Artigos Quinta-feira, 03 de Novembro de 2011, 20:05 - A | A

Quinta-feira, 03 de Novembro de 2011, 20h:05 - A | A

UFMT: Democratização de acesso e inclusão

Como professor e militante do Movimento Negro, entendo que fomos brindados com avanços dos debates nas justificativas sócio-histórico-politicas, que visam à correção histórica da injustiça cometida pela classe dominante contra mais de metade da população

WALDIR BERTULIO

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30 de Outubro de 2011. Dia histórico em que a UFMT aprovou no encontro do clarão do sol com a noite as cotas raciais para negros, e sociais para alunos da escola pública. Um ponto de justiça a uma maioria da população brasileira deserdada e mergulhada na miséria material, ética e política. Centelha de reparação aos afrodescendentes brasileiros, que apesar da escravidão, construiram o marco cultural e as riquezas desta nação.

Este povo, que amamentou os filhos da elite, que semeou as riquezas desde o café dos barões, até hoje, sustentando a base da força de trabalho que gera as riquezas do Brasil em toda sua história.

Abro espaço para citar fragmentos da declaração do professor José Jorge de Carvalho, da UNB, coordenador do Instituto Nacional de Ciencia e Tecnologia e pesquisador do CNPQ: “A luta das cotas para negros e indígenas, iniciada no início da década passada, representa uma das maiores revoluções na história das universidades públicas brasileiras, na medida que rompeu com a lógica de exclusão etnica e racial crônica e generalizada do nosso mundo acadêmico... De todas Universidades Públicas, a mais anômala é a UFMT... Se a UFMT tivesse implementado as decisões que foram tomadas em 2003, teria sido projetada, ao lado da UNB, UFPR, e da UFAL como uma das pioneiras entre as Universidades Federais que enfrentaram o desafio de contestar o nosso cronico racismo academico ... Esperamos que a UFMT se redima do atraso em implementar as cotas ... assegurando aos negros e indígenas ... vagas no ensino superior público branqueado e segregado ... que sempre incluiu alunos de escolas públicas, mas que sempre excluiu os negros e indígenas”.

Não poderíamos deixar que empobrecessem a luta pelas COTAS fora do eixo do Movimento Internacional de Reparações e das Ações Afirmativas.

O CONSEPE está de parabéns. Agora a UFMT é a 106ª a adotar Ações Afirmativas, Cotas Raciais, enquanto instituição de ensino superior público.

Presentes, além dos conselheiros, lideranças do Movimento Negro, aos quais se abriram as falas. Deu-se voz ao "outro".

Presença marcante da UNEMAT, exemplo na luta pela democratização do acesso, como em mais de 60 Universidades Públicas hoje com Cotas Raciais, e mais de cem com Cotas Sociais.

Saúdo a Reitora Prof.ª Maria Lúcia, o Vice Reitor Prof. Francisco Souto, a Pró Reitora Prof.ª Miriam, que assumiram integralmente a incorporação já das Ações Afirmativas e Cotas Raciais. A Reitora em sua fala disse que se sentiu envergonhada de a UFMT não ter tomado nenhuma medida após aprovação das sobrevagas em 2003, tendo reforçado a função social da Universidade no combate da exclusão e das desigualdades.

Como professor e militante do Movimento Negro, entendo que fomos brindados com avanços dos debates nas incontestáveis justificativas sócio-histórico-politicas, que visam à correção histórica da injustiça cometida pela classe dominante contra mais de metade da população brasileira, que é negra.

Para o Movimento Negro, o espaço de maior dificuldade de entendimento e combate ao racismo é na academia, principalmente por uma elite, ou pseudo elite travestida de paladina de direitos, mas que age como troglodita de esquerda, recusando-se a reler desde as categorias do Marxismo, até as teses contemporâneas de equidade e justiça politica, ignorando até que o lastro de sobrevivência do capitalismo é a produção de desigualdades.

Há muito tempo, o racismo é uma das grandes contradições na periferia, onde o capitalismo “nada de braçadas”. É preciso entender que a exclusão é de cor, não é econômica. Por isso, é também preciso rever o equívoco de vagas para brancos pobres ou que cursem somente escola pública.

Não ao racismo institucional; não ao racismo cordial; não a farsa dos argumentos que culpabilizam as vítimas do racismo; não a invisibilidade do racismo; não a idéia real da maioria que é contra cota racial, cosmetizando argumentos que só confluem a argumentação de origem, que é a inexistência do racismo no Brasil. Esta é uma vitória da luta do Movimento Negro nacional e estadual, que vem pressionando pelo menos desde a década de 30 de todas as formas em favor das Politicas de Ações Afirmativas.

Temos grandes desafios à frente, acredito que avançaremos mais. Nós, principalmente povos indígenas e negros, os deserdados de sempre.

(*) WALDIR BERTÚLIO é professor da UFMT. E-mail: waldir.bertulio@bol.com.br

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