O Valor Bruto da Produção Agropecuária brasileira atingiu R$ 1,4 trilhão em maio de 2026, segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária - MAPA, em 17 de junho de 2026. Desse total, R$ 908,8 bilhões vêm da lavoura e R$ 510,2 bilhões da pecuária. Mato Grosso aparece na liderança nacional, com R$ 213,5 bilhões, o equivalente a 15% do total. O indicador confirma a relevância do estado para a produção de alimentos, fibras, energia e para a economia do país. No entanto, esse número precisa ser interpretado com cautela.
O conceito de VBP se refere ao faturamento bruto dentro dos estabelecimentos rurais, calculado a partir da produção e dos preços recebidos pelos produtores. Ou seja, o indicador mostra o valor econômico gerado pela atividade, mas não revela quanto quem está no campo gastou para produzir. Na prática, o VBP não desconta custos como juros, arrendamento, frete, armazenagem, tributos, investimentos, perdas climáticas ou dívidas acumuladas de safras anteriores. Por isso, VBP elevado não significa, necessariamente, lucro, capitalização ou capacidade de pagamento. Essa leitura é essencial na atual conjuntura de endividamento rural.
Levantamentos do Sicor/Banco Central mostram que, até abril de 2026, a carteira ativa de crédito rural somava R$ 895,18 bilhões no Brasil, dos quais R$ 186,52 bilhões estavam em situação problemática. Em Mato Grosso, alcançava R$ 108,03 bilhões, sendo R$ 21,78 bilhões classificados como saldo problemático, incluindo operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas. Isso significa que aproximadamente um quinto da carteira de crédito rural, tanto no estado quanto no país, já apresentava algum tipo de comprometimento.
No caso mato-grossense, o saldo problemático, em abril, estava composto por R$ 2,20 bilhões em operações em atraso, R$ 5,25 bilhões inadimplentes, R$ 2,58 bilhões prorrogados e R$ 11,76 bilhões renegociados. No Brasil, esses valores chegavam a R$ 15,24 bilhões em atraso, R$ 38,77 bilhões inadimplentes, R$ 28,52 bilhões prorrogados e R$ 103,99 bilhões renegociados. Soma-se a isso a dificuldade enfrentada para alongar dívidas junto às instituições financeiras. Mesmo com laudos técnicos, queda de preços, eventos climáticos e demonstração da capacidade de pagamento, muitos produtores encontram resistência na formalização dos alongamentos. Em alguns casos, a prorrogação é tratada como uma renegociação comercial comum, com exigência de garantias adicionais, como alienação fiduciária, taxas altíssimas e prazos incompatíveis com a realidade econômica da atividade. Além disso, os encargos de produção seguem pressionando o setor produtivo.
Levantamento do Projeto Custo de Produção Agropecuário, desenvolvido pelo Senar-MT por meio do Imea, aponta que o gasto com produção da soja para a safra 2026/27 em Mato Grosso deve crescer 3,21% em relação à safra anterior, com custeio estimado em R$ 4.315,29 por hectare. Entre os componentes que mais pressionam o custeio estão fertilizantes e corretivos, com alta de 5,40%, influenciados por fatores geopolíticos, além dos defensivos agrícolas, que avançaram quase 11% em relação ao ciclo anterior. O levantamento também aponta aumento de 9,13% no ponto de equilíbrio da atividade, o que significa que será necessário alcançar maior produtividade ou melhores preços de comercialização apenas para manter a rentabilidade.
Ao mesmo tempo, o volume anunciado no Plano Safra 2025/2026 não reflete, necessariamente, o crédito que chega ao produtor. No acumulado de julho a abril, as concessões para a agricultura, sem Pronaf e desconsiderando CPR, apresentaram queda de aproximadamente 11%, passando de R$ 258,2 bilhões em jul/24–abr/25 para R$ 229,4 bilhões em jul/25–abr/26. A retração foi puxada principalmente pelo custeio, que caiu 12%, pelo investimento, que recuou 25%, e pela comercialização, com queda de 20%. Em valores absolutos, as três modalidades somaram redução de R$ 40,6 bilhões. O crescimento de 69% na industrialização compensou parcialmente essa queda, mas não foi suficiente para evitar a retração total de R$ 28,8 bilhões nas modalidades tradicionais de financiamento agropecuário.
Em Mato Grosso o funding da soja safra 2025/26 indica um cenário de crédito mais restrito, com maior protagonismo do Sistema Financeiro e das Multinacionais no custeio, em condições mais seletivas. Levantamento do Imea mostra que a maior participação no financiamento da oleaginosa vem do sistema financeiro, com 35,4%, seguido pelas multinacionais, com 30,7%, e pelos recursos próprios dos produtores, com 23,5%. Já os bancos com recursos federais representam apenas 5,1%, percentual inferior ao das revendas, que respondem por 5,3%. Em termos concretos, o crédito rural oficial, especialmente em condições controladas ou equalizadas, não tem acompanhado a real necessidade de financiamento do setor produtivo.
O quadro atual retrata que o problema não está na falta de produção. Mato Grosso segue produtivo, competitivo e essencial para o Brasil. A dificuldade está no desequilíbrio econômico da atividade: produzir custa cada vez mais, o crédito pesa no fluxo de caixa, os riscos climáticos aumentam e os preços recebidos nem sempre acompanham a elevação das despesas.
Medidas como o PL 5.122/2023 precisam avançar porque atacam o endividamento rural de forma estruturante. A proposta não pode ser tratada como simples custo fiscal. Ela reorganiza dívidas, viabiliza crédito e recompõe a capacidade de pagamento. Sem isso, ficam em risco a produção, a segurança alimentar e a sustentabilidade econômica da atividade rural.
O VBP confirma que a agricultura de Mato Grosso é estratégica para o Brasil. Mas esse resultado não pode servir de argumento para minimizar o endividamento de quem produz ou para criar travas artificiais às soluções necessárias. Produzir muito não significa estar financeiramente saudável. O VBP mostra a grandeza da produção, mas não releva o peso dos ônus, dos juros e das dívidas que o produtor carrega para manter a atividade de pé, garantir abastecimento, movimentar a economia e contribuir para geração de emprego e renda.
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