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Artigos Terça-feira, 29 de Setembro de 2026, 13:18 - A | A

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Terça-feira, 29 de Setembro de 2026, 13h:18 - A | A

GONÇALO NETO

A evaporação da dúvida

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO

Reprodução

GONÇALO NETO

Um dos eventos mais sutis da nossa era pode ser o sumiço da incerteza. Jamais tantas vozes estiveram à nossa porta, mas, por outro lado, pode ser que nunca tenha sido tão difícil despejar ao vento três palavrinhas que têm um peso de dar nó na cabeça: "eu não sei".

A filosofia nasceu exatamente no berço da incerteza. Sócrates incomodava a cidade de Atenas não porque detinha todas as soluções, mas porque expunha a fragilidade de quem se achava sábio. A dúvida não era um indicativo de uma mente enfraquecida. Era a sua prerrogativa para que tudo pudesse acontecer.

Séculos mais tarde, Descartes criou uma fórmula para organizar tudo isso. Era necessário questionar o que parece ser verdade, os costumes e até mesmo as crenças, para descobrir um alicerce firme onde o saber se ergue. A lógica começava exatamente no ponto em que a certeza se tornava um incômodo. A sociedade moderna parece trilhar um rumo completamente diferente.

As redes sociais se tornaram uma imensa feira de trocas de ideias, onde todos são sempre chamados a despejar suas opiniões, como se fossem balas de festim em um tiroteio de ideias. Num emaranhado de acontecimentos, agir com agilidade é como ter uma asa na hora do apuro. Conhecer os detalhes, ponderar os raciocínios ou captar as nuances é como tentar pescar com as mãos em um rio seco. A longa espera começou a soprar ventos de desconfiança. Ponderar antes de dar uma resposta pode ser visto como um sinal de vacilo.

O problema não está em espalhar a palavra como se fosse confete em festa, mas em algo bem mais profundo. Conceder a palavra a um mar de milhões é uma virada sem precedentes na história. A questão surge quando se mistura a liberdade de se expressar com a carga de ter de ser especialista em tudo.

Existe também uma sociologia da convicção. Integrar-se a determinados grupos significa não apenas compartilhar crenças, mas também abraçar visões de mundo já moldadas e elaboradas. A dúvida pode ter um gosto amargo de deslealdade. Quem tira dúvidas agita o ambiente, pois abre uma janela na fortaleza da comunidade.

Daí vem o fato de que sociedades divididas não brigam só por conceitos. Disputam como cachorros por um osso. É bem possível que esse fenômeno esteja rolando por aí, não só aqui nas terras tupiniquins.

O adversário transmuda-se de um cidadão com uma perspectiva diferente sobre a vida em um ser cujos princípios éticos levantam suspeitas. Nesse cenário, debater se torna uma tarefa tão inútil quanto tentar ensinar peixe a andar de bicicleta. Apenas organize. Um termo pode fazer o papel de uma ideia; uma etiqueta apaga a urgência de entender alguém de verdade; uma chama coletiva de revolta gera um laço de camaradagem.

A área jurídica também se vê de braços cruzados diante desse dilema. Avaliar requer exatamente o que o frenesi atual ignora: prestar atenção a relatos conflitantes, investigar evidências, seguir normas e reconhecer que o primeiro sentimento pode ser uma miragem. O devido processo legal, de certa forma, transforma a incerteza em uma formalidade reconhecida. Antes de passar a ferro um julgamento, é fundamental dar espaço para que a convicção seja posta à prova. Quem sabe por isso a suposição de que alguém é inocente vá além de ser apenas uma proteção legal.

A inteligência artificial traz uma nova camada ao enigma. As máquinas despejam respostas rápidas e com um papo que engana até o mais desconfiado dos ouvintes. Quanto mais autêntica soar a resposta, maior será a chance de confundir a aparência de fluência com a realidade. A invenção, hábil em responder a quase qualquer dúvida, pode elevar ainda mais o talento humano de indagar.

Quem sabe o verdadeiro risco não reside em navegar por um tempo cheio de dúvidas? É como dançar em uma festa em que todos fingem saber o passo da valsa.

É por aí...

(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto) é ocupante da Cadeira 19 da Academia Mato-Grossense de Magistrados (AMA), anteriormente ocupada pelo saudoso Desembargador Atahíde Monteiro da Silva, e da Cadeira 30 da Academia Mato-Grossense de Direito (AMD). (Email:[email protected]).

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