Na manhã do último sábado (18), o Largo do Rosário, no centro histórico de Cuiabá, foi palco da cerimônia de reinauguração de uma residência que havia sido parcialmente destruída por um incêndio em 2018. O imóvel de número 65, propriedade da família Carvalho há gerações, foi devolvido à moradora Isabel Cristina de Carvalho, 53 anos, após um restauro financiado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e executado em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
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A obra integra o Programa Conviver, iniciativa do Iphan voltada à gestão colaborativa do patrimônio cultural brasileiro, com foco em comunidades de baixa renda residentes em cidades históricas. Desde 2023, o Iphan repassou mais de R$ 6,2 milhões à UFMT para a recuperação de imóveis do centro histórico cuiabano, tombado em 1993.
Entre as intervenções realizadas na casa da família Carvalho, destacam-se a reconstrução do telhado, a recuperação de paredes de adobe (tijolos de terra crua, água e fibras naturais, alguns com mais de dois séculos) e a reinstalação elétrica e sanitária. De acordo com a professora da UFMT Luciana Mascaro, uma das coordenadoras do canteiro-modelo do Conviver em Cuiabá, o programa não se limita à recuperação física dos imóveis.
“Ao dar condições para que o morador continue vivendo em um imóvel de um conjunto tombado, ajudamos a perpetuar essa morfologia e essa paisagem valoradas no tombamento”, afirmou. A superintendente do Iphan em Mato Grosso, Ana Joaquina da Cruz Oliveira, acrescentou que o programa atua como “agente de afirmação e promoção da identidade de grupos frequentemente excluídos das narrativas oficiais e políticas de patrimônio”.
O Largo do Rosário, formado na década de 1720, possui forte relação com a população negra de Cuiabá, já que a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, tombada individualmente pelo Iphan desde 1975, e a capela anexa dedicada a São Benedito atraíram moradores negros para o entorno, em contraste com o núcleo central ocupado pela elite colonial.
Para o produtor cultural Cristóvão Luiz Gonçalves da Silva, idealizador do projeto Rotas da Ancestralidade, a restauração do imóvel da família Carvalho carrega significado simbólico relevante. “Preservar esse patrimônio é preservar a essência de homens e mulheres, lavadeiras, parteiras, cozinheiras, benzedeiras que também merecem seu crédito na construção de Cuiabá, de Mato Grosso e do Brasil”, disse.
A casa restaurada, que exibe agora trechos de suas paredes de adobe à mostra e fachada na cor vermelha original, foi palco, durante décadas, de ações comunitárias. A tia-avó de Isabel, Jovina Clara de Carvalho, organizava no local a tradicional Festa de São João da Bola de Ouro, com música, comida e bebida distribuídas gratuitamente à população. A família também acolheu e criou filhos de outras famílias em situação de vulnerabilidade.
Emocionada, Isabel Cristina de Carvalho afirmou que o retorno à casa representa a continuidade de um legado. “Essa casa já fez muito por muita gente. Nossa casa sempre foi uma casa simples, mas acolhedora”, disse. A irmã de Isabel, Angélica Carvalho, completou: “Nossos casarões são lindos, só precisam ser valorizados. Nós vamos continuar mostrando nossa casa para os visitantes. É a reconstrução de parte da história de Cuiabá.”
A cerimônia contou ainda com a apresentação de um acervo arqueológico composto por objetos encontrados durante as escavações no Largo do Rosário, entre eles garrafas de vidro do século XIX, fragmentos de cerâmica e louças portuguesas e inglesas. O material ficará sob a guarda do Museu Rondon de Etnologia e Arqueologia da UFMT.
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