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Artigos Segunda-feira, 05 de Outubro de 2026, 14:17 - A | A

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Segunda-feira, 05 de Outubro de 2026, 14h:17 - A | A

JOSÉ RODRIGUES

O cenário nacional: a disputa apertada e a possibilidade de virada

JOSÉ RODRIGUES ROCHA JÚNIOR

Reprodução

JOSÉ RODRIGUES

A totalização nacional do primeiro turno, concluída na madrugada de 5 de outubro, entregou o quadro mais apertado da história recente. Flávio Bolsonaro (PL) fechou com 47,03% dos votos válidos (cerca de 56,1 milhões), contra 45,16% de Lula (PT) (cerca de 53,9 milhões), uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos, a menor já registrada entre dois finalistas na primeira rodada.

O dado é duplamente eloquente: Lula registrou seu pior percentual de primeiro turno desde 1998, e o vencedor da primeira etapa venceu a eleição em todas as disputas desde 1989, o que joga a favor de Flávio. Mas há um contraponto igualmente relevante: o eleitorado disponível para ser conquistado no segundo turno é enorme, e a sua composição é o que abre espaço para a tese da virada.

O cálculo da virada depende de quatro reservatórios que somam muito mais do que os 2,2 milhões de votos que separam os candidatos. Os candidatos eliminados reuniram 9.316.510 votos; os votos em branco somaram 2.300.710 e os nulos, 3.673.899; e, acima de tudo, a abstenção alcançou 33.467.247 eleitores, cerca de 33,3 milhões de pessoas que não foram às urnas. Somados, esses contingentes ultrapassam 48 milhões de eleitores, o universo que Lula e Flávio passaram a disputar. A virada de Lula não exige convencer a maioria desses 48 milhões; exige apenas capturar uma fração suficiente para inverter uma margem de 2,2 milhões, algo matematicamente acessível se a migração e a abstenção se comportarem a seu favor.

O fator mais decisivo e mais incerto é a migração dos 9,3 milhões de votos dos candidatos derrotados. A composição dessa terceira via é heterogênea e, em grande parte, hostil ao petismo. Escritor Augusto Cury (Avante), o mais votado entre os eliminados, e Romeu Zema (Novo) atraíram eleitorado de centro e centro-direita; Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) orbitaram a direita. O histórico brasileiro mostra que, no segundo turno, o eleitorado de direita e centro tende a migrar em peso para o candidato conservador, como ocorreu em 2022, quando o grosso do voto de Ciro, Tebet e D'Ávila convergiu para o polo que melhor representava a rejeição ao adversário. Nesse recorte, a migração favorece Flávio, não Lula.

Há, porém, uma leitura contrária. Parte desse eleitorado de terceira via votou contra os dois polos, e não a favor de um deles; no voto útil do segundo turno, o anti-bolsonarismo pode empurrar para Lula eleitores de centro que rejeitam o PL, sobretudo os de Augusto Cury e de setores moderados. Ainda assim, a experiência de 2022 sugere que essa fatia é minoritária: o antipetismo estrutural do eleitorado de centro-direita brasileiro tende a prevalecer. A migração, portanto, é o fator que mais favorece Flávio, e não o motor da virada lulista.

O reservatório em que Lula deposita sua maior esperança é a abstenção de 33,3 milhões. O raciocínio da campanha petista, explicitado na reunião convocada por Lula em Brasília para preparar a "estratégia da virada", é o de que o eleitorado que faltou ao primeiro turno é, em proporção relevante, de perfil popular e nordestino, base tradicional do petismo que tende a se mobilizar mais no segundo turno, quando a disputa se torna binária e a polarização se intensifica. Historicamente, o segundo turno reduz a abstenção e ativa o eleitorado de baixa renda, e esse movimento historicamente beneficia o PT. Se a abstenção cair de forma expressiva e esse eleitorado migrar majoritariamente para Lula, o déficit de 2,2 milhões pode ser superado.

O contraponto é que a abstenção de 2026 foi recorde e reflete também desencanto, cansaço e desmobilização que não se revertem automaticamente. Além disso, parte dos faltosos é de eleitores jovens e de perfil menos partidário, cujo comportamento no segundo turno é imprevisível. A redução da abstenção é condição necessária, mas não suficiente, para a virada; ela só ajuda Lula se o eleitorado reativado for majoritariamente seu, o que não está garantido.

O fator que joga mais claramente a favor de Lula é institucional. Como presidente em exercício, ele dispõe da máquina pública federal, da capacidade de anunciar medidas e transferências, e da articulação com governadores eleitos no primeiro turno, sobretudo no Nordeste, onde manteve hegemonia.

A máquina estatal, o programa de transferência de renda e a rede de prefeitos petistas e aliados são ativos reais de mobilização de base que Flávio, como candidato de oposição, não possui na mesma escala. Esse é o principal motor da tese da virada: a capacidade de Lula de converter estrutura de governo em votos no segundo turno.

Há, contudo, limites. Lula chega ao segundo turno sem apoios expressivos de novos aliados relevantes, com desaprovação elevada (pesquisas prévias apontavam desaprovação acima de 50%) e com perda de votos em regiões antes fiéis, como o Nordeste e, de forma dramática, Goiás, onde caiu de 39,51% em 2022 para 31,06% em 2026. A máquina pública existe, mas o desgaste do governo limita sua eficácia eleitoral. Além disso, o PL elegeu a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, o que dá a Flávio uma estrutura partidária nacional robusta para o segundo turno.

O cenário mais provável aponta Flávio como favorito, mas com margem menor do que a do primeiro turno. A migração da terceira via favorece o PL; a máquina pública e a redução da abstenção favorecem Lula. O equilíbrio dessas forças sugere que o segundo turno será mais apertado que o primeiro, com Flávio entre 50% e 53% e Lula entre 47% e 50%, mas com o PL mantendo a dianteira.

A virada lulista é possível, e a matemática a torna tecnicamente acessível, mas ela depende de uma combinação improvável: migração expressiva do centro para Lula, queda forte da abstenção com eleitorado majoritariamente petista e conversão da máquina pública em votos, tudo isso contra a tendência histórica de o vencedor do primeiro turno confirmar-se no segundo e contra a composição conservadora da terceira via.

A leitura mais honesta é a de que o cenário nacional reproduz, em escala maior, o que se viu em Mato Grosso: a polarização se consolidou, a direita cresceu e o petismo encolheu em bases nominais, mas a disputa está longe de decidida.

Lula tem os instrumentos para tentar a virada, mas enfrenta um eleitorado de centro-direita que historicamente converge para o polo conservador.

A eleição de 25 de outubro será decidida menos por doutrina do que pela capacidade de cada campo de mobilizar o eleitorado que ficou em casa, e é aí que a máquina de Lula encontra sua última e mais concreta chance.

(*) JOSÉ RODRIGUES ROCHA JUNIOR é Advogado, pós-graduado em direito constitucional, Jornalista, Empresário, Escritor, Palestrante, Consultor e Conferencista.

 

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