Mato Grosso figura, reiteradamente, entre os estados com índices alarmantes de violência contra a mulher e feminicídio. Os números divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública escancaram uma realidade que não pode mais ser tratada como estatística fria: trata-se de vidas interrompidas, famílias devastadas e mulheres que vivem sob ameaça constante.
Mas há uma face ainda mais silenciosa — e igualmente cruel — dessa violência: a perseguição política contra mulheres que ousaram ocupar espaços de poder.
Quando uma mulher conquista um cargo público pelo voto popular, o que deveria ser motivo de celebração democrática transforma-se, muitas vezes, em palco de ataques pessoais, difamações e calúnias. Em Mato Grosso, esse movimento tem se tornado recorrente. Questiona-se sua capacidade antes mesmo de avaliar seu trabalho. Julga-se sua postura antes de analisar suas propostas. Ataca-se sua vida pessoal quando faltam argumentos contra sua atuação pública.
Até onde impera o machismo?
Que tipo de formação social ainda alimenta homens que se julgam superiores, que acreditam ter autoridade natural sobre o corpo, a voz e a trajetória das mulheres? O mundo mudou de fato ou apenas aprendemos a maquiar velhas estruturas com discursos modernos?
Vivemos um tempo de aparente avanço. As mulheres estudam mais, ocupam cargos estratégicos, lideram instituições. No entanto, quanto mais visibilidade conquistam, mais resistência enfrentam. A violência que antes era restrita ao ambiente doméstico agora transborda para os plenários, para as redes sociais, para os bastidores do poder.
É preciso nomear o que está acontecendo: não se trata de divergência política — isso é parte legítima da democracia. Trata-se de violência política de gênero.
É o uso sistemático da desqualificação moral como arma. É a tentativa de silenciar pela humilhação. É a estratégia de enfraquecer pela exposição. É o velho método de manter mulheres “no seu lugar”.
Mas elas não voltarão.
Cada mulher que resiste hoje, que enfrenta o tribunal das redes, os ataques velados e as insinuações maldosas, está abrindo caminho para outras. Está ampliando a fronteira do possível. Está mostrando às meninas que é possível ocupar espaços historicamente negados — mesmo que o preço ainda seja alto.
A indignação é legítima. O silêncio, não.
Não se combate o machismo com complacência. Combate-se com firmeza, com denúncia, com união e, sobretudo, com presença. A presença feminina na política não é concessão — é direito. É conquista. É democracia em sua essência.
Se há quem tente desacreditar, há também quem construa. Se há quem ataque, há quem resista. E a resistência, quando coletiva, transforma estruturas.
Dias melhores virão — não por ingenuidade, mas por construção. Porque essas mulheres que hoje enfrentam a violência política estão pavimentando um caminho mais justo. Estão plantando respeito onde antes havia silêncio. Estão desafiando estruturas que por séculos pareceram inabaláveis.
O machismo não é maior que a história. E a história já começou a mudar.
Que o respeito impere. Que a empatia prevaleça. E que a democracia, de fato, seja para todos — e todas.
(*) MARCELA MAGALHÃES é Jornalista.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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