Dias atrás, quase por acaso — se é que existe — reencontrei esse texto do professor Hermógenes1. Ele fala a respeito de saúde, mas também de algo muito maior: dos ciclos inevitáveis da vida, de seus desafios e das oportunidades de crescimento que permanecem abertas em cada um deles. Especialmente naquele que se costuma chamar de terceira idade.
Quando o li pela primeira vez, há alguns anos atrás, achei-o muito bom, inspirador. Cheguei até a colocar algumas de suas recomendações em prática. Mas o corre-corre da vida, fez a disposição inicial durar pouco. Algumas semanas depois, o texto já havia se perdido em meio às obrigações e distrações do cotidiano.
Agora, ao relê-lo, ele me alcançou de maneira diferente. Talvez porque a passagem do tempo seja hoje mais evidente. Talvez porque a percepção de que mais, cedo ou mais tarde, a noite chegará para todos tenha se tornado mais concreta. E foi justamente essa percepção que me fez compreender melhor a mensagem de Hermógenes de que a noite é inevitável e chegará de qualquer forma. Mas, ao mesmo tempo, cada um de nós pode escolher como deseja encontrá-la.
Há quem permaneça no vale, sem nem perceber o avanço das sombras. Há quem decida subir a montanha. Decisão que pode ser tomada em qualquer momento da vida, mesmo com o sol a pino e quanto mais cedo iniciarmos essa caminhada, com certeza chegaremos mais no alto.
E essa subida não é apenas física. Ela acontece também na mente, no coração e no espírito. Envolve escolhas simples, bem conhecidas, mas profundas, que muitas vezes exigem esforço e determinação para alcança-las. O que significa abandonar hábitos que enfraquecem a vida, como o fumo, o álcool, a preguiça ou o excesso de qualquer coisa e, ao mesmo tempo, cuidar do corpo com alimentação equilibrada, descanso adequado e movimento continuado. Todas, coisas bem prazerosas.
Mas a ascensão mais importante talvez seja interior. É a libertação de vícios interiores que, na grande maioria das vezes, sequer percebemos: a inveja que corrói, o ressentimento que aprisiona, o medo que paralisa, o desejo de vingança que envenena a alma. São pesos que tornam a caminhada mais difícil e que se deixados pelo caminho, a subida se torna mais leve.
O mais interessante é que essa transformação não exige feitos extraordinários. Ela acontece por meio de pequenas escolhas repetidas diariamente. Um passo de cada vez. Um hábito substituído. Um ressentimento abandonado, um perdão concedido. Um pensamento mais elevado cultivado. Uma atitude de gratidão praticada.
No final, subir a montanha não significa negar a chegada da noite, mas preparar-se para ela. Significa viver de tal forma que, quando o sol estiver se despedindo, possamos contemplar seus últimos fulgores de um lugar mais alto, com mais serenidade, lucidez e paz.
Porque a grande questão não é se a noite virá. Ela chegará para todos. A questão é onde estaremos quando ela chegar: perdidos entre as sombras do vale ou no alto da montanha, com o horizonte iluminado pela luz que soubemos cultivar ao longo da caminhada.
(*) SÉRGIO GUIMARÃES é caminhante.
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