Há algo profundamente equivocado na forma como os partidos políticos operam no Brasil contemporâneo. E o problema não é apenas de desempenho, é de essência.
Historicamente, um partido político nunca foi pensado como uma máquina de poder desprovida de princípios. Para Edmund Burke, tratava-se de uma associação de cidadãos unidos por ideias e comprometidos com o interesse público. Na leitura de Max Weber, os partidos são instrumentos fundamentais de organização da vontade política, responsáveis por dar racionalidade à disputa pelo poder.
Em síntese, deveriam ser pontes entre a sociedade e o Estado e não estar nos balcões de negócios.
Mas essa ponte foi, aos poucos, sendo substituída por uma estrutura com lógica empresarial.
O avanço do financiamento público de campanhas, embora tenha surgido com o objetivo legítimo de reduzir a influência do poder econômico privado, produziu um efeito colateral preocupante: transformou os partidos em gestores de grandes volumes de recursos. O controle dessas verbas passou a ser, em si, um ativo político. E onde há ativos, há disputa, cálculo e interesse.
Nesse ambiente, confirma-se a advertência de Robert Michels sobre a “lei de ferro das oligarquias”: poucos controlam muitos, e o objetivo deixa de ser representar para se tornar preservar o próprio poder. Dirigentes partidários assumem o papel de executivos; candidaturas tornam-se investimentos; e o eleitor, reduzido à condição de mercado consumidor.
O resultado é visível: partidos que já não se estruturam em torno de ideias, mas de estratégias. Programas são substituídos por narrativas; convicções dão lugar à conveniência; e a política, esvaziada de conteúdo, passa a operar sob a lógica do marketing.
É nesse ponto que a degradação se aprofunda. Em vez de qualificar o debate público, muitos atores políticos passaram a explorá-lo emocionalmente. A religião, que deveria ser fonte de valores éticos e reflexão espiritual, é instrumentalizada como ferramenta de mobilização. O medo, analisado por Thomas Hobbes como elemento estruturante da ordem política, é manipulado para gerar dependência e controle. E o ódio, como já advertia Theodor Adorno, transforma adversários em inimigos, corroendo as bases da convivência democrática.
A política, assim, deixa de ser o espaço do diálogo como defendia Hannah Arendt para se tornar um campo de disputa emocional, onde vencer importa mais do que convencer.
E talvez esse seja o ponto mais crítico: não se trata de uma crise de partidos isolados, mas de uma crise do próprio sistema de representação. Como alerta Giovanni Sartori, a democracia depende de partidos com identidade, coerência e responsabilidade. Sem isso, o que resta é uma estrutura vazia, facilmente capturada por interesses circunstanciais.
O Brasil, hoje, enfrenta exatamente esse risco. Partidos que deveriam formar lideranças e oferecer caminhos para o país passaram a operar como empresas políticas, orientadas por retorno, seja ele financeiro, eleitoral ou de poder.
Não é exagero afirmar: quando a política se transforma em negócio, a democracia se torna produto.
Reverter esse quadro exige mais do que reformas legais ou ajustes institucionais. Exige uma mudança de cultura política. É preciso resgatar o sentido original dos partidos: espaços de construção coletiva, guiados por ideias, responsabilidade e compromisso com o bem comum.
Sem isso, continuaremos assistindo à substituição da política pela estratégia, da verdade pela narrativa e do cidadão pelo consumidor eleitoral.
E uma democracia de consumidores jamais será uma democracia de cidadãos.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
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