O mês de setembro chega ao fim nesta quarta-feira (30), mas a discussão levantada pelo Setembro Amarelo precisa continuar durante todo o ano. A campanha, voltada à prevenção ao suicídio e à conscientização sobre saúde mental, também chama atenção para uma realidade que nem sempre aparece diante das câmeras: a pressão emocional enfrentada por atletas.
No esporte de alto rendimento, vitórias e grandes resultados costumam ocupar os holofotes. Nos bastidores, porém, atletas convivem com cobranças por desempenho, medo de errar, lesões, derrotas, exposição nas redes sociais e incertezas sobre o futuro profissional.
A psicóloga clínica e esportiva Pamella Braz soma mais de 12 anos de carreira e começou a se aproximar da psicologia esportiva em 2014, ainda durante a graduação, quando realizou uma pesquisa de campo em Mato Grosso.
Antes de concentrar a atuação no esporte, trabalhou por cinco anos no setor de Recursos Humanos de grandes empresas, com foco em liderança e desenvolvimento humano, conciliando a atividade com os primeiros atendimentos clínicos.
Desde 2019, integra a comissão técnica do Melina Rugby Clube, equipe adulta feminina, e, em 2022, teve passagem pelo Cuiabá Esporte Clube. Atualmente radicada no Rio de Janeiro, Pamella é especializada em EMDR, abordagem voltada à ressignificação de memórias que geram bloqueios no presente, e atende atletas no Brasil e no exterior.
Para Pamella, o esporte foi historicamente construído em torno de conceitos como força, resistência e superação. Nesse ambiente, admitir sofrimento emocional ainda pode ser interpretado como sinal de fragilidade.
“O esporte foi construído em cima da ideia de força, resistência e ‘cabeça no lugar’. Pedir ajuda ainda é visto como fraqueza, e muitos atletas temem perder espaço no time, patrocínio ou a confiança da comissão técnica se admitirem que não estão bem.”
Segundo a especialista, a cultura do “aguenta que passa” contribui para que muitos esportistas enfrentem problemas emocionais em silêncio. A falta de profissionais de psicologia em algumas estruturas esportivas também dificulta o acesso ao acompanhamento.
“O tabu diminui quando entendemos que cuidar da mente faz parte do treino, assim como cuidar do corpo.”
A cobrança por resultados não se restringe às competições. Técnicos, torcedores, redes sociais e a própria auto exigência fazem com que o desempenho do atleta seja constantemente avaliado.
“O atleta vive sob avaliação constante: do técnico, da torcida, das redes sociais e dele mesmo. Essa rotina pode gerar ansiedade, medo de errar, perfeccionismo, dificuldade de descansar e alterações de sono e de humor”, ressalta Pamella.
Lesões, derrotas e a incerteza sobre o futuro profissional também podem aumentar o desgaste emocional. Outro aspecto apontado pela psicóloga é quando a identidade do indivíduo passa a ser construída exclusivamente em torno da carreira esportiva.
“Lesões, derrotas, avaliações constantes e a incerteza sobre o futuro na carreira, que tem um prazo, também pesam muito. Outro ponto importante é a identidade: quando a pessoa se enxerga apenas como atleta, qualquer queda de desempenho vira uma crise pessoal.”
Por isso, Pamella defende que o acompanhamento psicológico não seja procurado apenas em momentos de crise.
“O acompanhamento psicológico não deve ser só para os momentos de crise. Ele também ajuda a sustentar a performance com equilíbrio quando tudo está bem.”
Nos últimos anos, o debate sobre saúde mental ganhou espaço no esporte. Atletas de destaque passaram a falar publicamente sobre ansiedade, esgotamento e a necessidade de fazer pausas.
“Nos últimos anos, atletas de destaque passaram a falar abertamente sobre ansiedade, esgotamento e pausas necessárias e isso abriu espaço para que outros também falem.”
Pamella também percebe uma mudança na procura por acompanhamento profissional, com atletas buscando ajuda por iniciativa própria e antes que o problema se agrave.
“Hoje vejo mais atletas buscando terapia por conta própria e não apenas depois que o problema já se agravou. Ainda há um caminho longo, principalmente nas categorias de base e nas modalidades com menos estrutura, mas hoje há com certeza mais abertura para o trabalho.”
Com o encerramento do Setembro Amarelo, a especialista reforça que a atenção à saúde mental não pode ficar restrita a um único mês. Clubes, comissões técnicas, familiares e atletas precisam estar atentos aos sinais de sofrimento emocional.
Isolamento, mudanças de comportamento e perda de interesse ou prazer em atividades que antes faziam parte da rotina estão entre os sinais que merecem atenção.
“O atleta muitas vezes sofre em silêncio, cercado de pessoas o avaliando e de cobrança, mas sem se sentir autorizado a dizer que não está bem. A campanha nos lembra que falar sobre o assunto salva vidas, que sinais como isolamento, mudança de comportamento e perda de prazer devem ser levados a sério e que pedir ajuda é um ato de coragem”, reforça Pamella.
A mensagem do Setembro Amarelo vai além do calendário. Em um ambiente marcado pela busca constante por superação, reconhecer que algo não vai bem e procurar ajuda também faz parte do cuidado com o atleta.
Para quem enfrenta sofrimento emocional ou percebe alterações preocupantes no comportamento de alguém próximo, a orientação é buscar suporte profissional. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.
(*) PAMELLA BRAZ é psicóloga clínica e esportiva.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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