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Brasil Domingo, 11 de Outubro de 2026, 11:30 - A | A

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RELIGIÃO EM PAUTA

Santuário de Aparecida vira vitrine política em disputa por votos católicos

Símbolo da fé católica, basílica ganha peso na corrida eleitoral em meio à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro e à controvérsia sobre o título de Padroeira do Brasil

CONTEÚDO G1

REPRODUÇÃO

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O Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, voltou ao centro da disputa política brasileira às vésperas do segundo turno presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Considerado o maior templo católico do país, o local é também um espaço de visibilidade para lideranças políticas que buscam se aproximar de fiéis e associar suas candidaturas a símbolos religiosos.

A movimentação ganha força neste domingo (11), véspera do feriado de Nossa Senhora Aparecida, celebrado na segunda-feira (12). A relação entre religião e eleição ficou ainda mais evidente nas últimas semanas, após a circulação de publicações que atribuíam a Flávio Bolsonaro a intenção de retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O senador negou a acusação, e o g1 informou que ele não é autor de projeto com esse objetivo.

A controvérsia chegou à Justiça Eleitoral. Em 2 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou, por maioria, a retirada de publicações que atribuíam falsamente ao candidato defesa, articulação, apoio ou compromisso com a retirada do título de padroeira.

Religião entra no cálculo eleitoral

A disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida ocorre em um cenário no qual a religião mantém peso significativo no eleitorado brasileiro. Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que 56,7% da população se declarou católica, enquanto 26,9% se identificou como evangélica.

Apesar de continuar sendo o maior grupo religioso do país, o catolicismo perdeu participação em relação a 2010, quando representava 65,1% da população. No mesmo período, a proporção de evangélicos passou de 21,6% para 26,9%.

Uma pesquisa Quaest divulgada em 3 de outubro, antes do primeiro turno, mostrou diferenças entre os dois segmentos. Entre os católicos, Lula aparecia com 44% das intenções de voto, contra 36% de Flávio Bolsonaro. Entre os evangélicos, Flávio tinha 50%, enquanto Lula registrava 28%.

Nesse contexto, a presença em celebrações religiosas e o uso de símbolos da fé podem funcionar como estratégias de aproximação com parcelas específicas do eleitorado.

Candidatos usam símbolos religiosos

Durante a campanha de 2026, o então candidato Renan Santos, do partido Missão, foi o único presidenciável a visitar o santuário em 22 de setembro, segundo o levantamento publicado pelo g1. Até a publicação da reportagem, Lula e Flávio Bolsonaro não haviam confirmado presença nas celebrações de 12 de outubro.

Flávio, que se identifica como evangélico, apareceu segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um evento de campanha em São Paulo, em 28 de setembro, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O episódio ocorreu em meio à repercussão das publicações sobre o título de padroeira.

Lula, por sua vez, se identifica como católico. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), integrante da chapa do petista, tem presença frequente em cerimônias no santuário e era esperado no local na segunda-feira (12).

O ex-presidente Jair Bolsonaro também esteve na basílica em diferentes ocasiões nos últimos anos. Entre as visitas estão uma passagem em novembro de 2018, após uma cerimônia de formatura de sargentos em Guaratinguetá, e participações nas celebrações da padroeira em 2021 e 2022.

Controvérsia expõe polarização

A disputa sobre o título de Nossa Senhora Aparecida também envolveu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A entidade negou participação na criação ou disseminação de informações falsas e afirmou não atuar em estruturas político-partidárias. Segundo a conferência, sua posição diante das eleições é orientada por princípios como dignidade humana, bem comum, democracia e liberdade de consciência.

Flávio Bolsonaro havia acusado o PT de produzir notícias falsas com a ajuda de alguém ligado à CNBB. Em resposta, a entidade afirmou: “A mentira não se combate com outra mentira.”

A discussão teve decisões judiciais sucessivas no fim de setembro. O TSE determinou a retirada de publicações, enquanto decisões no Supremo Tribunal Federal (STF) suspenderam temporariamente e depois restabeleceram os efeitos das determinações até análise do plenário.

Para a antropóloga da religião Brenda Carranza, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora visitante da Faperj-UERJ, o uso de símbolos religiosos na política não é novidade, mas tende a ganhar intensidade em disputas eleitorais acirradas.

“A Nossa Senhora, reativada como polêmica, simplesmente traz um resquício e revela este ambiente polarizado mais profundo. Se fosse um ambiente normal dos anos 90, isto não teria tomado a proporção que tomou”, avaliou.

O cientista político e sociólogo José Maurício Cardoso, da Universidade de Taubaté (Unitau), também considera a religião um elemento relevante na política brasileira. Segundo ele, visitas a templos e referências à fé podem comunicar que um candidato compartilha valores e sentimentos de determinados grupos.

“Quando se mexe com Nossa Senhora, atinge-se a essência, o âmago da fé do brasileiro”, afirmou.

Já o cientista político Cristiano Noronha, ex-professor da Universidade de Brasília (UnB), avalia que símbolos religiosos podem ultrapassar os limites da própria religião e se tornar referências de identidade nacional. Nesse cenário, a combinação entre redes sociais, polarização e proximidade da votação amplia o alcance de controvérsias como a envolvendo a padroeira.

Santuário tem histórico de presença política

A aproximação entre políticos e a Basílica de Aparecida ocorre há décadas. Em 1961, o então presidente Juscelino Kubitschek presenteou o santuário com um relógio para a torre, de cerca de 100 metros de altura, a pedido de um arcebispo.

Em eleições anteriores, candidatos à Presidência também passaram pelo local. Ciro Gomes e Fernando Haddad visitaram o santuário em 2018, enquanto José Serra e Dilma Rousseff estiveram na basílica em 2010.

A CNBB promoveu debates presidenciais no centro de eventos do santuário em 2014 e 2018. Em 2022, uma nova edição chegou a ser planejada, mas acabou cancelada após as ausências de Lula e Jair Bolsonaro. Os encontros tinham transmissão nacional por emissoras católicas, entre elas a TV Aparecida e a TV Canção Nova.

A história ajuda a explicar por que o santuário permanece como um espaço de relevância simbólica e política. Em uma eleição marcada pela polarização, a disputa pela associação com a fé católica transforma a celebração religiosa em mais um ponto de atenção das campanhas.

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