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Artigos Quarta-feira, 15 de Abril de 2026, 15:07 - A | A

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Quarta-feira, 15 de Abril de 2026, 15h:07 - A | A

DANIELLE BERTOLINI

Uma oração à violência

DANIELLE BERTOLINI

Em Cinco Tipos de Medo, filme cuiabano em cartaz nos cinemas de todo o Brasil, com direção, roteiro e montagem do cineasta Bruno Bini, a fragmentação narrativa não é um recurso estético gratuito — é uma estrutura de pensamento. Ao entrelaçar diferentes trajetórias, o filme afirma, com contundência, que o medo não é individual, mas sistêmico. Ele circula, contamina, organiza relações.

Cada personagem encarna uma variação desse estado: medo da perda, da violência, da impotência, do desejo, do próprio passado. E o mais inquietante é que ninguém escapa. Nem quem oprime, nem quem é oprimido. As relações são atravessadas por desequilíbrios constantes, que se manifestam tanto no íntimo quanto no social. Aqui, o medo não é apenas psicológico — ele é corporal, inscrito nos gestos, nas escolhas, nos limites do que cada corpo suporta.

5 tipos de medo

 

O filme sugere que o medo opera simultaneamente como ferramenta de controle, motor de ação e mecanismo de aprisionamento. E talvez sua afirmação mais dura seja essa: ninguém sai ileso — mas todos seguem.

Ao longo da narrativa, a violência se acumula. Mortes atravessam as histórias, irrompem como consequência de um mundo já tensionado ao limite. Não são eventos isolados, mas sintomas de uma engrenagem em funcionamento.

É nesse acúmulo que emerge uma das cenas mais contundentes do filme — aquela em que o cinema deixa de narrar e passa a invocar.

Os assassinatos cometidos por um jovem que começa o filme inocentemente jogando futebol, não inauguram a violência: eles a encerram. São os dois últimos. Um gesto extremo que não surge do nada, mas como culminação de tudo o que já vinha sendo tecido.

Ele mata. Não por ambição ou poder, mas por proteção.

E então o filme silencia.

Na sequência, uma avó acolhe o neto. Não há julgamento, nem redenção explícita. Há gesto. Há corpo. Há zelo. A arma utilizada no crime repousa aos pés de uma santa, em um altar improvisado.

É nesse instante que Cinco Tipos de Medo se revela em sua camada mais profunda: a violência não como ruptura do sagrado, mas como sua continuação distorcida.

O gesto da avó reorganiza completamente o sentido da cena. Aquilo que poderia ser lido como pura barbárie desloca-se para um território mais complexo, quase ritualístico. Cuidar daquele corpo que matou é também reconhecer que ele foi atravessado por forças que o excedem: a precariedade, o abandono, a urgência de sobreviver.

A arma, colocada aos pés da santa, não pede perdão. Pede compreensão.

Nesse contexto, chamar essa cena de “oração” não é exagero — é leitura. Há algo profundamente espiritual na forma como o filme articula cuidado e destruição, fé e crime, afeto e morte. Como se dissesse que, em territórios onde o Estado não chega, onde a justiça falha e onde o futuro é curto, o sagrado se reorganiza. E, às vezes, assume a forma de um gatilho.

Ao longo do filme, a violência não é espetáculo. É linguagem. Uma forma limite de existência.

Talvez o que Cinco Tipos de Medo proponha não seja entender a violência, mas escutá-la. Não justificá-la, mas reconhecê-la como sintoma. Porque, no fundo, essa oração não é de redenção — é de sobrevivência.

É nesse mesmo horizonte que se inscreve Marlene, personagem de Bella Campos, que atravessa a narrativa tensionada entre o desejo de permanecer e a urgência de romper.

Ao final, ela parte. Sozinha.

À primeira vista, a imagem poderia reforçar um imaginário recorrente: o da solidão da mulher negra, historicamente empurrada para margens afetivas, privadas de amparo e reciprocidade. Mas o filme recusa essa leitura simplificadora.

A solidão de Marlene não é abandono. É escolha.

Há, nesse gesto, uma torção radical de sentido. Ir embora não é ausência de vínculos, mas recusa de permanecer em estruturas que violentam. É um movimento de retirada que não enfraquece — reorganiza.

Marlene não parte porque não tem para onde ficar. Parte porque entende que ficar tem um custo alto demais.

Sua solitude não é vazia. É território. Um espaço ainda em construção, talvez instável, mas profundamente seu. Em um filme atravessado por violências que aprisionam, seu gesto é raro: ela não reage apenas — ela decide.

Se a violência aparece, ao longo da narrativa, como linguagem de sobrevivência, em Marlene surge outra possibilidade: a da ruptura silenciosa. Sem arma. Sem confronto direto. Mas não menos radical.

E talvez seja justamente aí que resida uma das imagens mais políticas de Cinco Tipos de Medo: uma mulher negra que não é deixada — mas que se deixa ir.

(*) DANIELLE BERTOLINI é jornalista, cineasta, produtora, curadora e empreendedora cultural. Mestra em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT).

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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