O que era para ser uma conversa de reencontro entre uma professora e seus ex-alunos virou uma lista de reclamações sobre o trabalho. Foi da exaustão e problemas compartilhados nesse universo que deram lugar a Cia Pororoca de Teatro, grupo cuiabano que estreou nos palcos nesta sexta-feira e convida o público a entrar em cena.
Como contou Maré, nome artístico da professora e multiartista Mariana Girardello Ferreira, de 25 anos de idade, foi a partir de problemas individuais que nasceu o espetáculo “O Time - Teatro Fórum”.
Ao HNT, ela relembrou que tudo nasceu há cerca de 9 meses, quando seus ex-estudantes de teatro contaram que meses após a conclusão do curso ainda não tinham se envolvido com projetos artísticos.
Ao saber do potencial da turma que manifestou a “sede de fazer teatro”, Maré começou a se reunir durante os finais de semana. O ensaio da peça se estendeu por cerca de três meses porque os atores e atrizes ainda não conseguem sobreviver apenas do teatro e o único período em que o grupo, atualmente composto por 10 pessoas, conseguia se encontrar era durante os finais de semana.
Entre os integrantes que vivem uma jornada dupla para conseguirem subir aos palcos, há um bibliotecário, uma secretária, um protético, uma marketeira e uma jornalista.
Como revelou Maré, “viver de bilheteria não é uma possibilidade em Cuiabá”, já que falta investimento e políticas públicas voltadas ao fortalecimento das artes cênicas em Mato Grosso.
A multiartista relatou a dificuldade até mesmo em conseguir espaços para apresentação de peças diante do cenário cuiabano, que oferece poucas opções. Ela citou a centralização do Cine Teatro, a disputa por vaga no teatro da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a atual condição do Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros, que está em reforma.
“Viver de palco assim ainda é uma missão em especial por conta da falta de políticas públicas, incentivos públicos e falta de espaços. Inclusive, a gente hoje tem praticamente só o Cine Teatro e a UFMT, mas que está lotada desde o início do ano já não tem mais vagas. Aí tem o Teatro da Assembleia que está reformando e a gente sabe que essas reformas demoram anos. Enfim, a falta de espaços, falta de incentivos, tudo isso acaba dificultando o nosso trabalho”, expressou.
Apesar das barreiras enfrentadas pelo grupo e por quem quer viver do palco, Maré afirmou que pretende levar a peça para outros espaços, como escolas, penitenciárias e lar de idosos.
“ENSAIANDO A VIDA REAL”: QUANDO O PÚBLICO TAMBÉM SOBE NO PALCO
Com duração de 1h20, a companhia nasceu com uma linguagem pouco explorada pelos grupos de teatro cuiabanos, o teatro dos oprimidos.
“É essa linguagem de literalmente chamar o público que esteja disposto a intervir na cena se colocar numa situação a fim de poder mudar o rumo daquela situação em cena, ensaiando a vida real. Como a gente fala, a ideia é trazer para o palco aquilo que a gente precisa fazer na vida real”, explicou Maré.
No teatro dos oprimidos, técnica teatral de caráter político criado em meio a ditadura militar na década de 70 pelo dramaturgo carioca Augusto Boal, o espectador deixa o papel passivo e assume também o lugar de ator.
Atriz pela MT Escola de Teatro e pós-graduada em Teatro do Oprimido pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maré explicou que a escolha do método se deve a ideia de atingir um público, que normalmente, não consome o teatro.
Para a multiartista e professora, essa é uma forma de quebrar com a posição elitizada a qual o teatro ocupa.
“Muitas vezes o teatro é propagado num lugar mais elitizado e não alcança o que ele deveria alcançar que é o povo, que são as pessoas no geral e a nossa ideia é justamente quebrar esse ciclo para trazer o teatro como uma linguagem universal e acessível, uma nova maneira de se comunicar não só para quem ama teatro e vai assistir todo tipo de teatro, mas para as pessoas que querem debater a vida”, explicou.
DE MARÉ A POROROCA
O nome do grupo carrega um significado especial de pertencimento e nasceu a partir do vínculo entre Maré e seus ex-alunos. Como relembrou, a relação desenvolvida com seus estudantes ao longo do curso se transformou em carinho e intimidade, a ponto deles próprios passarem a se considerar seus filhos. O nome ilustra uma espécie de “parentesco afetivo”.
“Inclusive foram eles que deram o nome, porque a gente tinha uma ligação tão especial que eles falavam e brincavam que eram meus filhos e aí meu nome artístico é Maré e eles falaram, ‘a gente é filho da Maré, tem que ser tsunami’, eu falei, ‘não, mas não tem tsunami em Mato Grosso aqui tem rio, então é Pororoca’”, relembrou.
SERVIÇO
Espetáculo: O Time – Teatro Fórum, da Cia. Pororoca de Teatro
Datas: 24 de outubro de 2026 (sábado)
Horário: 19h30
Local: Cine Teatro Cuiabá – Sala Anderson Flores
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
Onde comprar: Sympla
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 01h20min
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