Sem a ignorantização das massas trabalhadoras e dos setores médios da sociedade sobre si mesmos e sobre o mundo, não existiria essa meia dúzia de bilionários a controlar e mandar na economia mundial, inclusive mediante guerras, impondo seus interesses contra quem trabalha e produz. A concentração de riquezas em poucas mãos no Brasil e no mundo não é fato fortuito, nem o resultado de uma suposta inteligência superior, ou intrepidez desassombrada dos bilionários: é a materialização da “lógica” de um processo produtivo, cujo metabolismo se efetiva convertendo o trabalho alheio, o trabalho dos trabalhadores e dos micros, pequenos e médios empreendedores, em mais capital controlado pelo capitalista. A alienação das massas trabalhadoras, que não veem a coisa acontecendo assim e não acreditam que seja assim, é que dá a condição psicológica, cultural, comportamental e política para que sua exploração se desenvolva e seja concebida como algo natural, “próprio da humanidade”, a desculpar o explorador...
Nessa loucura, os micros, pequenos e médios empreendedores são tragados pela ideologia dos capitalistas, que os convence de que são empresários, tal como eles, e que são eles que promovem o desenvolvimento, geram empregos e renda e o escambau; crendo nisso, passam a olhar os trabalhadores assalariados de cima pra baixo, como empecilhos e inimigos do seu sucesso. O político inescrupuloso, que vê nas dificuldades dessa miríade de micros, pequenos e médios empresários (para manterem seus negócios), uma fonte de recursos para abastecer, financiar, seu negócio político-eleitoral, insufla a separação, promove o ódio e defende o fim de qualquer direito e condição humanizada para os trabalhadores; ao que a maioria desses empreendedores aquiesce. Tudo vira negócio, que, controlado pelo capitalista, tem como ética o lucro – o resto, justifica-se no âmbito do negócio que se fizer necessário...
A cabeça das massas trabalhadoras, pelo juízo que fazem de si, do mundo e dos poderosos, é a maior realização da classe proprietária em proveito próprio; desgraçadamente, a pior e mais perversa das suas obras para a humanidade. Talvez, a conquista da Aposentadoria (em 1923, para apenas a categoria dos ferroviários, sendo unificada e garantida para todos somente em 1960), seja o que mais ilustra isso: até 1998, o trabalhador conquistava a Aposentaria pelo tempo de trabalho comprovado; depois disso, com a emenda constitucional Nº 20, foi exigido um tempo mínimo de contribuição; em 2019, exigiu-se tempo de contribuição mais idade mínima, etc. Passou despercebido para grande parte dos Trabalhadores, a mudança no conceito de Aposentadoria, que transige de tempo de trabalho ou de serviço, para tempo de contribuição, exigindo uma idade mínima. Com a mudança no conceito, a Aposentadoria passa a ser concebida e tratada como um direito que o trabalhador conquista (não pelo que ele produziu ao longo da sua vida produtiva), pelo que ele contribuir para a Previdência; ou seja, tem direito à Aposentaria, o Trabalhador que “fez uma poupança”, isto é, pelo que ele comprovar que contribuiu para a Previdência. Evidencia-se, assim, que, tudo o que o Trabalhador produziu na vida não lhe pertence, não lhe acrescentou nada, nem a garantia do direito ao descanso na velhice: tudo foi apropriado por seus patrões...
E dizem os “técnicos”, especialistas em enganação do Trabalhador: “assim tem que ser, é o correto, justo e sustentável: senão, a “previdência quebra...”.
Reafirmando essa perversidade, nas discussões na Câmara Federal sobre o projeto que propõe o fim da Jornada de Trabalho 6X1, um deputado disse que “Ócio demais faz mal!”; com a mesma posição, o presidente de um partido que se autointitula de Direita, disse que ele e seus correligionários dariam a vida para não aprovar esse projeto de lei, que garante a todos os Trabalhadores e Trabalhadoras uma semana de trabalho com dois dias de descanso. Na Argentina, o desarvorado presidente reduziu o valor da Aposentadoria em 50%, aumentou a jornada de trabalho para até 12 (doze) horas diárias e facultou aos patrões pagarem salários até com um prato de comida, etc. Em comum, esses políticos dizem ter “orgulho de ser de direita”; pois é, quando a ignorância viceja entre os trabalhadores, seus inimigos se orgulham da própria canalhice...
Nos anos finais da década de 1980, quando estava no Movimento Sindical, tínhamos um companheiro querido, muito presente e ativo nas lutas e atividades de mobilização, num tempo de muitos enfrentamentos, inclusive na forma de greves, etc.; egresso de Seminário, com uma formação eclesiástica avançada, quase padre, falava Latim e era verdadeiramente comprometido com as causas e lutas dos trabalhadores. Mas, sofria certa perturbação mental, agravada pela situação salarial e condições de vida e trabalho na Educação; tanto que, certa vez, ao receber seu salário, juntou as notas num montículo em frente aos caixas do banco, e saiu pedindo aos demais clientes um fósforo, para tocar fogo no dinheiro. Era um professor com muitos anos no Magistério, em sala de aula. Dados os problemas que apresentava, inclusive sua vontade de ir às vias de fato com os governantes da época, concertamos que deveríamos tentar a aposentadoria dele, como forma de lhe dar maior tranquilidade e evitar que cometesse algum desatino, ensejando um processo administrativo e demissão...
Informado da proposta, ele recusou duramente, dizendo que não era inválido, etc.; com muito diálogo, mostrando-lhe o quanto a sua aposentadoria lhe permitiria estar mais presente nas lutas, etc., ele aquiesceu. Uma companheira, que tinha muito jeito para lidar com essas situações, foi “escalada” para tratar dos encaminhamentos necessários junto ao IPMAT; dados os passos preliminares, o IPEMAT determinou que ele comparecesse à sede do Órgão para uma perícia. Conversamos muito para que ele não se contrapusesse aos encaminhamentos e orientações apresentados pela companheira, lá foram os dois para a perícia. O IMPEMAT estava lotado de gente, cada um com senha, aguardando ser chamado para ser avaliado pelo médico. Quando viu aquilo, a companheira ficou preocupada: como segurá-lo ali até serem atendidos? Ela pediu-lhe que a aguardasse lá fora, onde estavam, e foi conversar com os atendentes e, depois, com o chefe do Instituto. Ela voltou e informou-o das conversas que tivera lá dentro; não se sabe o teor dessas conversas. Mas, uns minutos depois, ele saiu de onde os dois estavam, e entrou na sala apinhada de gente gritando e falando em latim: foi um “Deus nos acuda!”.
A sala inteira virou um reboliço: as moças da recepção correram pra dentro, os que aguardavam abriram caminho pra ele passar, paralisando todo o atendimento. Ele, do jeito que entrou no salão, seguiu até a sala do chefe da repartição; a companheira que o acompanhava, vinha atrás dele pedindo calma a todos (pra ele, não), entrando junto no gabinete da chefia. O chefe ficou parado sem saber o que fazer, com ele parado na sua frente com cara de poucos amigos e impaciência; então, ela pediu que o chefe ficasse tranquilo, indicando aquela situação como confirmação da condição dele. Atenderam-no imediatamente, de forma que a perícia e seu resultado acabaram sendo, em certa medida, orientados pelo conjunto daquela confusão toda: houve por bem, afastá-lo do trabalho e, tempo depois, aposentar definitivamente...
Contra as perversidades e injustiças dos poderosos, e para preservar direitos inegociáveis – às vezes, um pouco de loucura é necessário, e recomendado...
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