Preciso começar dizendo de onde eu falo, porque não acredito em reflexão honesta quando ela se apresenta como se viesse de um lugar neutro, asséptico, técnico, distante das contradições do mundo real. Eu trabalho diariamente com comunicação, com construção de narrativas, com disputa de sentidos, com enquadramento de fatos, com estratégia digital e com observação direta do comportamento das pessoas nas redes sociais, esse território que hoje organiza não apenas o consumo de informação, mas também boa parte da experiência emocional, política e social de quem está conectado. É dentro desse ambiente, acompanhando a velocidade com que um conteúdo nasce, se espalha, é reinterpretado, distorcido, apropriado e transformado em certeza para milhares de pessoas em poucas horas, que eu venho tentando compreender um fenômeno que me parece mais profundo do que a própria mentira: a lenta erosão da confiança na possibilidade de que exista algo que possa ser reconhecido coletivamente como verdadeiro. E essa inquietação não surgiu apenas de análises profissionais ou de leituras sobre desinformação e tecnologia; ela nasceu, sobretudo, de uma experiência banal, doméstica e profundamente reveladora.
Tenho um familiar que, durante muitos anos, foi o que todos reconhecem imediatamente como o “encaminhador compulsivo” dos grupos de WhatsApp, aquela pessoa que se sente quase moralmente obrigada a repassar qualquer alerta, denúncia, vídeo ou print que chegue à sua tela, sempre com a sensação de que está prestando um serviço à família, aos amigos, à sociedade. Nunca houve ali uma intenção deliberada de enganar; havia urgência, ansiedade, medo, vontade de participar do fluxo, de não ficar à margem do que parecia importante. Durante muito tempo, nossas conversas giraram em torno de tentar explicar o óbvio: a necessidade de verificar fonte, data, autoria, contexto, edição, recorte e intenção. Eram diálogos repetidos, cansativos, por vezes frustrantes, até que, nos últimos meses, ele simplesmente parou.
Outro dia, numa conversa absolutamente tranquila, quase despretensiosa, ele me disse que não compartilha mais nada sobre política, que não comenta mais nada, que não discute mais nada, porque já não consegue saber o que é verdade e o que é mentira, sobretudo depois que passou a ouvir falar de vídeos, imagens e áudios gerados por inteligência artificial. A fala não veio carregada de indignação nem de engajamento crítico; veio acompanhada de um cansaço silencioso, de um desencanto sereno, de uma espécie de desistência emocional diante da complexidade do mundo informacional em que estamos mergulhados. No primeiro instante, eu quase comemorei, acreditando estar diante de um avanço de consciência, de alguém que finalmente teria entendido que não se compartilha informação como quem compartilha figurinhas. Mas bastou escutar melhor para perceber que não se tratava de aprender a verificar, a desconfiar com método, a comparar versões e fontes; tratava-se de recuar, de abandonar o esforço, de se afastar do debate público como forma de autoproteção.
É exatamente aí que reside, para mim, o ponto mais sensível e mais perigoso da discussão contemporânea sobre desinformação. Ainda tratamos esse fenômeno, em grande parte, como um problema técnico, educacional ou jornalístico, como algo que poderia ser resolvido com checagens, selos, alertas, campanhas de alfabetização midiática e ferramentas de verificação. Tudo isso é importante, mas tudo isso se mostra insuficiente quando observamos o efeito mais profundo que está em curso: a transformação da dúvida, que deveria ser um instrumento saudável do pensamento crítico, em um mecanismo de fuga diante da sobrecarga cognitiva. Em um ambiente no qual qualquer imagem pode ser fabricada, qualquer vídeo pode ser simulado, qualquer voz pode ser reproduzida com precisão crescente, o que entra em crise não é apenas a credibilidade de um conteúdo isolado, mas a própria confiança coletiva na existência de um chão comum de realidade. Para o cidadão comum, que não dispõe de tempo, formação técnica nem recursos para auditar metadados, rastrear cadeias de edição ou compreender padrões sofisticados de manipulação digital, a conclusão passa a ser brutalmente simples: se tudo pode ser falso, então nada merece esforço. E quando esse raciocínio se instala, não se perde apenas informação; perde-se engajamento, perde-se disposição para se indignar, perde-se o vínculo afetivo e político com a esfera pública.
Esse processo se torna ainda mais evidente quando observamos a forma como investigações sérias e denúncias reais passam a circular no mesmo fluxo indistinto em que circulam montagens, vídeos fabricados e narrativas delirantes. O caso de Jeffrey Epstein é exemplar nesse sentido. As revelações envolvendo sua rede de relações, os crimes cometidos e os mecanismos de proteção que o cercaram são sustentadas por documentos, processos judiciais, depoimentos e investigações oficiais, e não por especulações marginais. Ainda assim, quando esses fatos passam a disputar espaço com conteúdos gerados artificialmente, imagens falsas, áudios manipulados e versões conspiratórias que se aproveitam do mesmo tema, o efeito não é esclarecimento, mas confusão. E a confusão, ao contrário do erro, não convoca correção; ela paralisa. O que se instala é uma sensação difusa de que tudo é narrativa, tudo é edição, tudo é manipulação, tudo é montagem, e que, portanto, qualquer tentativa de formar uma posição minimamente informada corre o risco de ser construída sobre algo que amanhã poderá se revelar falso. A consequência é um cansaço coletivo que se expressa na recusa silenciosa de reagir, na dificuldade de se mobilizar, na escolha cada vez mais frequente de se afastar do debate como forma de preservar a própria saúde emocional.
O que mais me inquieta não é a existência da tecnologia em si, porque tecnologias sempre foram utilizadas para organizar, manipular e disputar narrativas ao longo da história, mas o tipo de ambiência social que se constrói quando essas ferramentas passam a ser incorporadas de maneira massiva em um ecossistema já marcado pela desconfiança institucional, pela polarização política e pela fragilidade do jornalismo diante das plataformas. Não se trata apenas de um problema de veracidade, mas de um deslocamento profundo na relação das pessoas com o próprio ato de se informar. A inteligência artificial, quando instrumentalizada nesse contexto, potencializa uma sensação permanente de artificialidade do mundo, como se tudo fosse encenação, performance, construção
interessada, e nada mais pudesse ser tomado como referência confiável. Nesse cenário, a indiferença deixa de ser um desvio moral e passa a ser uma estratégia de sobrevivência psíquica. Não é que as pessoas tenham deixado de se importar com injustiças, abusos ou violações; elas passaram a não suportar mais o custo emocional de tentar distinguir o que é real no meio de um ruído ininterrupto.
Por isso, a frase simples daquele meu familiar, dita quase como quem comenta o clima, me pareceu tão reveladora. Quando alguém diz que parou de compartilhar porque não sabe mais no que acreditar, o problema não está apenas no conteúdo que deixou de circular, mas no vínculo que se rompe entre esse indivíduo e a vida pública. Não se trata de amadurecimento informacional, mas de afastamento. A desinformação, neste estágio, já não precisa mais convencer ninguém de uma mentira específica; basta produzir desorganização suficiente para que a própria ideia de verdade se torne cansativa demais para ser buscada. Talvez o deslocamento mais grave do nosso tempo seja justamente esse: saímos de uma disputa em torno de versões do mundo para uma disputa em torno da própria disposição de participar do mundo. Não é apenas a verdade que está sob ataque, mas a crença social de que ela pode ser procurada, debatida, defendida e compartilhada. E quando essa crença se enfraquece, o espaço público se torna mais vulnerável à captura, não por uma população enganada, mas por uma população exausta, saturada e progressivamente distante de qualquer sentimento de responsabilidade coletiva sobre o que acontece à sua volta.
(*) ROBERTA HERINGER é estrategista digital para perfis políticos e criadora do Estratégia Política Digital.
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