Poucas palavras parecem provocar tantas reações imediatas quanto a palavra política.
Para alguns, ela desperta esperança; para outros, desconfiança. Há quem a associe quase exclusivamente a eleições, partidos, governos e disputas de poder, geralmente associada a paixões intensas, como se significasse necessariamente escolher um lado e combater o outro. Mas será que a Política se resume a isso?
Muito antes das estruturas partidárias modernas, os filósofos já refletiam profundamente sobre a política como uma dimensão fundamental da vida humana. Para os gregos antigos, a palavra estava ligada à polis, a cidade, entendida não apenas como um espaço físico, mas como a comunidade na qual os seres humanos compartilhavam uma vida em comum.
Sob essa perspectiva, a política pode ser compreendida em um sentido muito mais amplo: como a arte de organizar a convivência humana em busca do bem comum. Podemos dizer, filosoficamente, que ela é uma espécie de Ética da Polis.
Se a ética procura responder à pergunta “como devo viver?”, a política amplia essa reflexão: como devemos viver juntos?
Essa mudança parece pequena, mas contém uma questão fundamental.
Viver sozinho permite que uma pessoa considere apenas suas próprias necessidades, preferências e interesses, mas viver em sociedade exige algo mais complexo: reconhecer que existem outras necessidades, outras experiências e outros pontos de vista igualmente presentes no mundo.
A política começa quando percebemos que o mundo não pode ser organizado exclusivamente segundo aquilo que eu quero. É preciso aprender a construir o nós.
Aristóteles afirmava que o ser humano é, por natureza, um ser político. Isso não significa que todos devam ocupar cargos públicos, mas que o ser humano realiza grande parte de suas potencialidades na vida em comunidade.
É na convivência que aprendemos a falar, cooperar, estabelecer responsabilidades, transmitir cultura e procurar respostas para os problemas que compartilhamos.
Questões como a segurança, educação, saúde, cultura, justiça, liberdade, responsabilidade e convivência deixam então de ser questões puramente individuais e passam a fazer parte de uma reflexão sobre o bem comum.
Mas como encontrar esse bem comum quando as pessoas pensam de maneiras tão diferentes? Talvez seja justamente aí que comece a verdadeira arte da Política.
Uma sociedade é formada por pessoas de diferentes idades, profissões, histórias, crenças, necessidades, culturas e maneiras de compreender o mundo. Por isso, fazer política exige mais do que possuir convicções. Exige aprender a considerar o conjunto.
Platão refletiu profundamente sobre a relação entre justiça e harmonia. Em A República, ao pensar sobre a cidade e sobre o próprio ser humano, apresenta a justiça ligada a uma ordem na qual diferentes elementos cumprem adequadamente sua função e se orientam para uma unidade maior.
Independentemente das diferenças de seu tempo e o nosso, permanece uma questão profundamente atual: como organizar elementos diferentes sem destruí-los e sem permitir que o interesse particular de uma parte se imponha como se fosse o bem do todo?
Talvez essa seja uma das perguntas centrais da política em qualquer época. Harmonia não é uniformidade, mas a busca da Unidade na diversidade. É nesse sentido que podemos compreender a Política como uma arte de formar consensos.
Não significa precisemos abandonar convicções, ideias e projetos para pensar de uma única maneira. Tampouco significa evitar discussões importantes e necessárias. O verdadeiro consenso nasce quando pessoas que divergem conseguem identificar algum princípio, finalidade ou bem que reconhecem como superior às suas diferenças.
Podemos discordar sobre os caminhos e, ainda assim, concordar que a Dignidade Humana deve ser preservada. Podemos discordar sobre determinados meios e ainda reconhecer juntos a necessidade da Justiça.
Esse ponto de encontro é profundamente político. Ele exige diálogo, e dialogar também é uma arte. O verdadeiro diálogo só é possível quando aceitamos que podemos aprender com o outro. Isso não significa concordar com suas opiniões, mas respeitá-las e considerá-las, com discernimento, de forma desapaixonada e sem preconceitos.
É por isso que a política exige uma virtude que nem sempre associamos a ela: a serenidade. A capacidade de não permitir que a paixão retire de nós o discernimento necessário para fazermos escolhas com consciência e responsabilidade.
Quando somos dominados pelo medo, torna-se mais fácil aceitar qualquer argumento que confirme nossas ameaças. Quando somos dominados pela raiva, torna-se mais fácil atribuir ao outro as piores intenções. Quando somos dominados paixão, podemos deixar de avaliar criticamente aqueles com quem concordamos.
Uma escolha verdadeiramente livre não nasce apenas da possibilidade de escolher entre alternativas. Nasce também da capacidade de compreender por que escolhemos.
A qualidade da vida política depende da qualidade humana daqueles que participam dela. Por isso, uma sociedade politicamente madura necessita de cidadãos capazes de reflexão. Nesse sentido, Política e Ética voltam a se encontrar.
A boa política exige justiça, prudência, coragem, temperança, generosidade e responsabilidade. Não apenas daqueles que exercem cargos públicos, mas, em diferentes medidas, de todos nós. Precisamos aprender a conviver. Aprender a discordar sem odiar. Aprender a sustentar uma posição sem perder a capacidade de escutar.
Aprender, sobretudo, a colocar o amor pela verdade e pelo bem acima da necessidade de estar sempre certo. Por isso mesmo precisamos da Política.
A divergência não é necessariamente um problema, pode ser uma fonte rica de aprendizado e crescimento para todos e para a construção de uma sociedade mais justa e mais fraterna.
Talvez deixemos de perguntar apenas: “como derrotar quem pensa diferente?” e passemos a perguntar: “que parte do bem podemos construir juntos apesar de nossas diferenças?”
Essa não é uma postura ingênua. Ao contrário, exige muita força e maturidade. É fácil conversar apenas com quem confirma nossas ideias. É muito mais difícil preservar respeito, inteligência e equilíbrio diante de uma divergência.
A Nova Acrópole propõe a filosofia como uma forma prática de desenvolvimento humano e a fraternidade como um ideal capaz de superar aquilo que nos separa. Essa proposta pode contribuir também para nossa maneira de compreender a Política.
Precisamos recuperar uma Política capaz de elevar o olhar para além das disputas imediatas, onde possuir convicções não impeça o diálogo e o respeito ao outro.
Podemos construir uma sociedade na qual sejamos capazes de procurar aquilo que nos une sem temer ou odiar aquilo que nos diferencia. Na qual a Política volte a ser compreendida em seu sentido mais elevado: não como a arte de derrotar adversários, mas como o nobre exercício de construir uma vida comum e entre pessoas diferentes.
(*) VINICIUS NEGRÃO é advogado, professor voluntário e diretor da Escola de Filosofia Nova Acrópole em Cuiabá.
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