Em um país frequentemente seduzido pelo grandioso, pela retórica exuberante e pelos gestos monumentais, a poesia de Manoel de Barros realizou um movimento contrário: voltou-se para o pequeno, o inútil, o quase invisível. Poucos autores brasileiros transformaram tão profundamente a relação entre linguagem e natureza quanto o poeta cuiabano, cuja obra ergueu um universo poético a partir de coisas aparentemente desprezíveis — um sapo, uma lata enferrujada, uma pedra esquecida no quintal.
Nascido em 1916, em Cuiabá, tendo se mudado para Campo Grande aos 14 anos, da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, Manoel de Barros foi profundamente marcado pela vida no Pantanal e desenvolveu uma poética que desafia classificações simples. Seu trabalho não é apenas regionalista, embora a paisagem pantaneira esteja em toda parte; tampouco é apenas experimental, apesar da radical liberdade com que ele manipula a língua. Sua poesia habita um território singular onde infância, natureza e linguagem se confundem.
Ao longo de livros como Livro sobre Nada, o poeta construiu um projeto literário que subverte a hierarquia tradicional das palavras. Em vez de buscar a precisão lógica ou a eloquência clássica, ele preferiu o erro criativo, o desvio, a infância do idioma. Em sua obra, as palavras parecem reaprender a existir, como se voltassem a um estado anterior à gramática rígida.
Essa operação poética possui uma dimensão filosófica profunda. Manoel de Barros parte da intuição de que a linguagem moderna, excessivamente racionalizada, perdeu parte de sua capacidade de encantamento. Ao devolver às palavras uma certa ingenuidade — não no sentido de ignorância, mas de abertura ao mundo —, o poeta cria um espaço em que a imaginação se torna conhecimento.
Há nessa postura um diálogo indireto com a tradição filosófica que valoriza o olhar inaugural sobre as coisas. Martin Heidegger, por exemplo, sugeria que a poesia é uma maneira privilegiada de revelar o ser do mundo. Embora Manoel de Barros não escrevesse filosofia, sua obra parece partilhar dessa convicção: a poesia não descreve simplesmente a realidade, ela a reinventa.
Tal reinvenção se manifesta sobretudo na valorização do insignificante. Enquanto a cultura dominante privilegia aquilo que é útil, produtivo e mensurável, Manoel de Barros celebra justamente o que escapa a esses critérios. Ele escreve sobre o que está à margem: o caracol, o cisco, a poça d’água. O poeta inverte a lógica da importância e faz da inutilidade uma forma de resistência.
Essa escolha estética possui também uma dimensão ética. Ao dignificar o pequeno, o poeta questiona silenciosamente a obsessão contemporânea pela grandeza e pelo sucesso. Sua poesia sugere que há sabedoria nas coisas desprezadas, uma espécie de conhecimento subterrâneo que só se revela a quem desacelera o olhar.
Outro aspecto notável de sua obra é a permanente aproximação entre infância e poesia. Para Manoel de Barros, a criança representa um estado de liberdade linguística e sensorial que o adulto costuma perder. Recuperar essa perspectiva infantil significa libertar as palavras de seus usos previsíveis e permitir que elas voltem a brincar com o mundo. Talvez por isso sua poesia seja tão profundamente brasileira e, ao mesmo tempo, universal.
Num tempo marcado pela pressa e pela utilidade imediata, ler Manoel de Barros é uma experiência de desaceleração. Em meio ao ruído da vida contemporânea, seus versos continuam a lembrar que há beleza naquilo que o mundo considera inútil. Sua poesia convida o leitor a reaprender a ver, a escutar o que normalmente passa despercebido. É uma literatura que não busca dominar o mundo com conceitos, mas acolhê-lo com espanto.
Afinal, “O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê.”
É por aí...
(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto) é da Academia Mato-Grossense de Letras (AML) e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT).
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