Chegamos a 2026 sem um verdadeiro debate sobre o futuro. O que temos é uma espécie de grande DR nacional: cobranças de promessas não cumpridas, ressentimentos acumulados e desejo de revanche movendo eleitores, protagonistas e instituições ao mesmo tempo.
A escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro não nasceu propriamente de dois projetos de país colocados diante do eleitor. É também produto da acumulação de mais de uma década de crises que, em tempos normais, talvez coubessem em várias décadas: as Jornadas de 2013, a queda de Dilma Rousseff, a Lava-Jato, a eleição de Jair Bolsonaro, a pandemia, o 8 de Janeiro, os processos e a prisão do ex-presidente.
O brasileiro atravessou tantos acontecimentos extraordinários que passou a conviver com fatos históricos como quem dá bom-dia no grupo de WhatsApp.
É nesse ambiente que surge uma pergunta talvez mais importante do que a própria eleição: ainda podemos sonhar com outro país?
Reconheço que o pessimismo da inteligência é quase inevitável. O Congresso transformou o controle sobre parcelas crescentes do Orçamento em instrumento de poder. O Supremo tornou-se personagem cotidiano da disputa política. Governos e oposições parecem permanentemente mobilizados para impedir o adversário, enquanto questões estruturais continuam esperando.
Mas parar nesse diagnóstico seria aceitar a decadência como destino.
E os sonhos nem sequer precisam ser grandiosos. Usar melhor nossos recursos naturais. Completar a transição energética. Digitalizar o Estado. Recuperar territórios dominados pelo tráfico e pelas milícias. Melhorar a educação. Construir políticas públicas capazes de sobreviver à troca de presidente.
Isso deveria ser o mínimo de qualquer projeto de poder. É revelador do momento brasileiro que precisemos reapresentar o mínimo como sonho.
O bolsonarismo prometeu romper com os vícios de Brasília, mas, uma vez no poder, conviveu com práticas que dizia combater. O discurso antissistema terminou acomodado às engrenagens tradicionais do poder. E sua defesa da liberdade mostrou-se seletiva quando confrontada com a imprensa, a ciência e instituições que contrariavam seus interesses.
Não é necessário ser progressista para examinar criticamente esse legado. Basta comparar o discurso com aquilo que ocorreu quando o movimento chegou ao poder.
Mas tampouco é preciso aderir ao lulismo para chegar a essa conclusão.
É justamente aí que a política brasileira arma sua cilada preferida: convencer o cidadão de que rejeitar um lado significa necessariamente abraçar o outro.
Lula voltou ao Palácio do Planalto carregando a promessa de reconstrução institucional. Depois do 8 de Janeiro, porém, a defesa da democracia tornou-se o eixo quase permanente de sua administração, e parte importante da plataforma original foi se perdendo pelo caminho — entre ela, a sinalização de que não buscaria permanecer indefinidamente no poder.
E chegamos novamente à mesma lógica: de um lado, impedir a volta do bolsonarismo; do outro, impedir a permanência do lulismo.
São dois campos que se definem cada vez menos pelo país que oferecem e cada vez mais pelo país que dizem evitar.
A poucas horas da abertura das urnas, predomina a convicção. Segundo pesquisa da Quaest, 79% dos eleitores dizem que sua escolha é definitiva. Entre os eleitores de Lula, 86% afirmam estar convictos. Entre os de Flávio Bolsonaro, 82%.
A terceira via terminou, mais uma vez, no acostamento.
Mas há um recorte da pesquisa que talvez diga mais sobre o Brasil de 2026 do que os próprios números da corrida presidencial. Quando se pergunta o que os brasileiros temem, petistas e bolsonaristas acabam se encontrando no mesmo lugar: o medo.
Segundo a rodada da Quaest divulgada em 28 de setembro, 43% dos eleitores dizem ter mais medo de um novo mandato de Lula e outros 43% temem mais a volta da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Outros 7% manifestam temor diante dos dois cenários; 3% não temem nenhum deles e 4% não souberam ou não responderam.
É uma eleição em que milhões de brasileiros não parecem caminhar para a urna movidos pela esperança do que desejam construir, mas pelo receio daquilo que querem impedir.
O medo tornou-se um dos grandes cabos eleitorais de 2026.
Não necessariamente porque o país esteja satisfeito com as duas alternativas dominantes, mas porque a polarização conseguiu transformar cada eleição em uma decisão sobre qual adversário precisa ser barrado.
Nas ruas, as pessoas me perguntam sobre a eleição, e confesso não ter uma resposta confortável. Não porque falte informação — sobra —, mas porque falta um lugar confortável para pousar o voto.
A pergunta que ouço não é exatamente “em quem votar?”. É outra: ainda podemos sonhar com outro país?
Talvez possamos. Mas não do jeito como essa disputa está sendo apresentada.
E aqui está a distinção que considero fundamental: rejeito as duas alternativas que a polarização colocou no centro desta eleição, mas não considero equivalentes os riscos que elas representam.
Meu voto não exige paixão. Muito menos um cheque em branco.
É possível votar em Lula sem transformar Lula em objeto de devoção. É possível reconhecer seus erros, criticar seu governo, discordar de suas escolhas econômicas e políticas e cobrar as promessas que não cumpriu. É possível desejar que outro projeto político ocupe o lugar do lulismo no futuro e, ainda assim, concluir que, diante das alternativas concretas deste domingo, existe uma prioridade anterior a todas essas divergências.
Essa prioridade é preservar o terreno em que possamos continuar divergindo.
Fernando Gabeira recupera uma velha formulação associada a Gramsci: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. Talvez seja exatamente disso que precisamos agora.
Não de ingenuidade diante do que temos. Nem de resignação diante do que nos oferecem.
Precisamos continuar exigindo pequenas e grandes vitórias concretas: transparência no Orçamento, mudanças institucionais que reduzam tensões entre os Poderes, responsabilidade fiscal, segurança pública, educação de qualidade, um Estado mais eficiente e políticas capazes de sobreviver à troca de governo.
E precisamos preservar a possibilidade de cobrar tudo isso.
Com Lula no poder, sei que poderei continuar fazendo oposição a Lula.
Poderei criticá-lo neste espaço, cobrar suas promessas, apontar seus erros, questionar suas escolhas e desejar que outro projeto o substitua daqui a quatro anos. Não considero isso uma concessão do governante. É um direito do cidadão. É assim que uma democracia deve funcionar: governos passam, oposições permanecem e as regras permitem que amanhã os papéis sejam invertidos.
O que me inquieta no bolsonarismo é justamente a dúvida sobre essas regras.
Não afirmo saber como seria um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Mas não parto do zero para avaliar esse risco. A experiência recente do movimento que ele representa, sua relação conflituosa com a imprensa, a ciência, o Supremo e outras instituições democráticas me dá razões suficientes para não tratá-lo como uma abstração.
Por isso, meu voto não será um gesto de adesão.
Será uma escolha de prioridade.
Votar em Lula não exige que eu esqueça seus erros, absolva seu governo ou silencie minhas críticas a partir de segunda-feira. Pelo contrário. Se vencer, continuará merecendo vigilância, cobrança e oposição sempre que necessário.
O desencanto é legítimo. O que não considero legítimo é transformá-lo em indiferença diante de riscos que, para mim, são diferentes.
Entre o cinismo de dizer que dá tudo no mesmo e a lealdade cega a uma camisa política, existe o espaço de quem escolhe sem se entregar; de quem vota e continua cobrando; de quem não confunde o voto depositado na urna com quatro anos de obediência.
Não escolho entre santos. Escolho entre alternativas imperfeitas e assumo a responsabilidade pela minha escolha.
Porque, no fim, há uma diferença essencial entre fazer oposição a um governo dentro da democracia e correr o risco de ter de defender a própria democracia para continuar fazendo oposição.
Entre dois candidatos que estão longe de representar o país que eu gostaria de escolher, meu critério final é simples:
prefiro aquele a quem sei que poderei continuar fazendo oposição.
(*) GUSTAVO OLIVEIRA é jornalista em Cuiabá.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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