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Artigos Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016, 10:02 - A | A

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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016, 10h:02 - A | A

Ligações perigosas

Nunca li poesia sobre umbigos nem lhes conheço doenças, no entanto, preciso reconhecer existir algo que me desperta particular atenção

RUI PERDIGAO

arquivo pessoal

Rui Perdigão

 

Por pedido de várias famílias interrompo um momento de reflexão que ponderei necessário para processar o manancial de acontecimentos e disparates sócio-políticos, nacionais e internacionais. Nesse sentido penso ser somente oportuno manifestar publicamente não possuir qualquer simpatia pelo meu umbigo. Ele não me serve de nada. Unicamente me preocupo com ele quando estou no banho e só o usei em momentos íntimos de erotismo brincalhão.

 

Também nunca li poesia sobre umbigos nem lhes conheço doenças, no entanto, preciso reconhecer existir algo que me desperta particular atenção. A sua ligação a um importante órgão do nosso corpo, o cérebro. Existem cérebros que estão ligados ao coração, outros ao intestino grosso e outros numa eloquente união ao órgão reprodutor. Há também cérebros confinados ao crânio, outros pousados nas nuvens ou a caminho da lua. Mas os cérebros que estão ligados ao umbigo são os que mais me inquietam. Os egos humanos que possuem essa interdependência cérebro/umbigo, a quem eu chamo de Umbiegos, são extremamente impactantes e merecem devido reparo.

 

Essa característica sócio-biológica, responsável pela perca total da visão periférica e da capacidade de audição diferenciada, atribui aos Umbiegos uma condição de variante da espécie humana. Com uma existência completamente descomprometida com o habitat, os Umbigos alimentam-se exclusivamente de capitalismo cru e duro que lhes proporciona fácil propagação. Extremamente agressivos, a sua aguçada habilidade em identificar presas desfavorecidas faz deles o principal predador e coloca-os no topo da cadeia e nunca dentro. De natureza proprietária, a sua reprodução ocorre principalmente por exibição de dotes ao portador e as suas parceiras, na fase de acasalamento e desfrute, recatam-se, embelezam-se e ficam no lar onde revelam excelente capacidade de sobrevivência só com gemidos e grunhidos.

 

Os Umbiegos nunca dormem, pois estão sempre na ânsia felina da apropriação. Dotados de ardilosas técnicas de espera, emboscada e perseguição conseguem assim assegurar o seu sustento e controlo sobre os demais umbigos. Os Umbiegos mais anafados, difíceis de serem vistos a olho nu, deslocam-se por cima dos muros, para clareiras designadas de offshore, de onde, na opacidade, conseguem abocanhar grandes pedaços. Há sua passagem libertam um odor particularmente cativante para outros transtóxicos humanos, a quem a ciência popular chama de Xeirakus. Seres sorridentes de olho gordo que prazerosamente se rebolam nas fezes dos Umbiegos numa saudosa e servil utopia pós-monárquica. Igual peixinho em tubarão, estes invertebrados rastejam desprovidos de temperatura, suor e lágrimas, felizes com o medíocre referencial que representam para a expressividade dos Umbiegos na terra.

 

Os Umbiegos, quando ficam idosos são habitualmente abandonados pelos seus congêneres. Contudo, observa-se um comportamento bizarro quando o idoso é um acumulador de sucesso, um AlfaForbes. Quando assim é, os Umbiegos começam a salivar numa sede extrema de unção que normalmente antecede um vigoroso ataque há jugular patrimonial. Após isso, realizam um ritual fúnebre difícil de compreender, mas que se pensa ser um misto de agri-ganância com doce mercantilismo religioso. As pesquisas mais recentes e conscientes apontam para a inevitável probabilidade dos Umbiegos se extinguirem em virtude de causa/efeito sobre os demais umbigos, principalmente sobre aqueles que se encontram colados às costas.

 

Muito me satisfaria poder viver na próxima revolução civilizacional, mas a minha mortalidade muito provavelmente só me permitirá vivenciar o meu umbigo como uma cicatriz que pretendo eliminar. Não será difícil. Eu próprio já fiz um estudo photoshop e gostei do resultado. Estou certo que a sua remoção em nada afetará a minha hereditariedade nem autenticidade endossomática. Sei também que fortificará minha liberdade e reduzirá sentimentos de só ser por o ter.   Será que os deuses têm umbigo?

 

*RUI PERDIGÃO é humano, social e mortal. (Administrador, consultor e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso).

 

 

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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