| Divulgação |
![]() |
– Meu caro Noel, você acaba de completar 55 e já foi vereador por três mandatos consecutivos; pra quê mais? Já foi líder de bancada, já foi presidente da Câmara por duas vezes, então pra quê mais? E lembre-se do infarto... Venha ser meu secretário de Governo, chefiar meu gabinete...
O indicador em riste, a cólera ameaçou se apossar dele mais uma vez, mas o Noel se safou pela tangente interpondo um argumento que, ele bem sabia, costuma soar como melodia angelical aos ouvidos de qualquer político:
– Mas, Jão, eu não posso... não posso deixar de querer ser vereador! Pois, olhe: eu amo demais esta cidade! Quando a olho, como agora, aqui do alto, é que eu sinto o quanto a amo, de paixão! As casas pequenas, as pessoas nas ruas correndo pra lá e pra cá, trabalhando, se amando e se odiando lá em baixo, e eu aqui em cima, no comando! Tenho o dever de comandá-las ou de, pelo menos, ajudar a comandar esta gente que amo tanto! Secretário não tem poder de fato; vereador, sim, tem poder! E conferido, legitimamente, pelo povo!
Coisa triste nesta vida é o engano, o ato de acreditar muito numa coisa ou pessoa qualquer do mundo. Coisa tristíssima e irremediável é o tal do autoengano, quando o sujeito encasqueta de acreditar cegamente em si mesmo, ainda que não tenha (às vezes, nem mesmo medianas) razões para tal.
Este o caso do Noel, pois, como se diz no folclore futebolístico, faltou combinar com o adversário, no caso, com o eleitor amigo. Teve votação decepcionante, amargando uma terceira suplência de coligação vencida e só não acreditou que o Jão Balão estava ciente da sua iminente derrota, quando viera com aquela conversa mole de desistência, porque ele também dançou nas urnas, de modo que nem vereador nem secretário nem nada, a caminho dos 60, calvo e barrigudo, com o joelho estourado no futebol de várzea, candidato ao infarto reincidente e a outras mazelas mais trazidas inexoravelmente por esta máquina infalível de fazer monstros, o Tempo.
Mas, pensando bem, para a gente que conhece um pouco dos meandros da política e de outras ilusões humanas, isto ainda não é nada, não é nada, pois pelo menos tanto o Noel quanto o João Balão já haviam experimentado o gosto de ter chegado a se eleger para alguma coisa, e por mais de uma vez na vida. Eu e você, amigo leitor, com certeza conhecemos muitos outros que nunca chegaram a tanto, nunquinha na vida.
Eu, por exemplo, hoje, conferindo a famosa Lista das Apurações neste 2012 e me lembrando de projeções há pouco feitas por alguns amigos candidatos ou por algum correligionário mais chegado, fico me perguntando, seriamente e sem nenhuma razão para chacota, o que pode levar nesta vida uma pessoa, às vezes sem nenhum carisma nem qualquer serviço prestado à comunidade, a se candidatar a algum cargo público. Só pode ser pelo tal do autoengano – isto, naturalmente, quando o sujeito (ou “a sujeita”) não está deliberadamente enganando a outrem, como no caso de funcionários públicos que, segundo dizem, às vezes se candidatam tão somente para tirar folga de não sei quantos meses e, ainda por cima, pra abocanhar alguma benesse de caixa de partido (que isto, tal qual as bruxas, garantem que existe, sim!).
Quando criança, lá na roça, ouvia falar de pessoas que, como eu e os meus irmãos, não sabem dançar e então acham que, se por acaso dançassem, todas as moças (ou moços) iriam querer dançar com elas. Acho que isto de se candidatar, na política, deve ser a mesma coisa. Na minha família mesmo, ouvi por mais de uma vez e a propósito de eleições para cargos diferentes, estas mesmas explicações:
– Olha, eu não quero ser candidato não, Deus me livre de uma coisa dessas, eu nunca na vida pensei em me candidatar a nada... Mas o fulano [um figurão local ou estadual, é claro!] falou que se eu não sair, não tem jogo. E não tem política: a gente perde na certa!
E, pra arrematar este texto que já vai ficando longo e também periga se transformar em mais um autoengano (do escrevinhador), quero apenas relatar mais um caso.
Aconteceu com o Tião Faz-Tudo, lá da minha terra, quando se candidatou, pela primeira e única vez, a vereador. A poucos dias da eleição, no avarandado de sua casa proseando em alto-astral e despreocupadamente, ele nos confidenciou:
– Meu negócio é na certa, na psicologia, na estatística e na matemática! Estive computando os meus votos neste caderno aqui e, só de voto certo, confirmado, computei 450. Falo assim “voto certo” porque se for pra contar os outros, os mais ou menos e os duvidosos, dá pra mais de 800! É na matemática! E na alegria!
Veio a apuração, não veio a alegria e o município, pouco populoso, teve como vereador campeão nas urnas o camarada Braz Amadeu, com 430 votos. Já o camarada Tião, traído pelo maldito caderno e a matemática matreira, não passou de 52!
(*) MARINALDO CUSTÓDIO é escritor, mestre em literatura brasileira, e colaborador de HiperNoticias.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.








