As cidadezinhas interioranas eram bem pequenas, menores mesmo que muitos dos bairros dos grandes centros urbanos de hoje; mas, em nossa imensa pequenez de meninos sertanejos, achávamos tudo muito grande, tal que pensávamos que a chuva caindo ali, chovia no mundo todo. E tudo era regrado pelo olhar insone da Mãe, a vigiar tudo, o tempo todo, noite e dia – de jeito que só íamos à Rua Nova, na extremidade sul do nosso lugar, para cumprir algum mando: dar um recado, levar ou buscar alguma coisa, com o prazo marcado de ir e vir, “antes de o cuspe secar no chão”. Qualquer criança vista na rua, quem a visse, sabia quem era: pelo pai, pela mãe, pelos avós e pelos tios e tias; não havia sequer um olhar ou gesto infantil que vagasse sem rumo, ao léu, a expressar o desamparo de ser sem casa, sem rede ou cama, sem mesa com alguma comida. Passasse uma, às vistas de alguém, este já perguntava: “De quem é esse minino, mesmo?”; “rhum, é do Mundico Açougueiro, lembra não?”; “Menino, ele cresceu muito, nem conheci...”.
Para os olhares e sentires noveis de criança, o mundo era muito grande, sem fim, de jeito que (com o Rio imenso à frente e, às costas, a Lagoa com suas sucruiús escondidas nas moitas de mureré, e encantamentos arrepiantes), ali era o centro do mundo: todas as lonjuras nasciam ali e, daquele imaginar-criança, descambavam para o sem-fim do mundo, onde as distâncias se perdiam de tão longe. Porque as medidas das distâncias, eram tiradas e sentidas a pé, no caminhar, rompendo estradinhas-veredas e caminhos feitos por animais no rumo da água e dos seus alimentos; assim, da saída à chegada, a caminhada era contada em dias e léguas. Légua! Olhai bem, reparado sem pressa, légua parece um não-sei-que nascido do oco do nada das coisas, a indicar um rumo vazio de significado; sim, pois é só com o esforço e o tempo gasto para percorre-las, é que uma légua ganha substancia para ser o que é: “Saímos no primeiro canto do galo, e chegamos lá, já com a lua alta no céu; porque, tem aquela parte de morro, que dá muita canseira atravessar...”. Sem a vivência do fazer, o palavreado, por si mesmo, só pelo dizer, é desmilinguido...
Era no caminhar das distâncias, rompendo suas curvas e estirões de areia e pedras, enfiando-se garganta a dentro daqueles ermos, é que se sabia o tamanho real das lonjuras, dimensões, que a imaginação-criança não alcançava saber; também, porque não era o tempo pra saber. Então, nem se imaginava o lugar de nascimento do Rio Imenso: “Nasce lá pra riba...”; doía o juízo pensar nisso, porque devia ser uma coisa imensa demais, pra dar conta de mandar tanta água, de fazer corredeiras e encher as funduras todas, os peraus, onde Pirararas e Jaús viviam sem incômodos. É que a falta de certeza sobre coisas que não são questão de vida ou morte, mas que servem para enfeitar o viver, florear uma conversa boa, é quase um encantamento; tal a leveza prazerosa, com que elas se demoram preguiçosamente na cabeça, imaginadas suavemente ao modo de ternura: o ainda-não-saber das crianças, não é ignorância – é inocência...
A Inocência era a forma de o tempo ser no Paraíso, que era espaço sem termo e cercas – quando as coisas todas e os seres, tangíveis e imaginados, se riam num contentamento que flutuava como pranas para serem aspiradas e tragadas ao êxtase. O olhar nunca se dirigia sozinho às coisas e gentes: havia sempre rictos leves, de candura, dizendo, per si, que o riso era o estado natural de ser; tal, que, refletia nas flores, no verdume das plantas, nos cantos dos passarinhos e na cópula dos bichos e das pessoas, no momento de suas vontades: porque ninguém se envergonhava de si, nem de ninguém. Aí, por mor de desobediências e perversidades, o tempo-paraíso ficou reduzido para as pessoas, de modo a vicejar somente no tempo-criança, e feito pra durar pouco; e deu-se de ir se desfazendo, conforme morria a criancice de cada um – morte exigida pelos já vividos, amadurecidos, endurecidos pelo doer-insuportável de não poder ser Criança...
O adulto olha as crianças, no seu estado natural de brincar, com olhar doído de saudade e tristeza – como lembrança do que nunca mais pode ser...
Mãe gritava o nome do menino (do menino, porque a filha não precisava: estava ao lado, ajudando na arrumação da casa, no fazimento da comida, na lavação das roupas e vasilhas), de jeito a experimentar toda a força dos bofes, e ser ouvida em toda a vizinhança e além – porque o grito da Mãe reverberava de ouvido em ouvido, até chegar no do rueiro: “Tua mãe tá te chamando, faz é hora!”. Lá vinha o moleque em desenfreada correria, para responder aos gritos da Mãe bem pertinho de casa, na criancice de fazê-la acreditar que não estava na rua: “Tô aqui, Mãe!”, dizia arfando, suado; Ela se ria, sem deixar o riso aflorar, e ralhava só pra não perder a autoridade; naqueles gestos, havia mais aconchego e cuidado ternurento de mãe, que reprimenda: a alegria do viver, era tecida por um sem número de miudezas diárias, feita com as mãos e os sentimentos todos.
Depois da chuva, nas laterais das ruas de chão formavam corredeiras amareladas, ligeiras, que iam para o Leste e o Norte: era fácil imaginar rios, e navegar com os barquinhos e canoas feitas de sarã e do flandres das latas de óleo: “Menino, tu tá descalço nessa lama? Sai daí, vai pegar frieira, ficar gripado!”. Frieiras e dor de dente eram dois tormentos que menino de apartamento, quase meio século depois, não sabe o que é. Diz-se, que era por causa dos antibióticos, tomados pra sarar qualquer coisa, que os dentes ficavam enfraquecidos, abrindo-se às cáries; de jeito que chegou a ser chique, adulto usar dentadura – que deve ser menos desesperador, que sofrer uma dor de dente na boca da noite: “Molhe um pedacinho de algodão com Passa-já, põe no buraco do dente, que alivia...”. As frieiras entre os dedos do pé, davam outra sensação, contraditória, sentida na mesma agonia: coçava e doía; fosse só a coceira, talvez se pudesse dizer que era prazeroso, mas, quando o coçar ia dar prazer, doía: especialmente quando a mãe tentava tirar o vermezinho que fazia caminhos nos pés, com agulhas fininhas...
Os sentires e sofreres nascidos naquele mundo de viver artesanal, quando não havia máquinas que facilitasse qualquer fazer, substanciaram as singularidades de um modo de ser e viver, que nunca será repetido, pelos que sequer imaginam, o que era ser admirado por datilografar numa máquina manual de escrever, sem erros. Aquele mundo está sepultado pelas tecnologias que entorpecem meninos e adultos, nascidos nestes ambientes de asfalto e apartamentos longe da Terra; que não sabem o que é fazer um pião do galho da goiabeira, fazê-lo ficar no nível par rodar levíssimo na mão; fazer um papagaio do êxito que voava nas alturas imensas de um Céu que ficava bem mais perto da Terra; fazer uma arapuca e saber armá-la; um mini carro-de-boi, com que se podia trazer lenha de murici do varjão. Havia mais ciência, ensinada e aprendida, naquele brincar, que todas as frescuras tecnológicas impostas às Escolas hoje, na forma da porcaria caríssima do tal Sistema Estruturado de Ensino – que embrutece crianças e mestres, pra ninguém aprender a voar...
Inteligente, não é quem sabe qual botão da máquina apertar, pra fazê-la funcionar: é saber fazer a máquina ou, pelo menos, como ela foi feita. O fundamento está na leitura, na escrita, no cálculo matemático e no sentimento bom, que deve orientar tudo isso. É de se desconfiar, então, que, foi vendo menino brincar, que Paulo Freire aprendeu que, primeiro se lê o mundo, pra depois ler a palavra: a palavra, a linguagem, é vida real, materialidade. Perto de casa há umas oito crianças que brincam na rua; têm carrinho de plástico, boneca, bola e bicicleta. Cumprimento-as, quando passo, elas me olham, dou sinal de positivo, e elas riem riso bom e inocente, respondendo. Não sei seus nomes: basta a inocência, com que olham e riem...
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