O segundo turno presidencial expôs fraturas profundas no país, colocando frente a frente duas visões opostas de nação. De um lado, uma campanha focada na continuidade de um legado social e institucional; de outro, uma narrativa conservadora de forte apelo à pátria. Ambas as candidaturas mobilizaram multidões, mas também acirraram a polarização, transformando o debate público em uma arena de ataques mútuos e propostas frequentemente sufocadas pelo pragmatismo eleitoral de suas militâncias.
Flávio Bolsonaro construiu sua trajetória política sob o forte apelo popular de seu grupo familiar, ascendendo de deputado estadual no Rio de Janeiro a senador da República. Sua atuação é marcadamente pautada por pautas conservadoras, defesa da segurança pública e do livre mercado. Contudo, sua vida pública enfrenta fragilidades expressivas, com destaque para as investigações do caso das "rachadinhas" na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), suspeitas de lavagem de dinheiro e envolvimento com milicianos, episódios que frequentemente desgastam sua imagem institucional.
Por sua vez, Luiz Inácio Lula da Silva carrega uma biografia indissociável da redemocratização, vindo do sindicalismo até atingir a Presidência por múltiplos mandatos, marcados por programas de inclusão: 2003 - Programa Fome Zero, SAMU, Estatuto do Idoso, Bolsa Família, Programa Luz para Todos; 2004 - Farmácia Popular; 2005 – ProUni; 2006 - Lei Maria da Penha; 2007 – PAC, Fundeb, Minha Casa, Minha Vida; 2023 – retomada do Mais Médicos; 2024 – Pé-de-Meia. Apesar de seu inegável carisma e força eleitoral; a oposição, ao dominar as redes sociais, insiste na divulgação de Fake News e em manifestações que estimulam o confronto e a disseminação de pautas conservadoras.
Na era da “Pós-verdade”, na qual predominam manipulação digital, supremacia da emoção, crimes de lesa-pátria e polarização, escolher o chefe do Executivo exige do cidadão reflexão profunda, pois o voto molda o futuro coletivo. O desinteresse diante dessas fragilidades apenas fortalece os retrocessos, como advertia Bertolt Brecht em "O analfabeto político": "O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida... depende das decisões políticas... Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais."
(*) SÉRGIO CINTRA é professor de Linguagens e servidor do TCE-MT.
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