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'Real perigo para resposta ao HIV': queda no financiamento coloca em xeque combate à Aids

CONTEÚDO ESTADÃO
da Redação

O financiamento para programas de prevenção e tratamento de HIV-Aids despencou em 2025 devido à redução acentuada do apoio dos EUA à resposta global na gestão de Donald Trump, colocando em risco décadas de progresso. A conclusão está no novo relatório da UNAIDS, divulgado na abertura da 26ª Conferência Internacional sobre Aids, no Rio de Janeiro. O evento reúne aproximadamente sete mil cientistas, formuladores de políticas, profissionais de saúde, financiadores e pessoas que vivem com HIV.

Em uma coletiva de imprensa realizada antes da sessão de abertura, líderes globais da área da saúde apelaram aos governos doadores para que mantenham um apoio robusto à resposta ao HIV e aos países de baixa e média renda para que continuem a intensificar seus próprios investimentos sempre que possível.

Eles destacaram o avanço científico significativo alcançado por novas drogas para prevenção e tratamento, mas frisaram que a inovação não vale de nada se não houver acesso. "Já temos remédios que oferecem proteção com uma eficiência muito próxima das vacinas; isso já é cientificamente alcançável", afirmou Beatriz Grinsztejn, presidente da Sociedade Internacional de Aids (IAS, na sigla em inglês) e copresidente internacional da AIDS 2026. "Mas avanços científicos sozinhos não são capazes de deter a Aids. Inovação sem acesso é injustiça."

Nunca o financiamento caiu tanto

"Chegamos ao Rio de Janeiro em um momento de real perigo para a resposta ao HIV", afirmou Beatriz.

"Nunca o financiamento dos doadores caiu tanto, tão rapidamente, e os mais vulneráveis já estão pagando o preço. Os países doadores estão optando por se afastar, enquanto muitos países com alta incidência permanecem acorrentados por uma dívida da qual não conseguem escapar. Precisamos repensar modelos ultrapassados, reconstruir o que foi destruído e nos mobilizar para garantir que a resposta receba os recursos de que necessita."

Segundo Beatriz, o corte no financiamento já atinge duramente países mais pobres, cujas respostas dependem das verbas estrangeiras em até 65% do financiamento dos programas.

"Esses países já estão cortando serviços, os programas de prevenção estão encolhendo, pessoas estão perdendo acesso ao tratamento", afirmou. "Vale lembrar que quando a prevenção cai, a infecção aumenta; quando o tratamento é interrompido, pessoas morrem. E isso não é inevitável, é uma escolha política."

O novo relatório do UNAIDS constatou que a redução de 25% no financiamento de governos doadores representa a maior queda em um único ano desde o início da ampliação do financiamento internacional, impulsionada por atrasos nos pagamentos e cancelamentos de projetos relacionados a mudanças na resposta dos EUA à saúde global, no ano passado.

O relatório também constatou que, em 2025, houve 1,2 milhão de novos casos de HIV e 570 mil mortes relacionadas à Aids, à medida que o mundo ficou aquém das metas de combate à epidemia. O número de novos casos de HIV está aumentando em muitos países, incluindo Brasil, Paquistão, Filipinas e Madagascar. Ao mesmo tempo, países como Quênia, Lesoto, Ruanda, Zimbábue e Eswatini continuam a avançar em direção às metas de 2030, apesar de um ambiente de financiamento cada vez mais difícil.

Os dados mostram que a resposta global ao HIV está sob a pressão mais severa do que em qualquer outro momento desde que o aumento do financiamento começou, em 2002.

"A era da dependência da ajuda internacional chegou ao fim", afirmou Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS. "Os países não podem esperar e não podem dar um passo atrás. O mundo precisa, com urgência, consertar o sistema financeiro global falido e acelerar a reestruturação da dívida para que os governos possam investir no que mais importa: a saúde, a educação e o futuro de seus povos."

"Financiem essa resposta como se vidas dependessem disso, porque elas realmente dependem", disse Erika Castellanos, diretora executiva da Global Action for Trans Equality (GATE). "As pessoas que vivem com HIV não são um item de orçamento. Somos nós que mantemos essa resposta em pé, enquanto as decisões são tomadas longe de suas consequências. Que estejamos presentes quando essas decisões forem tomadas, e não (sejamos) apenas informados sobre elas posteriormente."

"Os países africanos devem continuar a fortalecer o investimento interno e tornar o HIV uma prioridade nacional", afirmou Mathume Joseph "Joe" Phaahla, vice-ministro da Saúde da África do Sul. "Ao mesmo tempo, nenhum país pode substituir a magnitude da parceria internacional que tem impulsionado a resposta global ao HIV há décadas. Acabar com a pandemia do HIV exigirá financiamento interno mais robusto, apoio internacional sustentável e responsabilidade compartilhada."

"Sabemos como acabar com o HIV como ameaça à saúde pública", afirmou Jarbas Barbosa, diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). "A ciência, as ferramentas e as evidências já estão em nossas mãos. O desafio agora é garantir que todas as pessoas que precisam de prevenção, testagem, tratamento e cuidados possam ter acesso a eles, em um momento em que o progresso está ameaçado. Precisamos fortalecer o compromisso político, investir em sistemas de saúde resilientes e trabalhar em conjunto com as comunidades e os parceiros", defendeu.

(Com Agência Estado)

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