Por que tantas mulheres dedicam tempo a criticar o feminismo nas redes sociais sem nunca terem lido autoras fundamentais como Rosie Marie Muraro, Heleieth Saffioti, Lélia Gonzalez, Carla Akotirene, Márcia Tiburi, Flávia Birolli, Djamila Ribeiro, bell hooks ou Chimamanda Ngozi Adichie? A crítica rasa, muitas vezes, nasce da desinformação — e é justamente aí que reside um dos maiores desafios do feminismo contemporâneo.
Talvez você não tenha lido — e talvez nem pretenda ler. Tudo bem. Mas permita um relato: eu nasci em um ambiente feminista sem que minha mãe, Elizabeth Macuglia (in memoriam), tivesse qualquer contato com essas teóricas. Ela lia romances aceitos pela sociedade patriarcal e viveu um casamento atravessado por um poder simbólico que sequer sabia nomear os abusos (psicológico, patrimonial etc). Ainda assim, era combativa. E, mais importante, tinha o apoio da família para ser quem ela era. Por isso que ela conseguiu quebrar um ciclo.
Foi ela quem decidiu: “minha filha vai estudar”. Não poupou esforços para garantir minha formação — universidade, cursos de idiomas, acesso ao conhecimento. Na década de 1990, eu já fazia parte de uma geração que tinha contato com tecnologia dentro da sala de aula. Minha primeira leitura de Muraro foi difícil, é verdade. Mas fez sentido porque, antes da teoria, eu já tinha vivido a prática: minha mãe defendia, todos os dias, igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres.
E não — o feminismo não é contra os homens. O feminismo combate uma estrutura: o patriarcado. Uma estrutura que, embora atinja homens e mulheres, pesa de forma muito mais cruel sobre as mulheres.
Com o tempo, também compreendi que essa luta dialoga com outras desigualdades, inclusive econômicas, já que o mesmo sistema que desvaloriza o trabalho feminino também sustenta relações de exploração.
Minha mãe, mesmo sem formação teórica, já intuía isso. Mas essa consciência não é realidade para a maioria das mulheres, que ainda enfrentam desrespeito simplesmente por serem mulheres. Isso tem nome: misoginia. Está nas frases cotidianas — “mulher não dirige bem”, “é histérica”, “não sabe administrar”. Está nas pequenas violências naturalizadas. E, muitas vezes, está nos silêncios.
A Macuglia me ensinou algo essencial: podemos ser iguais — ou melhores — em qualquer espaço. Mas, para isso, partimos de um lugar mais difícil: ser mulher.
Ler bell hooks, acompanhar Carla Akotirene e ouvir vozes diversas não é um luxo intelectual — é uma necessidade social.
Ao longo da minha trajetória como jornalista, enfrentei barreiras que eu sequer imaginava: assédio moral, assédio sexual, deslegitimação profissional. E aqui falo a partir de um lugar de privilégio: mulher cis, branca, com aparência dentro de padrões socialmente aceitos. Isso impõe uma reflexão inevitável: o que enfrentam, então, mulheres negras, periféricas e pobres?
É por isso que ler bell hooks, acompanhar Carla Akotirene e ouvir vozes diversas não é um luxo intelectual — é uma necessidade social. Sem isso, corremos o risco de reproduzir preconceitos históricos, reforçar desigualdades e perpetuar violências, inclusive raciais e de orientação sexual.
A homofobia, por exemplo, ainda é tratada como piada em muitos espaços — e não é. Erika Hilton me representa na Câmara Federal e na comissão da mulher porque só ela sabe a dororidade de ser uma mulher trans, mesmo tendo leis de grande impacto para as mulheres, como, por exemplo distribuir absorventes para meninas em vulnerabilidade socioeconômica. Como elas iriam para escola ou trabalho sem o absorvente?! Hilton nunca menstruou, mas ela conhece bem a palavra sororidade.
Vamos a um balanço: os avanços conquistados pelo feminismo são concretos e históricos. Até o início da República, homens podiam matar suas esposas sob a justificativa de “defesa da honra”. O voto feminino só foi conquistado em 1932. Mulheres casadas precisavam de autorização para trabalhar, viajar ou tomar decisões básicas sobre suas próprias vidas. O divórcio só foi regulamentado em 1977. A primeira Delegacia da Mulher surgiu em 1985. A Lei Maria da Penha é de 2006. O feminicídio só foi reconhecido como crime específico em 2015.
Nada disso foi concessão. Foi luta. Foram feministas que denunciaram casos emblemáticos, que enfrentaram o sistema judicial quando este ainda discutia a “honra” de assassinos, que construíram redes de apoio — muitas vezes quando o Estado era ausente. Hoje, existem políticas públicas, canais de denúncia como o 180, leis que reconhecem a violência psicológica (desde 2021) e mecanismos institucionais de proteção. Mas ainda não é suficiente.
Porque o feminicídio não começa no assassinato. Ele é o ponto final de uma escalada de violências. Não é um ato isolado, nem um impulso momentâneo. É a expressão mais extrema de uma estrutura que ainda naturaliza o controle sobre a vida das mulheres. É o resultado de relações de poder desiguais, de uma cultura que insiste em punir a autonomia feminina. E se hoje podemos falar sobre isso com mais clareza, é porque o Brasil mudou. Mas mudar o discurso não basta — é preciso transformar a realidade.
A pergunta que fica não é mais “para que serve o feminismo?”, mas sim: como podemos prescindir dele?
O aumento dos casos de feminicídio em Mato Grosso, apontado no Relatório de Monitoramento de 2025 da Polícia Judiciária Civil, é um exemplo disso. O crescimento de 13%, passando de 47 para 53 vítimas, não é apenas um número. É um sinal de que ainda falhamos — como sociedade e como Estado — em proteger mulheres. Diante disso, a pergunta que fica não é mais “para que serve o feminismo?”, mas sim: como podemos prescindir dele? O feminismo não é uma ameaça. É uma ferramenta de transformação social. E, diante de um cenário em que mulheres continuam sendo mortas por serem mulheres, ele não é apenas necessário — é urgente.
Se não fossem as feministas a ocuparem as ruas e pressionarem o sistema de justiça, teríamos parado nos dois casos emblemáticos de assassinato de mulheres na segunda metade do século passado: Doca Street e Lindomar Castilho, em um período em que o Judiciário ainda admitia discutir a “honra” de assassinos. Foram essas mesmas mulheres que, diante da omissão do Estado, construíram redes de apoio póstumas — ainda que tardias — para vítimas como Eliana Grammont e Leila Diniz.
Em 2026, é inegável que houve avanços. Existem políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência doméstica, além de uma rede institucional de apoio que inclui iniciativas como o projeto Cariandra (MPE/MT), a Procuradoria da Mulher na ALMT e a atuação das Polícias Civil e Militar etc. Há também canais de denúncia acessíveis, como o 180, que orienta e acolhe mulheres em situação de violência — porque é importante lembrar: nenhum relacionamento começa com um tapa na cara. A violência, muitas vezes, se inicia de forma silenciosa, especialmente psicológica, reconhecida como crime no Brasil a partir de 2021. Em situações de risco imediato, não hesite: ligue 190.
Se você não gosta do feminismo e não quer reconhece-lo, faça como minha mãe: seja a mudança para acolher mulheres e exigir direitos! Nem eu, e nem você, somos melhores que ninguém, mas equidade é o mínimo para uma boa convivência. Seja você a mudança e acolha com sororidade e dororidade o feminino que mora em outro corpo que não seja o seu. Eu me descobri feminista com a leitura e sei que a narrativa patriarcal só prejudica as mulheres. Estou fazendo a minha parte!
(*) DEISY BOROVIEC é jornalista e Mestranda em Comunicação e Poder da UFMT.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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