Casos recentes registrados em Mato Grosso têm exposto uma realidade silenciosa e cada vez mais preocupante: idosos que vivem sozinhos e são encontrados mortos dias depois, sem que ninguém perceba sua ausência.
Nos últimos meses, uma série de ocorrências ilustrou de forma dolorosa essa situação. Em Cuiabá, um idoso de 69 anos foi encontrado morto dentro de casa, em avançado estado de decomposição. O corpo só foi localizado depois que vizinhos estranharam o silêncio e o acúmulo de correspondências. A residência estava trancada, sem sinais de arrombamento: ele simplesmente havia morrido sozinho.
Em Comodoro, um homem de 68 anos foi achado morto dentro da própria casa após dias sem contato com vizinhos. Em Tangará da Serra, outro idoso, de 63 anos, foi encontrado no banheiro, e a principal hipótese é de uma queda acidental. Em Colniza, um homem de 63 anos morreu na calçada de uma oficina mecânica após passar mal enquanto caminhava sozinho.
Na zona rural de Tangará da Serra, um trabalhador de 69 anos também foi encontrado sem vida em uma propriedade isolada. E, novamente na capital, outro idoso, de 70 anos, foi encontrado morto em sua cama por um amigo, sem que ninguém soubesse há quanto tempo ele havia partido.
Um caso mais recente, também em Cuiabá, amplia ainda mais o alerta. Um idoso de 72 anos foi encontrado morto dentro de um apartamento em um condomínio sob risco de despejo coletivo. O corpo estava em avançado estado de decomposição e foi localizado dias após a morte, caído ao lado da cama. O episódio ocorreu em meio a um cenário de tensão social, com centenas de famílias sob ameaça de retirada dos imóveis, evidenciando não apenas a solidão, mas também a fragilidade das condições de vida de parte da população idosa.
Desde 2024 até agora o HNT publicou 32 matérias com histórias semelhantes. São mortes sem indícios de crime, mas com um mesmo fim trágico: a solidão extrema de quem envelhece sem rede de apoio, sem convivência e sem acompanhamento.
Segundo a médica geriatra Vitória Bena, os casos mais comuns de mortes solitárias costumam envolver eventos graves que exigiriam socorro rápido, como quedas, AVC, infarto, infecções, desidratação, complicações de doenças crônicas como descompensação de insuficiência cardíaca e até situações relacionadas à desnutrição e fragilidade extrema.
"Muitas vezes, o idoso não morre apenas pelo evento em si, mas pela demora na prestação de socorro ou até ausência desta. Por exemplo, uma queda pode até parecer simples inicialmente, mas um idoso que vive sozinho pode permanecer horas ou até dias no chão sem conseguir pedir ajuda. Um episódio assim pode evoluir com desidratação, infecção, alteração do nível de consciência e outras complicações graves, como trombose e/ou embolia”, explica Vitória.
IDOSOS LIDERAM CRESCIMENTO DE PESSOAS QUE VIVEM SOZINHAS
O cenário acompanha uma transformação demográfica em curso. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, Mato Grosso registrou um crescimento de cerca de 70% na população idosa em apenas 12 anos. Hoje, o estado possui aproximadamente 34 idosos para cada 100 crianças, índice que evidencia o avanço do envelhecimento populacional.
Esse processo se reflete diretamente nos arranjos domiciliares. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) mostram que os idosos são atualmente o principal grupo entre as pessoas que vivem sozinhas no país.
Em 2025, 19,7% das moradias brasileiras eram ocupadas por apenas uma pessoa, frente a 12,2% em 2012. Em Mato Grosso, esse índice também cresceu, passando de 13,4% para 17,7% no mesmo período.
Hoje, pessoas com 60 anos ou mais representam 16,6% da população brasileira, e a tendência é de crescimento, o que amplia também o número de idosos que vivem sem companhia.
Entre os idosos, as mulheres são maioria. A predominância feminina está associada à maior expectativa de vida, além de fatores como viuvez e mudanças nos arranjos familiares, que levam muitas idosas a permanecerem sozinhas na velhice.
A médica geriatra pontua que esse cenário tem mais relação com a estrutura social do que com as doenças em si, mesmo fator que faz com que o impacto do isolamento sobre mortalidade seja mais forte em homens idosos, apesar de representarem um menor grupo. “Em geral, homens costumam ter redes de apoio menores, procuram menos os serviços de saúde, falam menos sobre sofrimento mental e emocional, além de tenderem a pedir ajuda mais tardiamente”, esclarece.
Quando ficam viúvos ou passam a morar sozinhos, alguns apresentam uma perda muito importante dessa estrutura de cuidado
Ela ressalta que muitos homens idosos dependiam previamente de suas esposas para a organização da rotina de casa e do cuidado com a saúde, passando a negligenciar a alimentação, a tomada dos remédios e as outras medidas de autocuidado. “Quando ficam viúvos ou passam a morar sozinhos, alguns apresentam uma perda muito importante dessa estrutura de cuidado”, complementa.
AÇÕES EM CUIABÁ
Diante da recorrência dos casos, a Prefeitura de Cuiabá afirma que acompanha de forma contínua a realidade da população idosa por meio do Cadastro Único e da rede socioassistencial.
Atualmente, o município identifica 3.373 idosos que vivem sozinhos em situação de pobreza e extrema pobreza, além de 5.790 idosos de baixa renda que residem com familiares, números que evidenciam a dimensão do desafio.
Segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social, o monitoramento ocorre de forma integrada entre os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), os Centros Especializados (CREAS), os Centros de Convivência de Idosos e a rede de saúde.
A Secretaria informa ainda que realiza visitas domiciliares sempre que há indícios de risco, seja por denúncias, demanda espontânea ou encaminhamentos de outros serviços, em articulação com a rede de proteção.
A pasta ressalta que morar sozinho não configura, por si só, uma situação de risco, mas pode se tornar um fator de vulnerabilidade quando associado à ausência de rede de apoio ou problemas de saúde. Por isso, reforça que a população pode acionar os serviços públicos ao identificar idosos em situação de abandono.
VG APOSTA EM REDE INTEGRADA DE PROTEÇÃO
No município vizinho, a Prefeitura de Várzea Grande instituiu a Rede Municipal de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa (RENADI/VG), com foco na prevenção de violência, abandono e na garantia de atendimento integrado.
A iniciativa, formalizada por decreto, prevê a articulação entre secretarias municipais, forças de segurança e órgãos de Justiça, como Defensoria Pública, Ministério Público e Judiciário.
Na prática, a rede integra áreas como Assistência Social, Saúde, Educação e Segurança Pública, além da participação do Conselho Municipal do Idoso, da Câmara Municipal, da OAB e das polícias Civil e Militar, além do Corpo de Bombeiros.
BRASIL JÁ ENVELHECEU
O idoso não precisa necessariamente morar acompanhado, mas ele precisa ser visto, lembrado e cuidado
Por fim, a geriatra afirma que o Brasil já envelheceu e ressalta que a sociedade precisa entender que envelhecer sozinho não deveria significar envelhecer desassistido. Para ela, a autonomia é importante e deve ser respeitada já que muitos idosos querem morar sozinhos, e isso não seria um problema por si só, mas passa a se tornar um problema quando esse envelhecimento acontece com isolamento, invisibilidade e ausência de suporte.
“O idoso não precisa necessariamente morar acompanhado, mas ele precisa ser visto, lembrado e cuidado. Muitas vezes, uma ligação diária, um vizinho atento ou uma visita frequente já fazem enorme diferença. Porque, no fim das contas, envelhecer com dignidade também depende de vínculo humano”, finaliza Vitória Bena.
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