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Brasil Segunda-feira, 09 de Março de 2026, 16:16 - A | A

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Segunda-feira, 09 de Março de 2026, 16h:16 - A | A

'TREINANDO CASO ELA DIGA NÃO'

Vídeos no TikTok simulam agressões a mulheres em meio a escalada de violência e recorde de feminicídios

Vídeos publicados por jovens mostram encenações de reação violenta à negativa em pedidos de namoro ou casamento, com simulações de socos e golpes com faca

G1

Uma trend que circula no TikTok com a frase “treinando caso ela diga não” ganhou força nas redes sociais e tem gerado repercussão nas últimas semanas.

Nos vídeos, os criadores simulam situações de abordagem romântica, geralmente um pedido de namoro ou casamento. Em seguida, aparece a frase “treinando caso ela diga não” ou variações semelhantes.

Depois da legenda, os autores encenam reações agressivas diante da possibilidade de rejeição. Em muitos casos, as simulações incluem socos em objetos, movimentos de luta ou golpes com faca.

Após a publicação da reportagem, o TikTok enviou nota ao g1 informando que o conteúdo viola as Diretrizes da Comunidade e que os vídeos foram removidos da plataforma assim que identificados (leia a íntegra ao fim da reportagem).

Isso ocorre em um contexto de recorde de feminicídios e escalada de violência contra as mulheres. O Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025. Ao todo, 1.470 mulheres foram mortas por esse tipo de crime no país ao longo do ano, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O número supera os 1.464 casos contabilizados em 2024, que até então representavam o maior patamar da série histórica. Na média, os registros indicam que quatro mulheres foram assassinadas por dia no país no ano passado.

O formato simples facilitou a reprodução do conteúdo. Muitos vídeos usam a mesma frase na tela e pequenas variações na encenação, algo comum em trends replicáveis da plataforma.

Embora a tendência tenha voltado a circular com força entre criadores brasileiros no final de 2025, registros de vídeos com esse formato aparecem nas redes desde pelo menos 2023.

Os registros mais antigos com esse formato aparecem em publicações feitas fora do Brasil. Em um dos exemplos localizados pela reportagem, publicado em março de 2025, um vídeo com a legenda em inglês “Me practicing just in case she says no” (“Treinando caso ela diga não”) acumulava mais de 115 mil curtidas na plataforma.

O formato é semelhante ao que depois passou a circular entre criadores brasileiros, com simulações de reação violenta após a possibilidade de rejeição.

Para a pesquisadora Raquel Saraiva, presidente do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), conteúdos desse tipo tendem a se espalhar rapidamente porque geram engajamento nas plataformas.

As plataformas não gostam de remover conteúdo, principalmente esses conteúdos que são virais

“As plataformas não gostam de remover conteúdo, principalmente esses conteúdos que são virais. Para o modelo de negócio delas é bom, traz lucro. Então elas lucram com esse tipo de conteúdo”, afirmou.

Segundo ela, a circulação desses vídeos pode ser mais intensa do que conteúdos educativos que buscam explicar por que esse tipo de comportamento é violento.

“Certamente um vídeo dessa trend vai viralizar muito mais do que um vídeo educativo dizendo por que isso é violência contra a mulher”, disse.

A especialista afirma ainda que as próprias regras das plataformas proíbem conteúdos que incentivem violência, mas que, na prática, isso nem sempre ocorre.

“Se elas não permitem e, ao mesmo tempo, estão mantendo no ar, existe uma falha de fiscalização para promover a remoção”, afirmou.
Esfaqueada por dizer 'não'; quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil

Recentemente, uma jovem de 20 anos foi esfaqueada mais de 15 vezes dentro de casa, no Rio de Janeiro, por um homem que insistia em namorá-la e não aceitou a rejeição. Ela sobreviveu após quase um mês internada.

Em Pernambuco, uma jovem de 22 anos foi esfaqueada e teve o corpo incendiado por um ex-colega de trabalho após recusar um relacionamento com ele. A vítima foi atacada com golpes de faca e o agressor ainda jogou solvente sobre ela antes de atear fogo.

"Ele trabalhava com ela há um tempo, [...] e ele se apaixonou por ela. Só que ele queria algo e ela não queria, até que ela encerrou um ciclo, como havia me dito, até mesmo o relacionamento de amizade, porque ela achava que ele era uma coisa e se surpreendeu com coisas que ela não chegava a dizer sobre ele", contou a irmã da vítima.

Em Minas Gerais, uma mulher de 38 anos morreu após ser atacada com golpes de canivete por um jovem que tentou forçar um beijo durante a negociação de um celular. Segundo a polícia, o ataque aconteceu depois que ela recusou a investida.

“Ele disse que no momento da recusa da mulher, deu um ‘branco’ em sua cabeça e atingiu a vítima com vários golpes de canivete”, relatou o delegado.

Reações à trend

Após a repercussão da trend, alguns dos vídeos deixaram de aparecer nas buscas da plataforma ou foram removidos das páginas onde haviam sido publicados. Não há confirmação se as publicações foram apagadas pelos próprios autores ou retiradas pela rede social.

A maior parte dos vídeos é publicada por pessoas que aparentam ser adolescentes ou jovens adultos.

Nos comentários, os vídeos também geram reações divergentes entre usuários. Parte do público critica o conteúdo e afirma que violência contra mulheres não deve ser tratada como humor. “Violência contra as mulheres não é piada”, escreveu uma usuária em uma das publicações.

“não tem graça nenhuma”

Outros comentários classificam o conteúdo como “preocupante” ou dizem que “não tem graça nenhuma”. Em alguns casos, os próprios autores respondem às críticas. Em uma das interações, um criador respondeu com emojis de risada após ser criticado.

Em outra publicação, o autor afirmou que a intenção do vídeo era apenas fazer um meme e escreveu que quem não gostasse poderia simplesmente ignorar o conteúdo: “coloca que o conteúdo não te interessa e já era”.

De acordo com Luciano Ramos, diretor do Instituto Mapear, essa tendência está ligada ao movimento red pill, e precisa de ações mais direcionadas nas redes. A presença de vídeos com esse tipo de conteúdo alimenta a ideia de que o machismo é uma "norma comportamental".

"Os meninos são educados a partir da referência de homens adultos. É nos outros homens que eles vão buscar referências de como devem se relacionar com mulheres", aponta.

Para ele, esse tipo de conteúdo encontra terreno fértil nas redes sociais. "É muito mais fácil promover conteúdo com esse tipo de prática violenta, de demonstração de poder, porque ele [o criador de conteúdo] vê que a plataforma está entregando muito, é um conteúdo muito curtido".

Isso ajuda a amplificar o sentimento de pertencimento a um grupo a partir da "performance de práticas machistas".

A repercussão levou a deputada federal Duda Salabert (PDT-MG) a acionar o Ministério Público para investigar conteúdos que sugerem agressões contra mulheres após rejeição em abordagens amorosas.

A parlamentar afirmou que vídeos desse tipo podem contribuir para a naturalização da violência contra mulheres nas redes sociais.

“Na véspera do Dia Internacional das Mulheres, o que viraliza são homens incitando ódio... a misoginia, a violência... Por isso, acionei o Ministério Público para investigar esses perfis e outros que estão cometendo esse crime de incitar o ódio contra as mulheres”, afirmou a deputada.

No ofício oficial enviado pela Deputada, a parlamentar denuncia a propagação de uma tendência digital misógina conhecida como “uppercut meme". O texto alerta que esse conteúdo, embora mascarado de humor, promove a banalização da violência de gênero e ganha força em plataformas como o TikTok no Brasil, e solicita uma investigação formal e maior rigor na moderação das redes sociais para proteger os direitos das mulheres. O material inclui ainda uma lista detalhada de perfis e links que disseminaram tais vídeos entre 2024 e 2025.

A repercussão das publicações levou à apresentação de um requerimento para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigue o conteúdo que viralizou. A Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados deverá votar o pedido nesta terça-feira (10).

A solicitação, de autoria do deputado Pedro Campos (PSB-PE), pede que a PGR adote as medidas necessárias para apurar e responsabilizar criminalmente possíveis casos de apologia à violência.

O MP ainda não se manifestou.

Após a publicação da reportagem, o TikTok enviou a nota abaixo:

"Os referidos conteúdos violam nossas Diretrizes da Comunidade e foram removidos da plataforma assim que identificados. Nosso time de moderação segue atento e trabalhando para identificar possíveis conteúdos violativos sobre o tema. Não permitimos discurso de ódio, comportamento de ódio ou promoção de ideologias de ódio. Nossa prioridade é manter a comunidade segura e protegida, e continuamos a investir em medidas contundentes que reforçam e defendem ativamente a segurança de nossa plataforma."

FONTE: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/03/09/treinando-caso-ela-diga-nao-videos-simulam-agressoes-a-mulheres-que-recusam-namoro-e-casamento-viralizam-no-tiktok.ghtml?utm_source=push&utm_medium=web&utm_campaign=pushwebg1

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