Desenvolvimento e meio ambiente precisam caminhar de mãos dadas. As quatro mil mudas plantadas pela empresa, conforme divulgado pela Prefeitura, não substituem árvores adultas que levaram décadas para crescer.
Uma obra viária prevista para atender ao acesso de um condomínio em Cuiabá poderá resultar na retirada de árvores adultas e sadias para a construção de uma rotatória. A justificativa apresentada é a necessidade de melhorar o trânsito e viabilizar o empreendimento. O problema não está na existência da obra, mas na insistência em tratar as árvores como obstáculos descartáveis.
Cuiabá precisa crescer. Precisa de mobilidade, investimentos, moradia e infraestrutura. Mas desenvolvimento e proteção ambiental não podem continuar sendo apresentados como interesses opostos. Nas cidades que planejam o futuro, a engenharia se adapta à natureza existente. Em Cuiabá, frequentemente, é a natureza que precisa desaparecer para que o projeto permaneça intocado.
A Associação Cuiabá Mais Verde consultou profissionais das áreas de engenharia e arquitetura sobre o caso. A avaliação é de que a solução viária poderia ter sido projetada de outra maneira, com maior preservação dos exemplares existentes. No entanto, diante da informação de que o projeto não será alterado, uma alternativa ainda precisa ser considerada com seriedade: o transplante das árvores adultas sadias.
Transplantar uma árvore não significa simplesmente retirá-la de um ponto e colocá-la em outro. O procedimento exige avaliação técnica, preparação do exemplar, preservação do torrão e das raízes, transporte adequado, escolha prévia de um novo local e acompanhamento posterior.
Nem toda árvore pode ser transplantada. Mas toda árvore adulta e saudável que será retirada deveria, no mínimo, passar por uma avaliação individual de viabilidade.
Antes da motosserra, deve existir estudo.
Antes da supressão, devem ser esgotadas as alternativas.
E antes que o dano aconteça, a população precisa conhecer o projeto e entender por que árvores que levaram décadas para crescer precisam ser eliminadas.
QUATRO MIL MUDAS NÃO SUBSTITUEM ÁRVORES ADULTAS
A Prefeitura divulgou que a empresa responsável pelo empreendimento plantou quatro mil mudas como parte de suas ações ambientais.
O plantio merece ser registrado. Toda nova árvore é importante para uma cidade que enfrenta calor extremo e perda contínua de cobertura vegetal. Mas esse número não pode ser apresentado como resposta suficiente para a eliminação de árvores adultas.
Quatro mil mudas de aproximadamente meio metro não equivalem a quatro mil árvores adultas.
Na verdade, nem mesmo milhares de mudas recém-plantadas substituem imediatamente algumas árvores maduras, com copas formadas, sombra consolidada e décadas de crescimento.
Uma árvore adulta já reduz a temperatura ao seu redor, intercepta a água das chuvas, oferece abrigo à fauna, melhora a qualidade do ar, protege o solo e proporciona conforto para quem circula pela cidade.
A muda representa uma possibilidade futura.
A árvore adulta representa um benefício presente.
Além disso, plantar não é o mesmo que garantir sobrevivência. É preciso saber onde as mudas foram colocadas, quais espécies foram utilizadas, quem será responsável pela irrigação, pela manutenção, pelo monitoramento e pela substituição das que não sobreviverem.
Sem acompanhamento, quatro mil mudas podem se transformar apenas em um número para divulgação.
Não se trata de desmerecer o plantio. Trata-se de impedir que ele seja usado para criar uma falsa equivalência entre uma muda recém-colocada no solo e uma árvore adulta que já presta serviços ambientais à cidade.
Compensação ambiental não pode ser propaganda. Precisa produzir resultado.
O PROBLEMA NÃO É APENAS ESTA ROTATÓRIA
O caso do condomínio não pode ser analisado isoladamente.
Cuiabá atravessa um processo contínuo de perda de árvores adultas. São podas drásticas, cortes sucessivos, supressões para obras, raízes sufocadas pelo concreto e intervenções realizadas sem que a população tenha acesso prévio às justificativas técnicas.
O que deveria ser excepcional está se tornando rotina.
E quando a destruição se repete em diversos pontos da cidade, já não é possível falar apenas em falhas individuais. Estamos diante de um problema de gestão.
A Prefeitura e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente precisam explicar qual política efetiva está sendo adotada para proteger as árvores adultas de Cuiabá.
Não basta autorizar o corte e anunciar compensações depois.
A função de uma Secretaria de Meio Ambiente é defender o patrimônio ambiental, exigir mudanças nos projetos, fiscalizar as intervenções, impedir podas destrutivas, cobrar alternativas e garantir que a retirada seja sempre a última possibilidade.
Uma secretaria ambiental não pode funcionar como simples setor de liberação de obras.
Precisa dizer “não” quando for necessário.
Precisa exigir adaptação.
Precisa enfrentar interesses econômicos quando eles ameaçam o interesse coletivo.
Quando o meio ambiente aparece apenas no final do processo, depois que a obra já está definida e não pode mais ser alterada, a gestão ambiental já fracassou.
SEM O PLANO DIRETOR DE ARBORIZAÇÃO URBANA, CUIABÁ CONTINUA NO IMPROVISO
A repetição desses casos está diretamente relacionada à falta de execução efetiva do Plano Diretor de Arborização Urbana de Cuiabá.
Esse plano deveria orientar toda a política municipal relacionada às árvores: inventário, plantio, poda, transplante, supressão, fiscalização, compensação, manutenção, escolha de espécies e ampliação da cobertura vegetal.
Também deveria garantir que as árvores existentes fossem consideradas desde a elaboração dos projetos urbanos e viários, e não apenas quando já estivessem no caminho das máquinas.
Sem o Plano Diretor executado, a cidade continua tomando decisões fragmentadas.
Cada obra é analisada separadamente.
Cada árvore depende de uma autorização pontual.
Cada compensação segue um critério diferente.
E cada novo problema é tratado somente depois que a população denuncia.
Se o Plano Diretor de Arborização Urbana estivesse verdadeiramente implantado, Cuiabá teria protocolos claros para avaliar transplantes, preservar exemplares adultos, acompanhar compensações e impedir podas drásticas.
O que acontece hoje não é inevitável.
É consequência da ausência de uma política pública organizada, fiscalizada e executada.
Enquanto o plano não sai efetivamente do papel, a cidade perde árvores uma por uma — e tenta compensar décadas de omissão com pequenas mudas e ações isoladas.
A POPULAÇÃO PRECISA CONHECER O PROJETO
Uma rotatória construída em uma avenida pública não interessa apenas ao condomínio que será atendido.
A intervenção altera o trânsito, o espaço urbano, a paisagem, o solo, a drenagem e a arborização de toda a região. Por isso, o projeto precisa ser apresentado à sociedade.
Quantas árvores serão atingidas?
Quais espécies?
Elas estão realmente condenadas ou são exemplares sadios?
Existe laudo individual?
Quem avaliou a possibilidade de preservá-las no local?
Quem concluiu que o transplante seria inviável?
Qual será o destino dessas árvores?
Onde foram plantadas as quatro mil mudas divulgadas?
Quem acompanhará o desenvolvimento delas?
Essas informações precisam estar acessíveis antes do início da intervenção, e não apenas depois que as árvores forem derrubadas.
O Conselho Municipal de Meio Ambiente também não pode ser tratado como figura decorativa. Precisa ser informado, provocado e chamado a acompanhar projetos de impacto relevante para a arborização urbana, respeitadas as competências formais de cada processo.
Da mesma forma, os órgãos de controle devem verificar a legalidade das autorizações, a consistência dos laudos, o cumprimento das condicionantes e a efetividade das compensações anunciadas.
A população não pode descobrir tudo quando as máquinas já estiverem posicionadas.
Transparência posterior não recupera árvore derrubada.
CRESCER DESTRUINDO O VERDE NÃO É EVOLUIR
Cuiabá está entre as cidades brasileiras que mais precisam de sombra, conforto térmico e proteção ambiental. Mesmo assim, segue permitindo que árvores adultas sejam retiradas de forma recorrente, enquanto o concreto avança e o calor se intensifica.
Não podemos continuar aceitando a ideia de que toda obra é intocável e toda árvore é removível.
Projetos podem ser revistos.
Traçados podem ser adaptados.
Árvores podem ser integradas à paisagem.
E, quando a retirada for realmente inevitável, exemplares adultos e sadios podem ser avaliados para transplante.
Não somos contra a construção da rotatória.
Somos contra a destruição automática de árvores vivas quando ainda existem alternativas.
Somos contra uma gestão que apresenta pequenas mudas como se elas apagassem a perda de árvores adultas.
Somos contra uma política ambiental que chega sempre tarde demais.
O custo do transplante precisa ser comparado não apenas ao preço do corte, mas ao valor ambiental que a cidade perderá: sombra, drenagem, redução de temperatura, biodiversidade, paisagem e décadas de crescimento.
Matar uma árvore adulta leva minutos.
Formar outra igual pode levar uma geração.
Se o projeto não será alterado, que ao menos as árvores adultas sadias sejam transplantadas para locais adequados, com planejamento, acompanhamento e transparência.
Cuiabá não precisa escolher entre desenvolvimento e meio ambiente.
Precisa de gestores capazes de fazer os dois caminharem juntos.
(*) SILVIA MARA SILVA DE ARRUDA MARTINS é Advogada e Presidente da Associação Cuiabá Mais Verde.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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