A disputa presidencial de 2026 deixou marcas além das urnas em Mato Grosso. Após o segundo turno, realizado em 25 de outubro, denúncias de xenofobia, ameaças de demissão e propostas de boicote a comerciantes e trabalhadores associados ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a circular nas redes sociais e em grupos de mensagens.
Em Lucas do Rio Verde, listas com nomes de pessoas e estabelecimentos comerciais supostamente ligados a eleitores de Lula foram compartilhadas em grupos de WhatsApp. As mensagens defendiam restrições ao consumo em determinadas empresas e incluíam manifestações contra trabalhadores identificados com a esquerda. Também foram relatadas ameaças de demissões e declarações discriminatórias contra migrantes do Norte e do Nordeste.
O episódio mobilizou o Centro de Tradição Nordestina (CTN) do município, que recebeu relatos de moradores e decidiu formalizar representações a órgãos públicos. A entidade afirmou que migrantes procuraram apoio diante da exposição de comerciantes e da hostilidade relacionada à origem regional e às preferências políticas.
ATAQUE A NORDESTINOS
Em Sinop, uma empresária publicou um vídeo com declarações contra maranhenses e outros nordestinos que votaram em Lula. Na gravação, ela afirmou que essas pessoas deveriam voltar às cidades de origem e associou a presença de migrantes à disputa por empregos em Mato Grosso.
A publicação gerou críticas nas redes sociais e foi apontada por usuários como xenofóbica. A deputada estadual Eliane Xunakalo (PT), por exemplo, reagiu ao conteúdo e afirmou que a xenofobia é crime. Nas informações reunidas para esta retrospectiva, não havia confirmação de medida policial ou judicial específica contra a empresária.
Em outro episódio, o prefeito de Colíder, Rodrigo Benassi (PL), publicou uma imagem sugerindo a separação do Nordeste do restante do Brasil e abriu uma enquete sobre a proposta. O gestor relacionou a publicação ao resultado eleitoral da região e afirmou que pretendia estimular uma discussão sobre distribuição de recursos, pacto federativo e autonomia regional.
As manifestações ocorreram em meio à repercussão da votação expressiva de Lula no Nordeste. A publicação do prefeito também provocou questionamentos sobre o uso de diferenças regionais no debate político.
LISTAS DE BOICOTE E AMEAÇAS DE DEMISSÃO
As denúncias em Lucas do Rio Verde incluíram mensagens que sugeriam boicotar estabelecimentos associados à esquerda, demitir servidores públicos e excluir profissionais identificados com o PT do mercado de trabalho. Algumas mensagens também propunham impedir a entrada de ônibus com passageiros vindos do Nordeste para trabalhar na região.
O conteúdo levou o Centro de Tradição Nordestina a acionar o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Polícia Civil. A entidade pediu a apuração das ameaças, das mensagens discriminatórias e de possíveis violações relacionadas à divulgação de dados pessoais.
O deputado estadual Lúdio Cabral (PT) também passou a receber relatos de perseguição política. Ele disponibilizou o canal “Zap do Lúdio”, pelo número (65) 9651-3130, para reunir prints, áudios, mensagens e outras provas que pudessem ser encaminhadas às autoridades.
Já o deputado estadual Valdir Barranco (PT) anunciou que a assessoria jurídica de seu mandato ficaria disponível para acolher vítimas e ajudar na formalização das denúncias.
DECLARAÇÕES NA ALMT
A discussão também chegou à Assembleia Legislativa e às manifestações de lideranças políticas. Lúdio Cabral cobrou providências do governo estadual, da Secretaria de Segurança Pública, do Ministério Público, do Judiciário e dos parlamentares. O deputado pediu que representantes de diferentes correntes políticas se posicionassem contra ameaças e agressões motivadas pelo voto.
Barranco, por sua vez, afirmou que o mandato encaminharia representações aos órgãos competentes à medida que os casos fossem documentados. O parlamentar criticou a discriminação contra pessoas que vieram de outras regiões para viver e trabalhar em Mato Grosso.
O governador Otaviano Pivetta também condenou atos de violência relacionados ao período eleitoral e defendeu a atuação das instituições para responsabilizar autores de crimes, conforme as provas e a legislação.
Ao mesmo tempo, a repercussão dos episódios expôs posições divergentes sobre boicotes e demissões por motivos ideológicos. O vereador de Cuiabá Rafael Ranalli (PL), por exemplo, defendeu que empresários possam demitir funcionários por divergências políticas, em declarações feitas durante a repercussão das denúncias.
As manifestações, porém, não substituem a apuração individual de cada caso. A existência de listas, ameaças ou declarações públicas precisa ser analisada à luz do conteúdo, do contexto e das provas para determinar se houve infração ou crime.
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