sobre formas de contágio e prevenção nas populações mais vulnerabilizadas", afirma o o infectologista Estevão Portela, diretor do Instituto de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz. "Esbarramos, às vezes, em dificuldades com o conservadorismo, que cria barreiras para uma abordagem mais aberta dessas questões."
Na análise de Portela, a questão da PrEP também é crucial. "Temos dificuldades com o escalonamento da PrEP, que talvez seja a mais importante estratégia de prevenção", diz.
"O atendimento no âmbito da PrEP permite também discutir formas de mitigação de risco, como o uso de preservativos, a vacinação contra algumas infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), além do tratamento adequado para essas infecções."
Segundo o infectologista, na maior parte dos estados, ainda não há estratégias de capilaridade para que a PrEP chegue a populações que, normalmente, têm menos acesso aos serviços de saúde.
"Para esses grupos, também seria fundamental o acesso à PrEP injetável, que melhora a adesão ao tratamento e, com isso, a eficácia dessa abordagem", acrescenta.
Cenário na América Latina
Em toda a América Latina, o aumento do número de novos casos chegou a 25% entre 2010 e 2025, segundo o novo relatório.
Para a diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, combater esse avanço não é apenas uma questão de recursos financeiros, mas também de "direitos humanos e acesso com dignidade" aos serviços de saúde.
"Esta não é uma região pobre, mas é profundamente desigual", avalia.
"Na América Latina, as novas infecções ocorrem principalmente entre populações-chave, e as razões por trás disso estão relacionadas a estigma, discriminação, violência sexual e falta de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva. Se enfrentarmos esses problemas, o HIV poderá ser controlado na região em pouco tempo", diz Winnie.
Para ela, o mundo se aproxima de uma "revolução na prevenção", impulsionada por grandes avanços científicos em medicamentos injetáveis de longa duração, como o lenacapavir.
"A ciência está nos entregando ferramentas extraordinárias, mas inovação sem acesso não é avanço, é injustiça", afirma, repetindo a colocação de Beatriz Grinsztejn, presidente da Sociedade Internacional de Aids (IAS, na sigla em inglês). "O verdadeiro teste será garantir que esses medicamentos cheguem àqueles que mais precisam, a custos acessíveis."
(Com Agência Estado)
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