O mercado imobiliário está diante de uma mudança que vai muito além da metragem dos imóveis. A forma de morar está se transformando, impulsionada por famílias menores, crescimento da moradia individual e consumidores que passaram a valorizar localização, praticidade e serviços tanto quanto, ou até mais, do que grandes áreas privativas.
Um reflexo desse movimento aparece em São Paulo. Dados citados pela Forbes Brasil mostram que os studios representaram 52% dos lançamentos na capital paulista em abril e cerca de 65% das vendas no período analisado.
A expansão dos imóveis compactos também começa a movimentar serviços complementares, como o self storage, procurado por moradores que precisam guardar objetos que já não cabem dentro de apartamentos menores.
Na minha avaliação, esses números revelam uma mudança mais profunda no comportamento do consumidor. Não se trata simplesmente de aceitar morar em um espaço menor, mas de repensar o que realmente precisa estar dentro de casa. Quando existe uma boa estrutura de serviços e convivência no empreendimento, aliada a uma localização estratégica, é possível abrir mão de alguns metros quadrados sem renunciar a qualidade de vida.
Essa transformação também dialoga com o cenário apresentado recentemente pelo Globo Repórter, que abordou os novos significados da solteirice e mostrou pessoas que escolheram viver sozinhas. Entre os personagens, um homem que mora em um apartamento pequeno relata satisfação com esse estilo de vida.
Esse exemplo ajuda a compreender por que os studios ganharam espaço. Durante muito tempo, morar bem esteve associado à ideia de ter mais espaço. Hoje, para determinados perfis, morar bem pode significar ter uma residência mais compacta, mas estar perto do trabalho, dos restaurantes, dos serviços e de tudo aquilo que faz parte da rotina.
Em Cuiabá, essa transformação tem características próprias, mas já pode ser observada em projetos que trabalham o conceito de moradia compacta.
Cuiabá tem uma dinâmica diferente de São Paulo, e não seria correto simplesmente transportar para a capital mato-grossense os mesmos números ou comportamentos observados em grandes metrópoles. Mas a mudança de mentalidade é um fenômeno que merece atenção. O consumidor está mais interessado em entender como aquele imóvel se encaixa na sua vida. Localização, mobilidade, serviços e praticidade passaram a pesar cada vez mais na decisão.
O avanço dos studios, portanto, não representa apenas uma redução de espaço. É uma mudança na relação entre moradia e cidade. Se antes o imóvel precisava concentrar praticamente todas as necessidades do morador, agora ele pode funcionar como uma base dentro de uma estrutura maior.
Estamos diante de uma nova equação. O consumidor não quer necessariamente morar maior. Quer viver melhor, com mais praticidade, funcionalidade e aproveitamento do tempo. É essa transformação que o mercado imobiliário precisa compreender para acompanhar o novo jeito de viver nas cidades.
(*) VICTOR BENTO é diretor do Grupo Vivart.
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