Artigos Quinta-feira, 04 de Agosto de 2011, 09:59 - A | A

Quinta-feira, 04 de Agosto de 2011, 09h:59 - A | A

Vida e presente

Ficamos tão envolvidos com os problemas, a atenção voltada quase que somente para o próprio umbigo, que passamos pelas pessoas e não as vemos. Aliás, as pessoas vivem sempre tão ocupadas que correm um risco de passar pela vida sem vê-la e sem vivê-la

ENILDES CORRÊA

No nosso dia a dia, ficamos tão envolvidos com os problemas, a atenção voltada quase que somente para o próprio umbigo, que passamos pelas pessoas e não as vemos. Aliás, as pessoas deste “mundo moderno” vivem sempre tão ocupadas que correm um risco ainda maior: o de passar pela vida sem vê-la e sem vivê-la.

Homens e mulheres com seus sapatos e sentidos fechados, vivendo quase sem sentir e tocar a terra que lhes dá o ar de cada dia.

Um borbulhar de vida acontece a toda hora e a todo momento diante de nossos olhos, que só podemos ver, perceber e sentir se estivermos presentes no aqui e agora. Mas, normalmente, não é o que acontece. O presente fica quase sempre de lado, espremido pela mente girando em função do tempo passado e do futuro.

Dessa forma, vamos ter pessoas ausentes e desconectadas de si mesmas e do seu entorno. E essa ausência de presença faz muitos estragos e buracos na convivência humana, nas mais diversas áreas: familiar, profissional e social.

Se não estamos enraizados no presente, deixamos de interagir de maneira equilibrada e saudável com a vida, nas suas mais diversas formas. Cortamo-la, dentro e fora de nós. Os sentidos ficam entorpecidos. Não ouvimos as preces da Existência sendo expressas através do riso das crianças, da canção dos pássaros, do som das cachoeiras, do vento, do “farfalhar das saias verdes das árvores”, como expressou a poetisa Ana Maria Gomes em ‘Árvores’. Não vemos o bailado das borboletas, os olhares ternos dos mansos anciões, o florescer das plantas, o colorido do amanhecer, do entardecer, o voo pausado das garças que cruzam a imensidão do céu todos os dias acima das nossas cabeças...

A convivência com o meu pequeno neto de um ano de idade tem me propiciado vários e interessantes momentos de reflexão. Quando saio com ele à noite, carregando-o nos meus braços, observo-o inclinar sua cabeça para trás e seus olhos vivos, atentos e brilhantes miram as estrelas. Olha-as com atenção, mostrando a sua descoberta com o dedinho indicador apontado para o alto, na direção do céu. Ao mesmo tempo em que isso me encanta, pois confesso que já não me lembrava mais o quanto as crianças apreciam descobrir as estrelas no céu, me faz também constatar a triste realidade das pessoas adultas, que não têm tempo nem interesse para parar e regozijar-se com a vida, que se manifesta nas pequenas coisas do nosso cotidiano.

A criança está sempre no presente e é total em cada ato dela. Não reprime nem finge suas emoções, como o adulto. Se está com raiva, é total na raiva; se está com vontade de chorar, derrama-se em lágrimas e, quando sorri, meu Deus, ilumina tudo ao seu redor! Quem resiste à beleza que se irradia da face de uma criança sorrindo, do brilho dos seus olhos inocentes? Um espetáculo que muitas mães e pais perdem, pois o ritmo de vida do homem moderno não deixa muito tempo nem abertura para essas preciosas paradas e observações no dia a dia.

Pai e mãe, normalmente, se não estão no trabalho, estão em casa às voltas com os afazeres domésticos ou lendo o jornal, assistindo aos programas de televisão, ligados na internet ou, então, exauridos após uma jornada de oito horas ou mais de trabalho, sem vitalidade para estarem, de fato, com os filhos. Frequentemente, convivem em um ambiente profissional hostil, no qual impera a competição ao invés da cooperação e a amizade entre as pessoas. Um ambiente que, por si só, já é estressante e ajuda a “minar” a energia de uma pessoa. Assiduamente, chegam em casa preocupados com o que ficou para trás ou com os afazeres do dia de amanhã. O corpo está lá, mas há uma ausência da própria presença nesse corpo. Enquanto isso, o momento vai passando, sendo posto de lado, sem ser vivenciado, sem ser tocado, sem ser apreciado...

Essas são maneiras de ausentar-nos do contato conosco, com as pessoas queridas e com toda a natureza. Por vezes, até o sexo torna-se apressado, mecânico, deixando, assim, de ser uma fonte de nutrição para ambos os parceiros.

Estar e ficar presente no aqui e agora, seja no momento da oração, do cuidado com os filhos, do banho, de molhar as plantas, de cozinhar, lavar os pratos ou qualquer outro ato do cotidiano é abrir as portas para nos unificarmos e comungarmos com toda a Existência. Com essa totalidade de presença em tudo que fazemos, o nosso fazer adquire uma qualidade diferenciada e torna-se uma meditação.

Nesse ato simples de estar presente, o mistério da vida se revela e encontramos soluções para muitos dos problemas que enfrentamos. E como conseguir FICAR NO AGORA, sem apego ao passado e sem medo ou ansiedade em relação ao futuro? A chave é acolher o momento atual, quer o consideremos bom ou não.

Papai, certa vez, disse-me: “A vida é boa. Esteja a vida boa ou não, você a considera boa. Então, ela fica boa. E quando você vai dormir, fecha os olhos e o sono vem. Você não se preocupa e dorme aquele sono bom, tranquilo”.

Ao termos a coragem de encarar a realidade como ela se apresenta, mesmo em meio às maiores tribulações, torna-se possível sair do caos e manter o equilíbrio interior. Ganhamos força e clareza para lidar com os problemas e, o que é melhor, saímos da reação e do papel de vítima. Aí, sim, podemos transcender nossos limites. Então, eassumimos a responsabilidade pela nossa própria vida e paramos de culpar os outros pelas nossas mazelas e infelicidade.

Essa aceitação e acolhida da vida como ela é, aqui e agora, nos dá um forte enraizamento com o nosso centro, permitindo-nos viver de forma madura e pacífica. Desapegamo-nos do passado e nos despreocupamos com o futuro. Nestas condições, conseguimos desembarcar efetivamente no presente que é a própria vida, seja nos momentos de alegria, seja nos de tristeza.

(*) BENEDIDTA ENILDES DE CAMPOS CORRÊA é Administradora e Terapeuta Corporal Ayurveda. Prof. de Yoga. Ministra seminários vivenciais às organizações governamentais e privadas na área de Qualidade de Vida. Autora de Vida em Palavras. E-mail: omsaraas@terra.com.br

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