A história de Silva, no entanto, não é a regra. Em geral, os eleitores não sabem como funciona o sistema político nem pesquisam sobre os candidatos, diz Joyce Luiz, pesquisadora do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições do Cebrap. "Os cidadãos não entendem que possuem um papel ativo na política e que a escolha de representantes traz consequências não só individuais, mas coletivas", afirmou a pesquisadora.
Na média, o brasileiro vota por impulso e não com base em uma escolha racional, acrescenta Raquel Ramos Machado, professora de teoria da democracia da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. "Isso faz com que a política se torne um espaço de mais manipulação e menos realização dos anseios da sociedade."
A proximidade das eleições municipais, os altos índices de desconfiança na política registrados em pesquisas de opinião e a possibilidade de que muitas pessoas evitem ir às sessões eleitorais em novembro por causa da pandemia do novo coronavírus reforçam a discussão sobre a importância do voto consciente. O termo diz respeito a uma situação em que o eleitor escolhe seu candidato de forma responsável, ciente de quem está ajudando a eleger e disposto a acompanhar o mandato e cobrar o cumprimento dos compromissos de campanha.
Embora existam iniciativas para incentivar o chamado voto bem informado, elas ainda não foram capazes de mudar a imagem que o brasileiro tem da política. Pesquisa do Instituto Locomotiva/Ideia Big Data feita em 2018 mostrou que 96% dos cidadãos não se sentem representados pelos políticos em exercício e que 94% acreditam que os parlamentares estão mais preocupados em se manter no poder do que em governar o País.
"As pessoas pensam que só o voto delas não adianta nada e que, mesmo quando elas votam, acabam elegendo um político que não faz nada por elas. Então, votar seria um esforço que não vale a pena", disse Raquel.
Educação política
O analista de sistemas Adriano Sales, de 33 anos, era um dos que achavam que seu papel no sistema eleitoral era simplesmente apertar os números na urna eletrônica. Sua visão começou a mudar após fazer um curso de educação política na empresa onde trabalha. "Percebi que o meu papel não é só no período de eleição, mas todos os dias dentro da empresa, da minha casa, com os meus amigos. E é acompanhar o que o candidato que eu escolhi está fazendo, se está cumprindo suas promessas", disse.
Ele afirma que vai se aplicar mais na hora de escolher seus candidatos. "Pesquiso mais sobre o político, tento entender a trajetória, saber quais foram os pontos positivos e negativos."
Com isso, o analista de sistemas diz ter deixado para trás "uma visão de torcida de futebol" que tinha do sistema político. A falta de conhecimento sobre quem são os candidatos leva os eleitores a enxergar as disputas eleitorais apenas como um jogo entre vencedores e perdedores e não como uma arena de debate público, segundo analistas. Isso leva as pessoas a se posicionarem contra uma ideia, em vez de votarem a favor de um projeto, e ajuda a explicar a polarização, inclusive com episódios de violência, vivenciada de alguns anos para cá.
Outro efeito da descrença em partidos e do desinteresse na política é a alta taxa de abstenção. Na eleição presidencial de 2018, o índice atingiu o maior nível em 20 anos. Ao todo, 30 milhões de eleitores não compareceram às urnas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dois anos antes, a soma dos eleitores paulistanos que não foram votar ou escolheram nulo ou branco foi maior do que o número de votos recebidos pelo candidato eleito, João Doria (PSDB), atual governador de São Paulo.
Participação
Mas se depender da escritora Eunice Tomé, de 73 anos, a taxa de abstenção não vai subir este ano, mesmo com a pandemia. Embora o voto seja facultativo em sua idade, ela pretende participar das eleições de novembro. "É na cidade que a gente mora, compra, dorme, estuda, trabalha e tem amigos. As eleições municipais são até mais importantes do que as federais, porque estão diretamente ligadas a quem vive no local", disse.
Com a aproximação do pleito, a escritora resolveu participar de um curso de formação política promovido pela Escola do Legislativo e da Cidadania de Santos. Durante os três dias do curso aprendeu sobre temas como história da democracia, constituições brasileiras e papel do parlamento.
Segundo o presidente da Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo, Alexsandro Santos, iniciativas como essa existem em casas legislativas de todo o Brasil e servem para ensinar sobre o funcionamento da política, e não para fazer campanha por uma ou outra ideologia. Até empresas têm buscado parcerias com cientistas políticos ou fundações para oferecer esse tipo de formação a seus funcionários. "Essas aulas contribuem para o letramento político da população", concluiu Santos.
Projetos e escolhas
O interesse pela política pode começar na infância. A estudante Aline Priscila Postai, de 17 anos, começou a aprender sobre o funcionamento do Legislativo aos 11 anos, quando foi a representante da sua escola no Projeto Vereador Mirim, em Florianópolis, onde vive.
"Fizemos sessões na Câmara, apresentando nossos projetos para melhoria dos colégios, e viajamos para a Assembleia de Santa Catarina para conhecer os deputados", disse a jovem, que, neste ano, decidiu participar de um curso de formação política oferecido pela sua escola. A motivação, segundo ela, foi o fato de mulheres serem pouco valorizadas na política.
"Ao votar, posso eleger pessoas que se importam com a gente. O voto é um direito e uma conquista nossa que demorou anos para ser concretizado", disse Aline.
Já a estudante Marina Giannini, de 16 anos, começou a se interessar por política ao assistir uma série de vídeos sobre o tema no YouTube. Marina, que vai às urnas pela primeira vez em 2020, diz acreditar que o ato de votar funciona como uma porta para que os cidadãos se envolvam mais com a política. "Só fui pesquisar o que cada cargo faz por conta deste momento de eleições", afirmou a jovem.
Embora possam ajudar o eleitor a levantar informações sobre candidatos, as redes sociais precisam ser acessadas com responsabilidade, afirma Cláudio Ferraz, professor de Economia Política da University of British Columbia, no Canadá, e também da PUC-Rio. "Propaganda (eleitoral) por Facebook, por exemplo, pode ajudar candidatos novos e com menos recursos partidários. Por outro lado, permite que os próprios candidatos digam coisas que podem não ser verdade, e é difícil controlar isso", disse.
Corrupção
Segundo ele, o voto bem informado pode ajudar até no combate à corrupção. "Temos bastante evidência empírica de que informação ajuda eleitores a votarem melhor. Informação sobre corrupção, por exemplo, ajuda eleitores a punirem nas urnas políticos corruptos", afirmou Ferraz, que tem pesquisas sobre o assunto publicadas em plataformas acadêmicas.
Enquanto alguns eleitores vão às urnas pela primeira vez, outros podem querer distância das aglomerações do dia da votação. A pandemia do coronavírus deve elevar as abstenções nas eleições deste ano, especialmente entre os idosos, observou o cientista político Humberto Dantas.
"Pode haver anistia por parte da Justiça Eleitoral aos faltosos, mas o voto foi mantido compulsório. O que pode haver é uma ausência recorde de idosos, sobretudo acima dos 70 anos", disse o cientista político. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
(Com Agência Estado)
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.







