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Artigos Segunda-feira, 17 de Novembro de 2025, 09:50 - A | A

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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2025, 09h:50 - A | A

JOÃO EDISOM

A ascensão da desinteligência humana

o paradoxo das redes sociais

JOÃO EDISOM

Vivemos na era da informação mas também, paradoxalmente, na era da desinformação e da desinteligência emocional. As redes sociais, que nasceram como promessas de democratização da comunicação e ampliação das vozes silenciadas, tornaram-se, em muitos aspectos, espaços de projeção da ignorância, do preconceito e da intolerância.

Não é a inteligência artificial que mais me preocupa, mas sim a ascensão da desinteligência humana, alimentada por algoritmos que amplificam o ego, a raiva e a necessidade de pertencimento fácil.

Sob a lente da psicologia, as redes sociais funcionam como espelhos emocionais. Elas oferecem, a quem nelas habita, o que se deseja ver: atenção, aplauso, pertença.
Segundo a psicologia social, especialmente a teoria da autoverificação (Swann, 1983), o ser humano busca confirmar sua própria visão de si mesmo. Assim, quem se vê como vítima busca narrativas de injustiça; quem se enxerga superior busca espaços para reafirmar essa superioridade.

Plataformas como Instagram, TikTok e X (antigo Twitter) alimentam um ciclo viciante de autoafirmação e recompensa imediata. Curtidas e comentários positivos ativam o sistema dopaminérgico, gerando prazer semelhante ao de substâncias viciantes.
Nesse ambiente, a autoestima se confunde com visibilidade e o número de seguidores substitui a profundidade de vínculos reais.

Para muitos, as redes deram voz; mas para outros, deram megafone a egos inflados, desinformados e ressentidos.

A sociologia contemporânea descreve esse fenómeno como a formação de “bolhas sociais”, comunidades virtuais que reforçam crenças, ideologias e preconceitos, excluindo o contraditório. Pierre Bourdieu já alertava que o espaço social é um campo de disputas simbólicas; nas redes, essas disputas são mediadas por algoritmos que recompensam o engajamento, não a verdade.

O resultado é o fortalecimento de identidades sectárias: misóginos, racistas, sexistas e extremistas encontram nas redes não apenas eco, mas legitimação. A solidão e o ressentimento transformam-se em pertencimento digital. Esses grupos produzem narrativas fechadas, criam inimigos comuns e constroem microcosmos ideológicos que, juntos, se tornam forças políticas reais.

A tecnologia, que deveria conectar, passou a segmentar. O diálogo deu lugar ao grito, e a empatia cedeu espaço à performance.

A ciência política ajuda-nos a compreender o impacto coletivo desse fenómeno. As redes sociais transformaram-se em arenas de poder simbólico e eleitoral. O que antes dependia de estrutura partidária e debate público hoje depende de engajamento digital.
O populismo digital, conceito trabalhado por autores como Cas Mudde e Yascha Mounk demonstra como políticos carismáticos ou extremistas exploram as bolhas virtuais para manipular emoções e conquistar votos.

O mesmo acontece com líderes religiosos midiáticos e influenciadores que se erguem como autoridades morais sem qualquer base ética ou teológica sólida.

A representatividade passa a ser confundida com popularidade. Em vez de mérito, o critério passa a ser o número de visualizações. Assim, a lógica das redes transforma a democracia num espetáculo, onde o mais seguido substitui o mais preparado.

É comum ouvir que o avanço da inteligência artificial representa uma ameaça à humanidade, mas, na verdade, o perigo mais imediato é o da desinteligência humana, emocional, social e política.

A IA pode aprender, corrigir e evoluir; já a desinteligência humana se reproduz por vaidade e medo. O filósofo Umberto Eco dizia que as redes sociais “deram voz a uma legião de imbecis”. A frase soa dura, mas carrega uma verdade incômoda: a tecnologia ampliou o alcance da ignorância e da má-fé.

Não é a máquina que ameaça a nossa civilização, somos nós, ao usar o digital como trincheira para o ódio e a superficialidade. A desinteligência humana manifesta-se na incapacidade de escutar, de ponderar e de aprender com o outro. É o triunfo do ruído sobre o pensamento.

A revolução digital poderia ter sido uma era de encontro, educação e empatia global.
No entanto, sem consciência crítica, ela tornou-se uma fábrica de certezas frágeis e opiniões inflamadas.

Recuperar a inteligência humana, emocional, ética e coletiva é o grande desafio do nosso tempo. Enquanto o mundo discute a regulamentação da inteligência artificial, deveríamos também refletir sobre como educar para o uso consciente da tecnologia, promovendo diálogo, responsabilidade e discernimento.

O futuro não será ameaçado pela máquina que pensa, mas pelo humano que se recusa a pensar.

As redes sociais transformaram a comunicação humana em espetáculo, a opinião em mercadoria e a verdade em ruído. A inteligência artificial pode até aprender conosco, mas ao que tudo indica ainda somos nós quem precisa aprender a ser inteligentes de novo.

“O que me preocupa com o avanço da tecnologia não é a inteligência artificial, mas a ascensão da desinteligência humana.”

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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