Sexta-Feira, 15 de Novembro de 2019, 07h:45

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Um desafio chamado República

Por: LUCIANO PINTO

Marcos Lopes

Luciano Pinto

É comum atualmente que vários estudantes morem juntos, principalmente nos temos de faculdade. Esse lugar é popularmente chamado de República. A origem do nome é interessante. A ideia de mudar a Monarquia para República surgiu exatamente nos alojamentos de jovens militares, que residindo no mesmo local, começaram a pensar e arquitetar a alteração do regime de governo.

Esse período de transição foi motivado por inúmeros fatores, tais como, a senilidade do imperador, o descontentamento de muitas classes (igreja, militares, setores da economia, antiabolicionistas), a ausência de herdeiros homens de Dom Pedro II e o medo do trono cair na mão de um estrangeiro, já que sua filha, a Princesa Isabel, era casada com o Conde d’Eu, um francês sem qualquer simpatia da população brasileira.

A proclamação da República foi uma concatenação de fatos envolvendo inúmeras personalidades. O personagem principal, Marechal Deodoro da Fonseca, um monarquista convicto, mesmo doente (com dispneia) concordou em liderar o movimento.

A história é linda da forma como hoje é contada. Deodoro, no seu cavalo, lidera as tropas e atravessa o Campo de Santana, dando o famoso brado “Viva a República”. De forma orquestrada os demais militares, além de outras medidas, tomam o quartel-general do Rio e o Ministério da Guerra. Está proclamada a República.

Entretanto, não podemos nos enganar. O ato em si, trocando em miúdos, nada mais foi do que um golpe militar. Naquele momento o país vivenciou uma ruptura institucional. Para o bem ou para o mal (isso não importa), é inegável a existência da quebra da normalidade política das instituições, principalmente da Monarquia.

Em uma data que relembramos o momento de ruptura política, somado ao contexto político conturbado dos nossos vizinhos latinos, não existe ocasião mais apropriada para refletir o que estamos vivenciando atualmente no nosso país.

Com o devido respeito aos que pensam em sentido contrário, tenho pra mim que não existe qualquer justificativa para uma nova ruptura política. Não é hora de fechar o Congresso, ou mesmo o STF, com militares na rua tomando o poder nas mãos, entre outros tantos absurdos que escutamos.

Nossa democracia precisa sim aparar algumas arestas, isso é fato. É necessária uma reciclagem política, administrativa, jurídica, fiscal, legal, entre outras.

Então, antes de pensarmos em uma ruptura institucional precisamos fazer um dever de casa imenso. Entre tantas outras medidas, é hora de pensarmos que, com raras exceções, não tem cabimento alguns servidores públicos receberem auxílio moradia, transporte, alimentação, entre outros. É momento de pararmos de achar normal um servidor público ter sessenta dias de férias ao ano. É hora de pararmos com as agourentas estratégias de sonegar impostos, e também é hora de simplificarmos o absurdo manancial existente de regras fiscais. É a ocasião para refletirmos sobre a efetiva participação política da sociedade, inclusive com engajamento apartidário. É tempo da administração pública rever sua estratégia de ser o maior demandante do Poder Judiciário. É hora de pararmos de pensar que o STF apenas defende bandido, sequer conhecendo o que eles tecnicamente estão falando. É momento de colocarmos em pauta urgente e prioritária o nível de educação que a população precisa. É a oportunidade de pararmos com a defesa de interesses classistas e compreender que o mistério da fé é exatamente a sintonia entre todos nós, envolvidos e responsáveis pelo país que queremos.

Se não enfrentarmos essas dificuldades, e outras tantas que diariamente nos deparamos, de nada adiantará comprometer a nossa República.

 

(*) LUCIANO PINTO é advogado (luciano@lpadvocacia.com.br).

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