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INSPIRAÇÃO

Aposentada cria projeto 'Alfabetizando na Praça' em Barão de Melgaço

Assistente social Suely de Figueiredo dedicou 30 anos ao serviço público e transformou o desejo de fazer trabalho voluntário em aulas gratuitas para crianças e adolescentes de Barão de Melgaço

JO AIKO
da Redação

ALFABETIZANDO NA PRAÇA

A aposentadoria encerrou uma trajetória de 30 anos no serviço público, mas não a vontade de Suely de Figueiredo Viana de continuar ajudando outras pessoas. Formada em Serviço Social e com atuação profissional na área da saúde, ela buscava uma maneira de realizar um trabalho voluntário em Barão de Melgaço, quando se deparou com uma realidade que estava praticamente diante de seus olhos. Em contato com crianças e adolescentes que chegavam à adolescência sem conseguir ler, escrever o próprio nome ou até identificar as horas no relógio ela percebeu a necessidade de ajudar.

Foi desse encontro que nasceu o Alfabetização na Praça, projeto voluntário e sem fins lucrativos criado para apoiar crianças e adolescentes com dificuldades de leitura e escrita. Mas a ideia inicial de Suely era completamente diferente.

Sueli Figueiredo

Sueli Figueiredo

Depois de se aposentar, Suely começou a pensar em como poderia continuar prestando algum serviço à comunidade. Uma das primeiras ideias foi criar em Barão de Melgaço um trabalho de apoio a pessoas com dependência de álcool, inspirado nos Alcoólicos Anônimos (AA).

Ela chegou a buscar informações, conversar com pessoas ligadas ao trabalho e procurar possíveis caminhos para colocar a iniciativa em funcionamento, porém a complexidade desse tipo de atendimento fez Suely reconsiderar sua proposta.

Enquanto buscava outra maneira de ajudar, a resposta começou a aparecer dentro de sua própria rotina. Em contato com alguns adolescentes que frequentavam a casa da aposentada, ela percebeu que eles não sabiam ler, escrever e nem ver as horas. Isso chamou a atenção de Suely, e o interesse em ajudar aquelas crianças começou a despertar. A aposentada conta que certa vez pediu para um dos adolescentes ler um trecho na Bíblia no momento de oração, e ele não conseguiu.

“A gente pegava a Bíblia, pedia para eles lerem alguma coisa e eles não sabiam ler. Eles queriam ir embora e também não sabiam olhar o horário no relógio”, lembra.

Depois chegaram crianças mais novas, parentes dos adolescentes, e Suely encontrou novamente dificuldades que a surpreenderam. “Não sabiam escrever o nome, não sabiam ler. Isso foi me cativando para essa área”, revelou.

Em vez de apenas lamentar a situação, Suely resolveu experimentar e convidou as crianças para voltarem à casa dela em um sábado pela manhã. O convite, dessa vez, tinha um objetivo de ajudá-las a aprender a ler e escrever.

Quatro crianças aceitaram o convite e as primeiras atividades aconteceram ali mesmo, na área da própria residência de Suely. O que começou de maneira improvisada logo revelou outro obstáculo, algumas daquelas crianças tinham dificuldades de chegar até o local. Elas moram na região da Cohab e precisavam percorrer uma distância considerável. Foi então que uma cena mudou os rumos da iniciativa.

Em um dos encontros, Suely percebeu que um dos meninos tinha uma deficiência no pé e ele havia feito o trajeto sem chinelos.“Eu fiquei pensando: ‘Meu Deus do céu, como que esse menino veio nessas pedras assim, com esse pé?’. Aí falei: ‘Não, eu tenho que pensar em alguma coisa’.” Ela percebeu que se era difícil para as crianças chegarem até sua casa, seria ela quem iria até as crianças.

Suely então escolheu uma praça mais próxima da região onde os alunos moravam e decidiu transferir para lá as atividades. Assim nasceu o conceito do Alfabetização na Praça.

A iniciativa começou a tomar forma em 15 de junho, e a primeira aula realizada efetivamente na praça aconteceu em 6 de agosto.

Aos sábados pela manhã, o espaço público passa a ter outra função. Leitura, escrita, histórias, brincadeiras e atividades educativas ocupam a praça e são utilizadas para estimular crianças que apresentam dificuldades no processo de alfabetização.

Não há cobrança. Não há finalidade comercial. A proposta é oferecer apoio e, principalmente, mostrar às crianças que aprender também pode ser uma experiência acolhedora. Embora o projeto tenha surgido depois da aposentadoria, trabalhar com crianças não é novidade na vida da assistente social.

 

ALFABETIZANDO NA PRAÇA

Projeto Alfabetizando na Praça

Antes e durante parte dos 30 anos dedicados ao serviço público, Suely já teve experiências ligadas à educação. Quando os próprios filhos ainda eram pequenos e ela estava no início da carreira na prefeitura, chegou a manter uma pequena escola dentro de casa.

Naquela época, conciliava trabalho, universidade, maternidade e atividades com crianças. Também teve experiências em sala de aula substituindo professores durante determinados períodos.

A carreira profissional acabou seguindo principalmente pelo Serviço Social e pela área da saúde, mas a relação com a educação permaneceu guardada. Décadas depois, foram justamente quatro crianças que fizeram Suely reencontrar essa parte de sua própria história.

O Alfabetização na Praça ainda é uma iniciativa comunitária e depende da participação de pessoas dispostas a contribuir. A intenção é aproximar famílias, educadores, voluntários e a própria comunidade para que outras crianças com dificuldades de aprendizagem também possam receber acompanhamento. O projeto acontece todos os sábados pela manhã na praça da cidade.

No material de apresentação da iniciativa, Suely resume o propósito em uma frase:  

“Alfabetizar é plantar sonhos e colher futuros melhores.”

“Alfabetizar é plantar sonhos e colher futuros melhores.”

Para a assistente social aposentada, a frase também ajuda a contar sua própria história.

Depois de três décadas trabalhando no serviço público, Suely não procurou um novo emprego. Procurou uma nova maneira de ser útil. Encontrou nas crianças e na praça uma maneira de transformar o futuro e apresentar o aprendizado de forma lúdica.

Interessados em conhecer ou colaborar com o projeto podem entrar em contato com Suely pelo telefone (65) 99670-6041.

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