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Artigos Terça-feira, 25 de Agosto de 2026, 08:57 - A | A

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Terça-feira, 25 de Agosto de 2026, 08h:57 - A | A

GONÇALO NETO

Um mundo que desaprendeu a perguntar

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO

Reprodução

Gonçalo Neto saíto

Existem indagações às quais a ciência responde com alta exatidão. É possível identificar a composição de uma estrela, estimar a idade aproximada do universo, alterar genes e desenvolver máquinas que propõem linguagem. Entretanto, existe uma indagação que precede todas essas realizações: qual a razão de haver algo em vez de nada? É neste domínio, onde as respostas adquirem complexidade e as indagações se mostram inalcançáveis, que a metafísica se inicia.

Desde a época de Aristóteles, a metafísica busca compreender o que transcende as particularidades das coisas. Ela não se limita a indagar sobre o funcionamento de algo, e avança questionando o significado da existência. Ela examina a essência, a causa, a substância, a temporalidade, a identidade, a liberdade e aquilo que pode ser denominado realidade. Não obstante sua idade, talvez nunca tenha sido tão relevante.

Habita-se em um mundo regido pela funcionalidade. É pertinente questionar a finalidade de uma profissão, o valor de uma descoberta e os resultados que uma atividade pode produzir. Com o passar do tempo, essa lógica se mantém em relação à própria existência. O saber deve ser funcional, o tempo deve ser eficaz, uma vez que as relações precisam proporcionar algum benefício. Até mesmo o ato de descansar deve ter uma justificativa.

A metafísica pôs fim a essa contabilização. Ela apresenta questões que não produzem bens nem frutos imediatos: quem somos nós? Qual é o significado da liberdade? A existência do tempo ocorre de forma autônoma em relação à nossa presença? Persistimos como a mesma individualidade, mesmo após todas as transformações que se fizeram? Há algo além do que podemos compreender?

Embora essas indagações possam parecer distantes, elas implicam consequências tangíveis. Antes de discutir a proteção da vida, é fundamental compreender o que se considera vida e o que se define como pessoa. Antes de estabelecer os parâmetros da inteligência artificial, é imprescindível ponderar sobre o que configura a consciência e se o ato de pensar se resume tão somente à análise de informações. Antes de salvaguardar a dignidade humana, é essencial compreender os fundamentos que conferem ao ser humano um valor que não pode ser reduzido a uma quantia monetária.

A crise ambiental apresenta igualmente uma dimensão metafísica. Ao considerar a natureza apenas como um recurso explorável, as repercussões éticas tornam-se inevitáveis. Se, entretanto, entender a natureza como um componente de um conjunto vivo do qual todos dependem, a interação entre os seres humanos e o mundo se tornará distinta. Subjacentes às deliberações políticas, encontram-se sempre concepções, frequentemente implícitas, acerca da nossa identidade e do nosso posicionamento no cosmos.

A tecnologia intensificou a urgência desse debate. Constroem-se identidades digitais, preservam-se recordações fora do corpo e permite-se que algoritmos tomem decisões. Uma inteligência artificial pode replicar a linguagem, os padrões de confiança e os produtos. Entretanto, você compreenderá o significado da morte? Terá discernimento acerca de sua própria existência? Você prefere padecer ou aguardar? A questão de longa data acerca do que ressurgirá diante das máquinas.

Martin Heidegger ressalta que o avanço tecnológico pode levar à percepção de tudo como meros recursos à disposição. O risco pode não residir apenas nas máquinas que são desenvolvidas, mas também na forma como todos passam a enxergar: indivíduos convertidos em dados, eficiência, rendimento e consumo.

É possível que uma civilização comece a enfraquecer ao relaxar na formulação de questões relevantes. O ser humano consegue criar máquinas extraordinárias, aumentar a longevidade e explorar o espaço. Ainda assim, permanecerá diante dele a mais antiga das indagações: o que implica existir? Enquanto essa indagação permanecer em discussão, a metafísica não será relegada ao passado. Ela será parte do futuro.

É por aí...

(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto) é do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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