A distância entre Brejos dos Jacus e a fazendinha de Anastácio, sabia bem quem a percorreu por seu caminho-vereda: eram dois dias de caminhada dura, atravessando o varjão seco, seguindo por trechos de cerrado que, às vezes, engrossava numa matinha alta, e sempre marcado pelos cascos do gado tangido pelos vaqueiros e pelos vincos das pesadas rodas de carro-de-bois, que rasgavam fundo a terra mais úmida, mole – daí, o Sítio de Abdias Marcolino ter se tornado quase pensão: ficava mais ou menos no meio da distância, era onde as pessoas pernoitavam, depois de um dia inteiro de caminhada. Ali descansavam, tiravam a carga dos animais, davam-lhes água fresca e, com os mantimentos que traziam consigo, faziam comida quente na cozinha da Dona Dinalva; comiam, atavam as redes na casa de farinha, onde cabia dezenas delas, e dormiam sono-bom. No cantar do galo levantavam, desatavam as redes, dobravam as cobertas, guardavam-nas em sacos e agasalhava tudo nas cangalhas ajustadas nos lombos dos animais e no carro-de-bois; enquanto isso, as mulheres faziam o quebra-jejum: café, farofa de ovos e carne seca; comiam e seguiam viagem...
Na despedida, se um ou outro falava em pagar o pouso, dar um adjutório aos donos da casa, ouvia-se, quase compungido, de Abdias: Guarde seu dinheiro pra sua necessidade; mas, se um precisar e lhe pedir, faça o mesmo. Vão com Deus!
O grupo que, no finzinho da tarde, chegou no Sítio de Abdias, era formado por umas seis pessoas adultas e três crianças com idade de cavalgar caminho longo: todos da família de Adauto Firmino e Adelina, menos uma moça alta e esguia, de riso à mostra e gestos comedidos, ternurosos e olhar cândido – que atraía os olhares e a atenção de quem a via. Apearam e, com Adauto e Adelina à frente, os chegantes cumprimentaram os donos do sítio; Dona Dinalva olhou pra Mayuan, perguntando amistosa pra Adelina: E essa moça bonita?; batendo carinhosamente nas costas dela, Adelina respondeu-lhe: Ela tá vino com a gente, vai até o Anastácio...
Mayuan sorriu benquerente, abraçou a dona da casa num gesto de agradecimento à hospitalidade, cumprimentou Abdias, as crianças, admirada com aquela candura: –Sou Mayuan; apresentou-se, percebendo os olhares de espanto do casal, por sua presença naqueles ermos...
Adauto e os seus, acomodaram-se na Casa de Farinha, onde ataram suas redes, uma ao lado da outra, formando uma imagem multicolorida, bonita; Mayuan foi levada por Dinalva para um quarto com uma cama com colchão de capim e lençóis floridos, que ela trocou por outros, brancos, dizendo-lhe: Aqui, nesse quarto, era que dormia Esmeraldo, nossa filha; que se casou mês retrasado.... Mayuan a ouvia falar, observando no dizer saudoso daquela senhora, como as pessoas conversavam detalhando tudo, minunciosamente; era de jeito que, em pouco tempo, sabia-se quase tudo sobre o lugar, as pessoas, os principais acontecimentos e até o que pensavam – falavam como quem não tem o que esconder de si, nem temer. A vida ali, parecia se oferecer esbugalhada em simplicidades, sem os laços do interesse, na confiança própria de ser e se mostrar pelo que era, transparecida; como se a dizer que não precisava de ir além, levada por ganâncias de outros quereres: bastava-lhe o modo como o trabalho, celebrado como Mandamento, conformava o viver no curso do que a natureza oferecia para ser humanizado...
Amanheceram refeitos, de jeito que, quando o sol quis se mostrar atrás das árvores retorcidas do cerrado, eles já estavam no caminho: parte ia sobre os animais a passo e, acomodados num carro-de-bois, iam as crianças e, de vez em quando, Adelina e Mayuan, quando cansadas da cavalgadura. Adauto estimava que, antes de o sol se pôr, chegariam aos sítios de Anastácio: ali deixariam Mayuan e seguiriam a viagem; dali à sua casa, era distância de pouco mais de duas léguas por um caminho conhecido e sem perigos, de modo que, com um pouquinho de mais esforço, chegariam em casa na boquinha da noite – na casa da gente, é que é lugar de descanso bom, repousado, pro corpo e pro juízo, pensavam, antegozando aquele conforto; assim foi que, ao pararem no terreiro, Anastácio saiu-lhes ao encontro: Eita, que ainda tá com força pra viajar longe, hem, Adauto? O vizinho e compadre, descendo do cavalo, abriu um riso largo e o abraçou, dizendo: Óia, cumpadi: depois dos cinquenta, as força começa a raliar; mas, ainda dá pro gasto! Mas, óia, a demora é pouca: vamos drumir em casa...
Apearam dos animais, cumprimentaram-se, beberam a água fresca oferecida e, antes de retomarem o caminho, despediram-se de Mayuan, com Adauto dizendo-lhe: Pois bem, aqui nos despedimos; mas, vamo gostar muito, se a sinhóra for passar uns dias lá com a gente; Adelina recomendou-a aos aparentados com um riso bom, de satisfação, dizendo-lhes: Óia, comadi, essa moça é de muito bom coração, viu? E você, minha filha, tá em bom lugar e boas mãos; e vamo lhe esperar lá em casa... Despediram-se, e seguiram apressados pra casa. Mayuan comoveu-se com toda aquela benquerença, e despediu-se de dona Adelina deverasmente enternecida, aprendendo que toda aquela estima não era dispensada apenas a ela: era o modo de ser deles, que tratava a todos dispostos ao acolhimento, se lhes parecesse “de bom coração”. Entendia a vontade de Adauto e Adelina pra chegarem logo em casa, pra descansarem no conforto e aconchego da própria cama: achou-se vazia desse aconchego, da maciez e cheiros de uma cama sua, moldada ao seu corpo, a lhe acomodar em alívios há muito não sentidos. Na irmanação daquela gente, via confirmando-se que o ser nunca é o indivíduo sozinho: fosse, era só cada um se recolher nos seus consigos pra se achar, meditando; mas, no próprio caminhar seu, aprendeu que, de tudo que vira, sentira e tocara, é que seu ser se fazia: remoidamente dentro de si, remexidos no sacolejar das vivências com os outros, virando seu jeito de ser e querer ser...
Deu-se esclarecente que, se o existir se iniciava pelo gesto de dois, amorosamente ou não, o ser era tarefa demorada de cada um, mas, carecida da presença, amorosa ou não, de todos os demais; daí acreditar, ser a Alma a apuração final desse fazer-se difícil – de jeito que, finado, o vivente seguia afigurado na lembrança de conhecidos pelo que se fizera: “era boa pessoa”, “ah, tinha lá seus pecados, mas era prestativo”, “pois é, falam mal dela, mas criou bem os meninos, e sozinha...”. Aí, deu-se a enxergar nos viventes daqueles ermos, laivos do olhar divino, como se a dureza dos seus modos, talhados por muitas ignorâncias, fosse para guardar as singelezas e inocências da alma sertaneja; e, assim, pra que não desandassem em ganâncias de querer ser mais que aquele mundo – que os acolhia comedidamente, elevando-os às vistas de quem os visse como tempo e lugar, espelho: pra reconhecerem-se na pequenez que eram, face à imensidão do que se via e tinha como Céu...
O dia lhe amanheceu ainda na madrugadinha: ficou a ouvir da cama, os pássaros mais madrugadores, que foram acordando os demais e os bichos e as pessoas. Ouviu a casa acordando: passos arrastados, conversas monossilábicas, vasilhas sendo usadas, cheiro de fogo e fumaça – precisava levantar-se; mas, tomou-lhe os pensamentos, o fato de que precisava dizer aos da casa porque estava ali: que dizer-lhes? Levantou-se, saiu do quarto e Idalina veio lhe dar seu Bom Dia, mostrando-lhe onde se assear. Foi à cozinha: ao redor da mesa grande estavam Anastácio e os dois filhos, o mais velho, Romão, já homem feito, o mais novo era um rapazote; em pé, terminando de dispor as coisas e a comida na mesa, Idalina abria-se num riso de boas-vindas: Sente-se, minha fia. Aqui é tudo muito simples, mas de muito bom coração. À mesa, percebia certo desconforto do Romão e o acanhamento do irmão mais novo, Francisco, com sua presença...
O velho Anastácio, como era o seu jeito, comia e falava do lugar, das distâncias, puxando conversa, buscando uma brechinha pra perguntar-lhe as dúvidas e desconfianças que lhe atiçavam o juízo, sobre aquela moça; Idalina só completava ou confirmava uma ou outra informação. Mayuan ouvia atenta, perguntava uma ou outra coisa pra demonstrar interesse na conversa; e, de fato, gostava das histórias, admirava o modo de ser deles, as tantas dificuldades enfrentadas, a fé sempre encimando tudo. Comia devagar e parcimoniosamente, mas fazendo verem que gostava da comida; assim foi que indagou sobre o início deles ali: Anastácio e Idalina responderam-lhe lembrançosos, cheios de saudades e minudências: Aqui cheguei com os finados pai e mãe, era meninote, assim da idade de Francisco; aqui num tinha nada disso, era mato e os bichos: tudo no modo que Deus feis. Aí tem muito trabalho, e tudo feito pra nosso viver mesmo, porque, como se diz: aqui é fim-de-linha. Meu saudoso pai dizia: daqui pra diante, nenhum palmo, daqui pra trás, nenhum passo: tamo aqui, é nosso lugar, nosso mundo...
O dia transcorreu na forma e no jeito de ser dali: cada um com seu trabalho de todo dia; de novidade somente aquela presença estranha: nunca se ouvira dizer de uma moça andar sozinha naqueles sertões. Andar assim, daquele jeito, só nos rebuliços e enganos de garimpo, de que se sabia haver as mulher-dama; mas, ali, não: era lugar de trabalho diário, sem resultado de veneta, sem a pressa dos desesperados pra enricar. Anastácio e Idalina, no quente da cama se indagaram sobre ela: Véio, essa moça é de bom coração, mas tem mistério nela...; dizia Idalina, em sussurro, deverasmente duvidosa, fazendo Anastácio matutar, pensando num jeito de esclarecer aquilo...
À Hora da Ave-Maria, Idalina servia a janta num ritual da sua mais sublime tarefa de mãe e esposa: não preparava nem servia comida, mas, alimento: concebido e preparado para ser comido com o sentimento religioso de dádiva recebida; aí, à mesa, guardava-se silêncio respeitoso, falando levezas e alegrias das coisas feitas no dia, dos vigores das plantas cuidadas, da beleza dos frutos, da formosura de um ou outro animal nascido, do tempo bom: era dessa aura, que se alimentavam antes – e, com o gosto e a satisfação de serem o que criam ser, tomavam o alimento como bendição. Desfeita a mesa e lavadas e guardadas as vasilhas todas, Idalina e Mayuan se juntaram a Anastácio e aos filhos na varanda, a admirarem a noitinha de lua crescente e estrelas brilhantes num céu limpo, sem nuvens o vê-las; aí, Anastácio observou: O céu tá muito bonito de se vê! Romão tem jeito de acender a fogueirinha ali, meu fii? Era o jeito dele de ordenar, carinhosamente...
A fogueira estalava labaredas vivas, aquecendo os sentimentos, com o céu rebrilhando aquele sem-número de estrelas, que pareciam mais perto da terra, para maior admiração de quem via, a imaginar mais lindezas: sim, o Céu tem encantamentos só seus, celestiais, porque é maior demais que qualquer pensar. Como se a falar pra si, Anastácio seguiu comentando: Às veis, fico pensando pra que banda do céu a gente vai, depois de morrer... Mayuan pensou em lhe responder, falando das dimensões siderais do universo, do caráter da fé, de como Deus podia ser só a projeção do melhor de nós mesmos, feita por nós, humanamente atormentados com tanto não-saber; ou, mais profundamente dizer-lhe, o que um indígena dissera a Orlando Vilas Boas: “Tem o Céu: no céu do céu, Ele está lá!, e quando Orlando lhe perguntou se “Ele” era um índio velho, que tudo sabia, o indígena lhe disse: “Lá não tem ninguém, só tem uma Sabedoria!”. Mas, nada disse, guardou silêncio: verdades intangíveis, às vezes, atormentam mais que a dúvida. Pensou em perguntar a Anastácio e Idalina, como imaginavam o Paraíso, diante do viver deles, ali, mas calou-se, em seus pensares...
Lembrando-se do cemitério que vira, quando andou pelos arredores da casa à tardezinha, indagou: Aquele cemitério naquele morrinho, é só de pessoas da família de vocês? Recostado na preguiçosa, com os olhos semicerrados, Anastácio respondeu-lhe lembrançoso: É, ali tá os nossos, que já se foram; foi começado com o enterro do velho, meu pai... Idalina o atalhou, corrigindo: Mas, num é tudo da família nossa, não: enterrado o pai do Anastácio, ficou que era pra ser ali, o cemitério dessa região nossa. Só a sepultura mais nova, que tem lá, que num é de gente daqui...
O que parece ser certo, é que de tanto ver e não saber, a gente vai-se fazendo de um perguntar sem fim, e assim segue sem saber muito do que precisa saber pra ser mais que o que está sendo; é de jeito que, conformando a mente nessa agonia do não-saber, e pra não endoidar, aprende-se que é só Deus quem sabe: aí é que o juízo se acalma, em alívios etéreos. Mayuan ouvia e aprendia com aqueles dizeres difusos, atinando nas significâncias; eram um alumbramento pro total do pensar, a ensinar jeito novo de ver e rever pra enxergar o visto, entendendo a coisa pequena na grandeza do geral: aí engrandecia-se, com juízo ardente. Deu-se, então, o entendimento que lhe alegrou o viver: aprendeu que a verdade não está na coisa-real vista ali, no sozinho dela ser – mas, no jeito de ver: olhar demoradamente, bisbilhoteiro, as muitas coisinhas formando a coisa-real-maior, maiormente: aí se enxerga a necessidade de cada umazinha, para a formação do real-total...
Mas, pra quê servia aquele saber seu sobre aqueles ermos, se os que lhe olhavam e viam e conversavam admirando seu falar, nada ou quase nada careciam do que ela sabia e, sequer imaginavam que as profundezas dos seus dizeres não eram seus, mas, deles mesmos: reverberados nela-espelho? Sentiu-se ali, enfadada do seu caminhar, como se a desandar: enlouquecera? Sem vestígios dele ali, nos sítios daquela família, tinha que se ir; mas, em si, não via caminho aberto pra seguir destino novo: caminho se fecha, é dentro da gente; porque há sempre aonde ir, quem tem o que buscar. Não havia um lugar seu, a lhe esperar; era como se houvesse se perdido do que a fizera caminhar – de jeito a não ver além, elevado no horizonte, o que lhe fora imprescindível: Antonino Maria. Desamara? Dera pra imaginar que, talvez, ele não a reconhecesse e nem a desejasse mais, como antes; porque amor nenhum se dá no vazio: carece do ser, para se ancorar e se fazer o sentimento que é. Assim é que, maltratado por distâncias, a saudade faz vicejar musgos de enganos e desvarios nas lonjuras separadoras, e o tempo indene e intransigente corrói o que era, de jeito a só restar na gente, do verniz reluzente, as marcas do real vivido. O tempo faz tudo vencer, é certo; o errado, é a curteza da vida nossa!
Certo mesmo, é o que faz viver: ninguém perdido e com fome, condenará o que, perdido e com fome, comeu a carne do companheiro de viagem morto. Amor é necessidade carnal, coercitiva, que assim educa o espírito para se fazer desejo; que, depois, boceja o cansaço e dorme descanso no amparo que recebe e dá. Não era mais a que saiu a procurar: o ser que o caminhar e o caminho formaram, deu a carecer, cada vez mais, de um território seu, pra conformar o descanso do que já era, e mais queria ser: era assim que sentia saudades de Antonino Maria. Encontra-lo desanuviaria muitos pensares, talvez. A voz do velho Anastácio, resgatou-a ao mundo real: Aquela sepultura mais nova, é dum que chegou aqui quage morto, morreu dormindo, e nós enterramos o coitado ali: um tal de Antoin... Idalina o interrompeu, dizendo: E inté hoje as coisa dele tão aí. Já falei pro Anastácio dá fim nisso, mas ele é teimoso! A noite bocejou sono bom...
Na manhã seguinte, lembrando-se da história do tal homem que morreu dormindo, Mayuan instigou Idalina pra verem as coisas dele, que tinham guardadas: Óia minina, eu nem sei se essas coisa ainda tão lá, mesmo: porque, óia, faz tempo que foi largadas lá, na dispensa véia. Foram ao pequeno cômodo, onde estavam amontoadas coisas sem uso cotidiano, guardadas por pouca claridade: ali, o saco de viagem perdera as características de outrora; as marcas do tempo e do abandono se impuseram às cores originais, tornando-o amarronzado, tal que, ao tentarem levantá-lo, o fundo rompeu-se, espalhando roupas, livros, uma faca embainhada e um rolo de papéis guardados num pequeno saco plástico. Elas seguraram a respiração, tentando não aspirar o mofo e o cheiro forte que se espraiou; com cuidado abriram o saco, e foram retirando as coisas de dentro: a cada coisa retirada, Mayuan examinava, parecendo-lhe conhecidas. Ao abrirem o saquinho plástico com o rolo de papeis, suas mãos tremeram e, perdendo as forças, seu corpo pendeu pro lado, quase desfalecida; Idalina a amparou, fazendo-a apoiar-se na parede, enquanto foi buscar um copo d’água...
Tá bom, Idalina, vou tocar fogo nessas coisas. Se num apareceu ninguém até hoje, perguntando por ele, num aparece mais... Respondeu Anastácio à esposa, depois dela lhe contar que haviam aberto o saco de viagem do homem morto, e que tudo estava estragado, puído, mofado; Mayuan pediu-lhe, com ares religiosos: Será que não é melhor enterrar tudo junto da sepultura dele?, os dois concordaram. Das coisas todas que havia, sem que Idalina tivesse percebido, Mayuan guardou consigo o registro de nascimento dele, Antonino Maria de Jesus Mourão, uma fotografia gasta, com parte do peito e da face destruída pela umidade, e um relicário prateado com a fotografia sua, quase irreconhecível, borrada pelo tempo: era de quando fizera quinze anos, e lhe presenteara. À tardezinha foram enterrar aquele pobre espólio, não reclamado por ninguém; pra Mayuan, guardando um silêncio que lhe corroía a alma, era o sepultamento de tudo o que dele restara, e achara, no seu buscar de tanto tempo. Ante aos olhos de Anastácio e sua família, que não viam seu dorido silêncio, enterrou-o viva e definitivamente, sem exéquias, em si: ele que a fizera caminhar por tantos e diferentes caminhos, agora estava no mais íntimo de si, etérea e definitivamente...
A madrugadinha era de grilos e de um ou outro curiango, a passarada ainda não acordara, o gado remoía paciências no malhador; com a maciez de um silêncio de nem se ouvir, o sereno caía na relva rasteira: ao pé da cadeira, na varanda, a mochila descansava esperando a caminhante atá-la às costas, para se dar ao caminho. Anastácio assustou-se ao vê-la ali: acordou a casa para despedirem-se. Idalina chorou: pegara amor por ela; Mayuan a abraçou demoradamente, o coração falou à Idalina e pra todos os demais, do seu sentimento – quase nenhuma palavra disse. Disseram-lhe preocupações, por ir-se sozinha; não sabiam que, na solidão, o medo não faz morada. Do meio do terreiro, voltou-se: eles a olhavam da varandinha; curvou-se-lhes quase ao chão, em reza. Pareceu haver choro no seu rosto: deu-se ao caminho, que se abriu em adeus...
(*) ELISMAR BEZERRA ARRUDA é professor.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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