Há coisas que, depois de tantos anos de caminhada, ainda conseguem me indignar. Uma delas é assistir, a cada período eleitoral, à repetição da mesma história: de repente, todo mundo se torna defensor da causa animal, ambientalista, protetor dos animais abandonados e preocupado com o bem-estar da população. Aparecem fotos, vídeos, resgates e promessas. Mas, quando as urnas fecham, muitas vezes essas causas voltam a desaparecer da agenda.
Quem realmente vive essa realidade sabe que a defesa dos animais não acontece somente diante de uma câmara. Ela acontece todos os dias, quando voluntários sacrificam tempo e recursos. Quando todos os dias, quando voluntários sacrificam tempo e recursos, quando alguém denuncia uma situação de maus-tratos ou passa anos lutando para que uma lei seja criada, aperfeiçoada e, principalmente, cumprida.
O mesmo vale para a defesa do meio ambiente. Preservar uma árvore, proteger uma nascente, combater as queimadas, cuidar dos espaços públicos e defender políticas de conservação não pode ser uma bandeira que se levanta apenas quando ela rende votos.
Por isso, faço um alerta especialmente a quem está na linha de frente dessas causas: precisamos estar atentos. Não podemos permitir que aqueles que nunca foram vistos trabalhando conosco apareçam justamente na época das eleições para posar ao lado de quem realmente faz o trabalho. É muito fácil vestir uma camiseta, pegar um animal no colo, participar de um resgate e fazer uma fotografia. Difícil é estar presente quando não há câmera.
E é neste período que algumas situações se agravam e, por isso, faço um pedido aos candidatos: evitem os fogos de artifício (com estampido), isso perturba os idosos, pessoas autistas e os animais de estimação. Peço ainda que olhem para a cidade para além dos palanques e das fotografias.
Outra coisa que me incomoda é a quantidade de material de campanha deixado nas ruas e calçadas. Bandeiras, panfletos e outros materiais não desaparecem magicamente depois que a eleição termina. Muitos vão parar nos bueiros, nas galerias e nos córregos, contribuindo para entupimentos que podem agravar alagamentos e colocar em risco motoristas, pedestres, animais e toda a população.
Há também a poluição visual. As bandeirolas instaladas em canteiros e rotatórias podem parecer, para alguns, apenas parte da paisagem eleitoral. Mas eu vejo de outra maneira. Elas dificultam a visibilidade e interferem na atenção de quem está dirigindo. E, quando estamos falando de trânsito, qualquer obstáculo à visão pode ter consequências sérias.
Eu não sou contra a política. Ao contrário. Acredito que precisamos de pessoas comprometidas com a construção de políticas públicas capazes de transformar a realidade. É justamente por isso que espero mais de quem decide colocar seu nome à disposição da população. Espero compromisso verdadeiro, respeito pelas causas e responsabilidade com a cidade. Quem quer representar a sociedade precisa entender que cuidar também está nos detalhes: não espalhar lixo, preservar o espaço público, respeitar o trânsito e não transformar nossas ruas em depósitos de material eleitoral.
Desejo coerência. Que os animais sejam lembrados quando não houver eleição. Que o meio ambiente seja defendido quando não houver fotografia. Que a cidade seja respeitada mesmo quando ninguém estiver fiscalizando. Porque quem realmente acredita em uma causa não precisa esperar o calendário eleitoral para defendê-la. A causa animal não pode caber em uma fotografia. A defesa do meio ambiente não pode caber em um discurso. E o compromisso com as pessoas não pode durar apenas até o dia da eleição. Defender a vida é uma escolha para todos os dias e, para mim, para a vida inteira.
(*) JANE ZANETTI é empresária, presidente da Fundação Jane Zanetti, advogada, há 20 anos atua na causa animal e ambiental.
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